Os protagonistas da queda

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e presidente Dilma Rousseff durante cerimônia de posse dos novos Ministros de Estado. Artigo analisa momento político nacional.

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e presidente Dilma Rousseff durante cerimônia de posse dos novos Ministros de Estado. Artigo analisa momento político nacional.

O impacto de horror no espetáculo circense da política brasileira chegou ao ápice na imolação pública de líderes antes considerados benfeitores da nação, caídos em desgraça após as investigações da Operação Lava Jato. Esse show de variedades acabou por implantar no país uma agitação de pesadelo na irrupção de violência em torno da nomeação do ex-sindicalista Lula da Silva como ministro de dona Dilma.

Essa desastrada nomeação conseguiu criar uma espiritualidade estranha no êxtase popular e no domínio da sua vontade sobre esse suicídio ritual que está sendo executado pelos grupos em confronto, fazendo com que o povo se torne – por negligência, desconhecimento, ignorância ou desígnio -, apenas um cumplice do ato. Dificilmente esse povo será o protagonista principal da queda do governo da presidente Dilma. Tampouco da queda do único e maior líder do PT, Lula da Silva.

O bloco governista que pretende abandonar a presidente justamente agora que foi instaurado o processo do seu impeachment, é composto de criaturas vistas com desconfiança pelo próprio povo, ainda mais por virem de posições onde viviam cercadas de poder e mordomias. O vice-presidente Michel Temer e seu grupo fazem parte desse grupo, que pretende varrer para debaixo do tapete as sujeiras antigas, em vez de criarem um estábulo novo para todos.

A queda de Dilma significa a subida de Temer. E é aí que está o perigo. Por ocasião da divulgação de uma suposta doença da presidente Dilma que poderia obrigá-la a renunciar ao governo, a deputada carioca Cidinha Campos, irresignada com a notícia, afirmou: “Meu Deus! Preciso saber como está a saúde da Presidente, pois, se ela morrer e o Michel Temer assumir a presidência deste país, amanhã mesmo eu saio do Brasil”.

Este misterioso personagem já foi alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal, suspeito de participar de um suposto esquema de cobrança de propina por empresas detentoras de contratos no Porto de Santos, na década de 90. Segundo foi divulgado na época, a Polícia Federal naquela cidade instaurou um inquérito para investigar o esquema em 2006, e o caso só chegou ao STF cinco anos depois. Posteriormente foi arquivado pelo então engavetador-mor da República, Geraldo Brindeiro.

Agora que chegou o impeachment, Temer se articula para ser o Presidente. Ele sabe que só chegará à presidência através desse expediente, por isso não se furtará (o verbo está na moda como disse um jornalista) a ser o novo Joaquim Silvério dos Reis.

Outro protagonista da queda da presidente é o deputado Eduardo Cunha, acusado pela deputada Cidinha Campos de ter vendido ao traficante Juan Carlos Ramirez Abadia, por U$ 800 mil uma casa em Angra dos Reis, no litoral sul fluminense. Essa é apenas uma das inúmeras acusações contra esse deputado. Mesmo assim ele conta com o apoio da Câmara para continuar mandando e desmandando na Casa, sem falar no STF, que apenas ensaia julgá-lo.

O último protagonista da queda é o senador Renan Calheiros, também denunciado no STF por inúmeras irregularidades. Se resolver impedir o impeachment, tem condições de receber o apoio necessário para barrar o desejo de Temer. Se, no entanto, apoiar o impeachment, dona Dilma não conseguirá permanecer no poder. Sua queda é irreversível.

O fato é que, seja qual for o desfecho desse espetáculo circense, o país sobreviverá, pois transcende os erros do governo. Quando não, para acreditar que milagres desse tipo, embora sejam ilusões criadas para reconfortar os desesperados, podem acontecer.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia.