Ciclo de debates da UFBA trata do acesso à cidade, mídia e crise nas esquerdas

Debates sobre conjuntura política do ciclo Crise e Democracia, promovido pela Reitoria com apoio da Apub, da Assufba e do DCE.

Debates sobre conjuntura política do ciclo Crise e Democracia, promovido pela Reitoria com apoio da Apub, da Assufba e do DCE.

O encerramento do ciclo de debates Crise e Democracia ocorreu nesta sexta-feira (08/04/2016) em Salvador. No salão nobre da reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA),  quatro convidados finalizaram a semana de encontros e trouxeram contribuições a partir de vivências e estudos, com opiniões sobre o atual quadro político e social do Brasil.

Iniciando a mesa redonda, a professora de arquitetura e urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), Ermínia Maricato, trouxe para o debate as questões relacionadas ao direito, à cidade e o acesso aos locais urbanos pelas populações que estão à margem.

Maricato concentrou o discurso no acesso à cidade, aos direitos de moradia, saneamento básico e acesso aos locais de trabalho com facilidade. Sobre isso, ela disse que, no Brasil, não faltam leis e planos para uma cidade mais humana, nas quais “as pessoas não precisam sofrer para se locomover”. O que ainda não é cumprido totalmente, segundo ela. A professora ainda criticou, de forma indireta, as tentativas de afastamento da presidenta Dilma Rousseff e a polarização ideológica na qual o país se encontra,

“Eu acho que fica claro que eu não estou defendendo nenhum partido e já fui de governos do PT e me afastei do partido. O que não dá para aceitar é que queiram que a gente regrida no pouco que avançamos. Isso significa que nós precisamos do diálogo, que a polarização não nos ajuda e que nós precisamos ensaiar a tolerância”.

Poucas mudanças

Em seguida, foi a vez do especialista em ciências políticas e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Marco Aurélio Nogueira. Para ele, o que algumas pessoas chamam de golpe “não existe”, apesar da divergência de posições políticas no Brasil.

“Podemos especular e brigar à vontade, falar contra ou a favor do impeachment, considerar um golpe ou um procedimento institucional, mas não deveríamos deixar de reconhecer o fundamental: seja qual for o desfecho desta crise, pouca coisa mudará. Ou seja, a crise irá se reproduzir, irá se estender”, declarou o professor, que definiu como “envenenado” o atual momento político.

Nogueira diz que o Brasil parece destinado a permanecer em uma complicada situação de caos estabilizado. Para ele, o argumento de que o atual afastamento de Dilma representará o início de uma ascensão da direita e dos neoliberais não passa de retórica. “No mínimo porque eles, a direita e os neoliberais, já estão aí colados aos governos petistas desde sempre”, disse o professor, ao defender novas eleições no Brasil.

O professor criticou os governos Lula e Dilma, ao dizer que eles não exerceram poderes de esquerda e nem introduziram reformas profundas na sociedade, sustentada, segundo ele, por “políticas assistencialistas de facilitação do consumo para uma parcela de massa dos mais pobres”. Nogueira disse que o resultado do atual cenário brasileiro pode ser de responsabilidade da esquerda e não da direita.

“Seja qual for o desfecho desta crise, a esquerda pagará o preço maior. Nos dias de amanhã e depois de amanhã, ela terá de processar as causas do seu fiasco que não poderá ser explicado como se tivesse sido provocado por uma investida da direita ou dos grandes meios de comunicação, mas sim como um desdobramento dos graves erros cometidos pela própria esquerda ou pela parte dela que assumiu o governo federal”.

Cobertura da mídia

O terceiro palestrante da noite foi o jornalista Bob Fernandes e comentarista da TV Gazeta. Durante os minutos de fala, ele contextualizou a atual cobertura dos meios de comunicação em relação à política atual. Com exibição de imagens de páginas de jornais, revistas e documentos, o jornalista criticou o “silenciamento da imprensa”, citou situações de compra de espaços nos canais de televisão, mostrados na apresentação.

Fernandes explicou como funcionam os meios de comunicação, os interesses políticos e econômicos que explicam a falta de cobertura de determinados assuntos. “Alguém aqui acredita que as empreiteiras são monotemáticas, que os computadores só tratavam da Petrobras? Onde estão essas informações, que ninguém fala?”, questiona.

O jornalista disse que os assuntos, ainda que antigos, não devem ser prescritos para o jornalismo, pois, para ele, as situações explicam o processo de construção de narrativas dos meios de comunicação. “Estão investigando o Instituto Lula e devem investigar todos os demais. E quando digo que devem, refiro-me ao jornalismo”.

Crise das esquerdas

Finalizando a última mesa redonda da semana do ciclo de debates, o integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, fez uma análise da atual conjuntura política e econômica brasileira. Antes de se adentrar no assunto, o convidado dedicou a noite de debates aos dois militantes do MST mortos na noite de ontem (7), o que provocou as palmas do público presente. Rodrigues diz que há uma “reorganização de formas sutis de fazer o golpe”.

“A crise que as esquerdas e o projeto socialista vivem em todo o mundo refletem experiências mal-sucedidas. Se olharmos o retrovisor da história veremos que a última revolução vitoriosa foi há cerca de 50 anos. Ou seja, isso impacta em uma geração que não entende o significado da palavra socialismo”, disse o integrante do MST. “Além disso, há um fortalecimento das ideias conservadoras de direita, o chamado fascismo, que tem como principal forma de luta a violência contra os negros, pobres, homossexuais etc”.

Para Rodrigues, a crise pela qual passa o Brasil não é exclusividade do país e está em muitas nações do mundo, mas, para ele, o caso brasileiro mostra a crise da frente neodesenvolvimentista, que deu sustentação ao lulismo, de acordo com ele. “As tarefas da esquerda na interpretação dessa crise são duas: primeiro é a necessidade de fazer lutas nas ruas, de fazer enfrentamento e questionamento, para mudarmos esse governo para a esquerda, como condição de ele sobreviver. O segundo elemento é continuar na rua”, disse.

Após as apresentações, pessoas da plateia se inscreveram para fazer comentários e questionamentos aos membros da mesa, além ressaltarem a importância do debate para o ambiente acadêmico. O ciclo de debates Crise e Democracia ocorreu na Reitoria da UFBA, ocorreu durante toda esta semana –de segunda a sexta-, em Salvador. O encontro foi transmitido, ao vivo, pela internet, durante as cinco noites.

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