Brasileiro não vê debate sobre papel do Estado no impeachment, diz Data Popular

Sessão especial para votação do parecer que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Cidadãos percebem descompromisso dos deputados com relação às necessidades da nação.

Sessão especial para votação do parecer que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Cidadãos percebem descompromisso dos deputados com relação às necessidades da nação.

O diretor do Instituto Data Popular, Renato Meirelles, que pesquisa as classes C, D e E no Brasil, disse, no programa Brasilianas.org, da TV Brasil, que o brasileiro médio não enxerga uma discussão de modelo de Estado a partir do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. “Quando se faz a narrativa sobre um golpe na presidenta Dilma é algo que se fala muito bem para os formadores de opinião, que tem um certo apelo na intelectualidade, mas que fala muito pouco para a dona Maria e seu João”, disse.

Para Renato Meirelles, está cada vez mais claro que a classe política “só sabe falar para si mesma”. “É como se os políticos fossem analógicos para um novo eleitor, que é digital e quer se sentir participante, que quer trocar e ter informações”, disse.

O brasileiro tem uma visão de Estado que é bem diferente da visão das camadas políticas que disputam o poder, afirmou o diretor do Data Popular. “Temos um campo que defende um Estado enxuto, um Estado mínimo, e do outro lado tem uma parcela do governo que defende um Estado grande, um Estado que de fato tem um peso sobre a economia do país e um conjunto de decisões grandes. O que o brasileiro médio pensa? Quero um Estado eficiente e presente.”

“O brasileiro gostaria que existisse um código de defesa do cidadão nos modelos de um Código de Defesa do Consumidor, por exemplo. Hoje, quando ele passa três horas na fila do banco sabe para quem vai reclamar; se ele passa três horas na fila do SUS, ele não sabe para quem vai ligar”, disse o pesquisador.

O programa Brasilianas.org foi ao ar na segunda-feira (18/04/2016), na TV Brasil. Renato Meirelles, junto com o fundador da Central Única das Favelas, Celso Athayde, é autor do livro Um País Chamado Favela, que traz a maior pesquisa já feita com moradores de favelas no Brasil, em 63 comunidades, de 35 cidades brasileiras.

Projeto do PMDB

Segundo Meirelles, o brasileiro comum nem sabe o que é Uma Ponte para o Futuro, proposta apresentada pelo PMDB para tirar o Brasil da crise. “Mas não tenho dúvida nenhuma que alguns dos pontos apontados naquele texto, como a desindexação do salário mínimo e o fato de não ter mais a garantia constitucional do investimento mínimo em educação e saúde, são pontos que a grande maioria da população é contra”, disse. “Eles não entendem que isso faça parte do projeto Temer [vice-presidente Michel Temer], exatamente porque essa discussão não foi feita”, afirmou.

Uma Ponte para o Futuro é um documento apresentado aos correligionários do PMDB com uma série de medidas, visando a retomada do crescimento da economia brasileira e críticas aos “excessos” cometidos pelo governo federal nos últimos anos. O texto deve nortear as ações de um eventual governo de Michel Temer.

Coalizão popular

Para o diretor, a concepção de movimento social se ampliou muito nos últimos tempos, mas “muito menos por uma competência do governo em tentar fazer isso, do que por uma necessidade”. “É como se boa parte dos brasileiros que têm um pensamento mais de esquerda, e algum tipo de militância nas questões racial, de gênero ou de identidade sexual, fosse coercitivamente levada a fazer uma coalização sobre um projeto de país”, afirmou.

Segundo ele, a movimentação dessas pessoas que têm o pensamento mais progressista, e que defende uma presença maior do Estado para oferecer igualdade de oportunidades às pessoas, ocorreu à revelia do governo, e foi o que garantiu a reeleição da presidenta Dilma em 2014. “O senador Aécio Neves estava à frente, no segundo turno da eleição. Foi uma presença decisiva dessa militância mais progressista que fez com que houvesse a virada no processo eleitoral”, disse.

De acordo com o diretor do Data Popular, os movimentos sociais, como Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que antigamente eram críticos ao governo, estão, no limite, sustentando o governo Dilma.

“Resta saber, caso a presidenta Dilma Rousseff consiga superar o impeachment, se ela vai voltar a ter um governo como foi o início do segundo mandato ou fazer a tão sonhada guinada à esquerda que o movimento social espera”, disse o pesquisador.

Briga de elites

O diretor do Data Popular disse que, quando as pessoas são indagadas sobre os motivos que levam os políticos a apoiar o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, três quartos dos brasileiros afirmam que eles querem o lugar dela, e não que eles estejam interessados em melhorar a vida das pessoas. “A grande maioria da população está se vendo completamente fora desse debate. A população brasileira acha que, na prática, é uma briga de poder, e é uma briga das elites ”, disse.

Segundo Renato Meirelles, o perfil dos manifestantes, tanto a favor quanto contra o impeachment, é de cidadãos com renda mais alta do que a média da população, de uma elite formada por empresários nas manifestações pró-impeachment e uma maioria formada por funcionários públicos, intelectuais e professores na posição contrária ao processo.

O maior motivo de insatisfação dos brasileiros hoje, para Meirelles, é a economia, e uma demanda por discussões sobre futuro. “É fácil entender isso, é só perguntar qual seria a opinião das pessoas sobre o impeachment, caso a economia brasileira estivesse crescendo 5% ao ano. Vimos muito debate sobre a corrupção, mas nenhuma proposta para efetivamente combater a corrupção, como, por exemplo, para mudar o modelo de licitação, para discutir financiamento público de campanha, para discutir o que realmente interessa para estancar esse debate”, disse.

Também participaram do programa da TV Brasil, a jornalista política Tereza Cruvinel e o cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Aldo Fornazieri. Eles debateram sobre o processo de impeachment e a votação, no último domingo (17), na Câmara dos Deputados.

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