Democracia Ameaçada | Por Patrus Ananias

Ministro do Desenvolvimento Agrário do governo Dilma, Patrus Ananias de Sousa questiona, em artigo: "O que diria Trancedo Neves aos brasileiros hoje?"

Ministro do Desenvolvimento Agrário do governo Dilma, Patrus Ananias de Sousa questiona, em artigo: “O que diria Trancedo Neves aos brasileiros hoje?”

Vivemos mais um momento difícil na caminhada histórica do povo brasileiro. Mais uma vez a democracia está ameaçada em nosso país.

As forças que levaram Getúlio Vargas ao suicídio, que tentaram o golpe quando da renúncia de Jânio Quadros e, por fim, impuseram a ditadura com o golpe de 31 de março/1º de abril de 1964, estão novamente se articulando para impor ao país mais um período de violência, perseguição e ódio.

Um político mineiro que se impôs ao respeito da nacionalidade, Tancredo Neves, foi testemunha participante dos acontecimentos que marcaram a década 1954-1964 e deixou-nos o registro da sua presença serena e afirmativa.

Sobre os fatos que levaram Getúlio à opção extrema, Tancredo Neves deu o seu depoimento em discurso histórico:

“Pretendo analisar as trágicas ocorrências que culminaram no sacrifício do glorioso Presidente, de maneira a ressaltar a verdade, escoimada do entulho de mentiras e de infâmias, com que foi propositadamente oculta pela imprensa facciosa e inimiga jurada de Getúlio Vargas e de seu programa de governo. (…) A mobilização da imprensa e particularmente de certa imprensa do Rio de Janeiro contra Getúlio Vargas teve início antes mesmo de seu empossamento no governo (…) Os nossos progressos na siderurgia, a afirmação das espantosas qualidades técnicas do nosso operário, foram as advertências que puseram de sobreaviso os trustes interessados em nos manter no regime de feitoria de dinheiros alheios. A hidrelétrica de Paulo Afonso, em vias de conclusão, agrava as preocupações fundadas dos que temiam ver-nos alçados à categoria das nações economicamente independentes.

A Petrobrás com todas as possibilidades de imediato funcionamento e de sucesso, graças às fontes seguras de recursos financeiros, lançou o pânico nos domínios da grande finança imperialista. Quando nos lançamos na elaboração do formidável plano nacional de eletrificação, consubstanciado na Eletrobrás, percebeu o truste que não era mais possível qualquer hesitação. Lançou-se à luta, com todos os fabulosos recursos das suas arcas pejadas do dinheiro sorvido das nações subdesenvolvidas, para destruir no Brasil um governo que era responsável pela audácia nacional de querer livrar-se do capitalismo internacional. Toda campanha se limitava no objetivo principal de liquidar Getúlio Vargas, porque ele simbolizava toda resistência aos dinheiros poderosos de além-mar.

Por outro lado, encontraram os interesses financeiros internacionais um aliado vigoroso no nosso capitalismo desalmado, nos nossos homens de fortuna, que, não se contentando com seus lucros assombrosos aqui auferidos, passaram a hostilizar o governo Getúlio Vargas em proporção correspondente às medidas que adotava para mitigar os sofrimentos do operariado e para dar-lhe condições de vida consentâneas com a condição humana”.

Nos dias tensos que se seguiram à renúncia do presidente Jânio Quadros, quando o Brasil esteve muito próximo de uma guerra civil, o futuro presidente Tancredo Neves lançou um manifesto à nação:

“Somos pelo respeito à Constituição. Nenhum povo pode viver respeitado na sua dignidade, nem acatado na sua soberania, se o veredito de sua vontade, manifestado livremente nas urnas, deixa de ser a fonte de legitimação do poder.

Acatar, pois, a nossa Magna Carta, empossando o sr. João Goulart, na Presidência da República, não é apenas submeter-nos a um imperativo da vontade popular, mas também é reconduzir o nosso povo à trilha ampla e recondutora da sua vocação para a liberdade, dos direitos de sua soberania e de seu prestígio internacional. Não há lugar para vacilação. A trincheira da resistência democrática é a posição em que se encontram nesta hora os que lutam pela sobrevivência de nossas instituições livres, pela tranquilidade das nossas famílias, pelo progresso moral e material de nosso povo”.

No contexto dos debates que foram se sectarizando nos dias que antecederam a ruptura democrática em 1964, Tancredo Neves externou o seu  repúdio à intolerância:

“Recuso-me, efetivamente, a participar dos debates no clima passional em que estão sendo travados, em que a polêmica se resume à troca de objurgatórias, mais ou menos veementes, e a apelos calorosos e às vezes patéticos aos sentimentos da dignidade patriótica que cada um coloca sob o ângulo de suas tendências e interesses políticos, e em que os fatos são apresentados incompletos e, por isso mesmo, distorcidos, desfigurados e, até, inventados!”

O que diria Tancredo Neves aos brasileiros hoje?

(Os textos citados estão em Tancredo Neves – Perfís Parlamentares 2ª edição -, organização e ensaio introdutório de Lucília de Almeida Neves Delgado, páginas 115-124, 145-146 e 428)

*Patrus Ananias de Sousa é ministro do Desenvolvimento Agrário.

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