Editorial: Fernando Henrique Cardoso, o príncipe e o Golpe de Estado

Fernando Henrique Cardoso (FHC), o príncipe revela o momento de tomar o poder: “agora o caminho é o impeachment”.

Fernando Henrique Cardoso (FHC), o príncipe revela o momento de tomar o poder: “agora o caminho é o impeachment”.

Senadores José Agripino Maia (DEM) e Aécio Neves (PSDB) exemplo de união conservadora na tomada do poder da República. Enquanto Aécio Neves braveja que governo deve chegar ao fim por conta do Caso Lava Jato, Agripino Maia responde a processo por envolvimento no caso. Ambuiguidade discursiva dissimular real intenção dos conservadores, usurpar a República.

Senadores José Agripino Maia (DEM) e Aécio Neves (PSDB) é um exemplo de união conservadora na tomada do poder da República. Enquanto Aécio Neves braveja que governo deve chegar ao fim por conta do Caso Lava Jato, Agripino Maia responde a processo por envolvimento no caso. Ambiguidade discursiva dissimula real intenção dos conservadores, usurpar a República.

Em São Paulo, manifestantes em ato pela Democracia e pela manutenção do mandato da presidente Dilma Rousseff. População conflagrada pela tentativa de tomada da tomada de poder dos conservadores reacionários.

Em São Paulo, manifestantes em ato pela Democracia e pela manutenção do mandato da presidente Dilma Rousseff. População conflagrada pela tentativa de tomada do poder da República pelos conservadores reacionários.

Como o discurso do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) evidenciou um processo de construção de unidade ideológica com a finalidade de manter coeso os conservadores no propósito de destituir a presidente Dilma Rousseff?

A análise apresentada a seguir é fundamentada na práxis de Fernando Henrique Cardoso, cuja finalidade é retomar o poder da República – para o PSDB – através de um Golpe de Estado utilizando uma pseudo ordem democrática. As evidencias matérias da análise ocorrem a partir da série de declarações e atividades desenvolvidas pelo ex-presidente, no contexto da crise econômica, estimulada pelo Caso Lava Jato, maior esquema de corrupção descoberto no país. Acrescida da crise política, oriunda do Congresso de maioria conservadora, cujos membros estão sendo atingidos pelas investigações do caso de corrupção. Em conjunto com esses elementos, o apoio da mídia e de agentes econômicos identificados com o Golpe Civil/Militar de 1964.

Destaca-se, nesse processo de crise política, o papel desenvolvido pelo presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB/RJ). Observa-se que o deputado responde criminalmente no Supremo Tribunal Federal (STF) por atos de corrupção desvelados nas investigações do Caso Lava Jato. Nesse contexto, ele desenvolve a função de anti-herói do Golpe de Estado na pseudo ordem democrática.

A análise tem início com a abordagem diacrónica da entrevista concedida, ao jornal Estadão no sábado (19/03/2016), pelo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC – PSDB), oportunidade em que aborda o momento político nacional. Na sequência, é revelado como o discurso do ex-presidente está em sincronia com a construção de unidade ideológica das forças conservadores. Cuja finalidade é usurpar o Poder da República, através da derrubada de uma presidente legitimamente eleita com o sufrágio de 54.483.045 milhões de cidadãos (51.65% – votos válidos, em 2014).

A vaidade que desvela

Ao analisar as declarações de FHC, ao longo do processo de reeleição de Dilma Rousseff e durante os primeiros 15 meses de governo, materializa-se como o ex-presidente atuou no sentido de orientar ideologicamente o processo de tomada de poder pelos conservadores reacionários.

A entrevista publicada no Jornal Estadão é iniciada com uma afirmação inverossímil, de que é a primeira vez que FHC defende o impeachment da presidente Dilma Rousseff. A manipulação discursava, marca da mídia responsável pela sustentação ideológica ao Golpe Civil/Militar de 1964, é evidenciada, ao analisar série de reportagens publicadas no Jornal Grande Bahia (JGB), que abordam a visão de FHC sobre a crise política e econômica que atingi o país. Nas reportagens do JGB, reiteradamente, ele aponta para medidas necessárias para se conseguir derrubar o governo Rousseff, dentre elas, a mobilização das massas, fazendo referência ao “clima político” necessário.

Com as declarações ao jornal Estadão, Fernando Henrique Cardoso evidencia outro aspecto da personalidade que o deixou famoso nos tempos em que ocupava o Palácio do Planalto, a vaidade e o papel de príncipe em uma democracia despótica. Os conceitos impregnados na personalidade, pensamento e na ação do ex-presidente serão explicados e exemplificados a seguir.

Orientação para construção do golpe

Sobre a defesa do impeachment de Dilma Rousseff, o ex-presidente FHC revela, em entrevista ao Estadão, que: “eu fui passo a passo. Cheguei a defender que ela tivesse um gesto de grandeza e renunciasse. Eu sempre procurei ter uma atitude serena em relação a esses processos políticos e especialmente em relação à presidente Dilma. Dificilmente você vai ver uma palavra agressiva minha em relação à presidente Dilma. Não apenas pela consideração institucional, mas também pessoal”.

Retrocedendo no tempo, observa-se que durante encontro, ocorrido em 10 de dezembro de 2015, estiveram reunidos em Brasília o senador e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin; o senador José Serra, dentre outras lideranças políticas da oposição, na oportunidade FHC não apenas expressou ser favorável ao impeachment como instruiu ideologicamente de que forma atingir o “clima político” ideal para consecução do impeachment.

A reunião entre os líderes do PSDB e das oposições tinha por finalidade analisar as falhas decorrentes da primeira tentativa de destituir a presidente Dilma Rousseff, através da abertura do processo de impeachment deflagrado em 2 de dezembro de 2015, pelo “honesto” parceiro do Golpe de Estado Eduardo Cunha, presidente da Câmara Federal.

Falhas jurídicas na instrução processual, culminada com mobilização de setores organizados da sociedade, que repudiavam a tentativa de destituição da presidente Dilma Rousseff, fizeram com que os conspiradores repensassem a estratégia. Contribuiu a posição do Supremo Tribunal Federal (STF) em estabelecer conjunto de regras com as quais deve transcorrer o processo de impeachment.

Lições de um príncipe

Categoricamente, na oportunidade, o príncipe FHC afirmou que existiam motivos suficientes para concretizar o impeachment de Dilma Rousseff. O conceito de príncipe é uma alusão as ações e discursos utilizados pelo ex-presidente e identificados na clássica obra de Maquiavel, ‘O príncipe’.  A obra, dentre outros aspectos, aconselha quais medidas devem ser tomadas por um governante, com a finalidade gerir e manter o poder, além de explicar como se constituiu o Poder no Estado. Conforme observa-se na seguinte citação:

– O principado é constituído ou pelo povo ou pelos grandes, conforme uma ou outra destas partes tenha oportunidade: vendo os grandes não lhes ser possível resistir ao povo, começam a emprestar prestígio a um dentre eles e o fazem príncipe para poderem, sob sua sombra, dar expansão ao seu apetite; o povo, também, vendo não poder resistir aos poderosos, volta a estima a um cidadão e o faz príncipe para estar defendido com a autoridade do mesmo. O que chega ao principado com a ajuda dos grandes se mantém com mais dificuldade daquele que ascende ao posto com o apoio do povo, pois se encontra príncipe com muitos ao redor a lhe parecerem seus iguais e, por isso, não pode nem governar nem manobrar como entender. (MAQUIAVEL, 2002, p. 36)

Escrita em 1513, a citação de Maquiavel expressa como o Poder se constitui e como é necessário para consecução do Golpe de Estado a criação de um “príncipe” que não pareça despótico ou autocrático. Observa-se que nesse contexto, a mídia exerce o papel de criar o “príncipe ideal”, ou seja, de desenvolver no imaginário coletivo o conceito de que determinado personagem reúne as qualidades expressas pelos anseios da população, demonizando os atuais ocupantes do poder e os respectivos apoiadores. Todavia, esse “príncipe” forjado pela conjunção entre os conservadores do setores econômico, político, judicial e da histórica mídia golpista não passe de um títere dos interesses dos conservadores, ou, como cita Maquiavel, dos poderosos.

Retomado a análise do encontro entre os líderes do PSDB e das oposições, observa-se, no encontro ocorrido em dezembro de 2015, a reiterada orientação ideológica de FHC para consecução do Golpe de Estado através de uma pseudo ordem democrática:

“Você desrespeitar reiteradamente a Lei de Responsabilidade Fiscal tendo em vista benefícios eleitorais, porque houve abundância de uso de recursos para uso em programas sociais em ano de eleição, é uma razão consistente”, disse FHC. Ele disse ainda que entende o impeachment como um processo jurídico-político e que um presidente só pode ser tirado no meio do mandato se houver “clima político”.

“Se esse clima se formar, há razões [para o processo de impeachment]. Se esse clima não se formar, não há razão que derrube um presidente da República que foi eleito, que teve voto. Não é um processo simples. Parece-me que o clima atual é de que o governo está muito paralisado. E um país como o Brasil, com tantos problemas pela frente, não pode ficar esperando que as coisas se resolvam por si. Precisa que haja ação política”, avaliou o ex-presidente da República.

Sintomaticamente, o candidato a presidente derrotado por Dilma Rousseff, Aécio Neves, resumiu o encontro como um momento para “afinar a orquestra” em torno do discurso favorável ao processo de impeachment.

Passado e presente unidos na tomada do Poder

Analisando as orientações de FHC, em dezembro de 2015, e o que ele expressou para o Estadão, no sábado: “Mas, com a incapacidade que se nota hoje de o governo funcionar, de ela resistir e fazer o governo funcionar, eu acho que agora o caminho é o impeachment. Se eu bem entendi o que as ruas gritaram, foi isso. As ruas gritaram renúncia, fim, impeachment”, infere-se que as declarações do ex-presidente objetivam motivar os parlamentares indecisos no Congresso Nacional a aderirem ao impeachment.

Observa-se que passado e presente estão conectados na práxis de FHC, com a finalidade de atingir um propósito, a retomada do Poder da República, através do impeachment de Dilma Rousseff. Na arquitetura do Golpe de Estado, o plano de uma transição para o processo eleitoral de 2018 é desvelado. Nesse processo, membros do PSDB seriam deslocados para o governo com a finalidade de criar as condições ideais de conquistar o eleitorado em 2018. Algo similar com o que ocorreu nos governos de Fernando Collor e Itamar Franco, com a subsequente eleição e posse de FHC, em janeiro de 1995.

Sintomaticamente, na reunião de dezembro de 2015, três membros do PSDB – José Serra (duas vezes – uma com Lula e outra com Rousseff), Geraldo Alckmin, e Aécio Neves – foram sequenciadamente derrotados por Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff para o cargo de presidente da República.

Conclusão

A crise política persiste. Ela tem duas finalidades imediatas, impedir a estabilização da economia, retroalimentando o processo de corrosão da base social e política do governo Rousseff, ampliando as condições políticas de destituir a presidente da República, objetivando a retomada da liderança da nação para o grupo conservador autocrático e pseudodemocrático do PSDB e de setores do PMDB. Poder negado pelo sufrágio em quatro processos eleitorais seguidos e distintos, todos vencidos pelo Partido dos Trabalhadores.

Finalizando, para lembrar do poder da República que emerge da vontade geral do povo, é apresentada citação do senador romano Cícero, na obra ‘A República’:

– XXXII. “Quando, numa cidade, dizem alguns filósofos, um ou muitos ambiciosos podem elevar-se, mediante a riqueza ou o poderio, nascem os privilégios de seu orgulho despótico, e seu jugo arrogante se impõe à multidão covarde e débil. Mas, quando o povo sabe, ao contrário, manter suas prerrogativas, não é possível encontrar mais glória, prosperidade e liberdade, porque então permanece árbitro das leis, dos juízos, da paz, da guerra, dos tratados, da vida e da fortuna de todos e de cada um; então, ou só então, é a coisa pública coisa do povo. Dizem, também, que com frequência se viu suceder à monarquia, à aristocracia, o governo popular, ao passo que nunca uma nação livre pediu reis nem patronatos de aristocratas. E negam verdadeiramente que convenha repudiar totalmente a liberdade do povo ante o espetáculo daqueles mesmos que levam ao excesso sua indisciplina. Quando reina a concórdia, nada existe mais forte, nada mais duradouro do que o regime democrático, em que cada um se sacrifica pelo bem geral e pela liberdade comum. Pois bem: a concórdia é fácil e possível quando todos os cidadãos colimam um fim único; as dissensões nascem da diferença e da rivalidade de interesses; assim, o governo aristocrático nunca terá nada estável, e menos ainda a monarquia. (CÍCERO, 51 AC)

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*Carlos Augusto é jornalista e cientista social.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.