A educação a distância no Brasil: uma análise histórica e as tendências do futuro | Por Sergio Alexandre Centa

Sergio Alexandre Centa é professor do ISAE/FGV, instituição de ensino de Curitiba (PR).

Sergio Alexandre Centa é professor do ISAE/FGV, instituição de ensino de Curitiba (PR).

A educação a distância no Brasil teve seu início em 1904, sendo a primeira atividade no Jornal do Brasil por meio de um anúncio que oferecia a profissionalização por correspondência para datilógrafo. Em 1923, foi criada a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que oferecia cursos de Português, Francês, Silvicultura, Literatura francesa, Esperanto, Radiotelegrafia e Telefonia.

Em 1934, foi criada a Radio Escola Municipal do Rio, e neste projeto os estudantes recebiam folhetos e esquemas de aulas por correspondência e ouviam as aulas pela estação de rádio. Posteriormente, em 1939, surge em São Paulo o instituto Monitor, precursor dos cursos profissionalizantes por correspondência. Dois anos mais tarde, em 1941, é criado o Instituto Universal Brasileiro, fundado por um ex-sócio do Instituto Monitor, também oferecendo cursos profissionalizantes, desde mecânica de automóveis a técnicos em geral. Na década de 1970, eu, então apaixonado por carros, fiz um curso de mecânica de automóveis por correspondência, e aprendi muito, posso garantir.

Muitas outras iniciativas surgiram após este período, mas até então os cursos estavam no que denomino a “primeira geração” do EaD. Em 1970, passamos à “segunda geração” com cursos utilizando vídeo aulas (fitas cassetes gravadas) e programas de televisão, o famoso Telecurso. No início dos anos 2000, passamos ao que denomino a “terceira geração”, com aulas ao vivo via satélite, e neste período começam as novas regulamentações desta modalidade de ensino.

No mesmo período o governo Federal incentivava a criação de faculdades particulares em todo o Brasil, tendo percebido que a oferta de cursos superiores no país estava estagnada, nas mãos de universidade públicas que não aumentavam o número de vagas. Nesta fase, o governo decidiu incentivar também a educação superior a distância, porém ainda sem um entendimento do que era este novo “ser”.

Na época, eu trabalhava em um grupo educacional que estava implementando o ensino a distância a não existia uma regulamentação específica do setor. Um exemplo interessante é que ao autorizar o primeiro vestibular do curso tecnólogo em Comércio Exterior, na portaria o MEC autorizou o vestibular em algumas cidades de dois Estados da Federação, mas surgiu um problema: não tínhamos Polos em 80% destas cidades e o prazo era exíguo. Assim, nossas equipes resolveram visitar escolas de informática, de línguas e até escolas infantis para formar os Polos.

O primeiro vestibular ocorreu utilizando a metodologia tradicional, ou seja, uma redação e um caderno de questões respondidos pelos alunos. Nossas equipes levaram todo o material impresso aos Polos, aguardavam o encerramento do vestibular e traziam as redações dos alunos e os cartões de respostas. Aos poucos, o MEC foi regulamentando o ensino a distância no país e criou diversas regras.

Hoje, o ensino a distância evoluiu e muito, não somente no ensino superior, mas temos cursos de todas as formas, em praticamente todas as áreas. A metodologia igualmente mudou com os atuais recursos tecnológicos. Os cursos podem ser baixados em tablets e smartphones, sem a necessidade de grandes investimentos em tecnologia por parte da instituição e ensino. Isto possibilitou o acesso a todas as camadas da população, assim temos cursos “livres” de fluxo de caixa, por exemplo, sendo oferecidos por R$ 50,00 ao mercado, e cursos superiores e de pós-graduação oferecidos a R$ 120,00 mensais.

Esta disseminação ou poderíamos chamar de popularização do ensino a distância deve-se ao fato de que o investimento inicial que antes era muito elevado hoje caiu muito. Para se montar um estúdio são necessários menos de US$5.000,00, o que possibilita que muitas pequenas empresas, e até pessoas físicas atuem no setor.

A metodologia EaD comprovadamente atende os anseios de todos hoje em dia. A praticidade, a não necessidade de horários rígidos e liberdade para desenvolver as atividades conquistaram o público. Em contrapartida, os cursos exigem uma dedicação muito maior do que o do ensino tradicional. Os jovens já estão familiarizados com este novo processo, e os mais velhos estão obrigatoriamente se rendendo a esta nova realidade, assim o caminho é de mão única, o ensino a distância veio para ficar e vai, cada vez mais, estar presente em nossas vidas. É quase inconcebível alguém passar quatro anos em bancos escolares aprendendo da forma tradicional.

Na área superior, ainda podemos verificar um certo “ranço” que os cursos tecnólogos trazem, comparativamente aos cursos de bacharelado, tanto presenciais quanto a distância. Alguns ainda valorizam os cursos de bacharelado, porém os resultados apontados pelas avaliações do ENADE demonstram que os alunos dos cursos de tecnologia na modalidade a distância saíram-se melhor do que os de bacharelado presenciais. Isto graças aos utilizados que fazem com que os alunos apliquem seus conhecimentos em seu dia a dia.

Entendo que este é o futuro do ensino a distância no Brasil, assim como é na Europa, em países como Espanha, Portugal e Alemanha. É um caminho sem volta e para todos os tipos de capacitações, sejam elas de cursos denominados “livres”, ou seja, sem uma certificação de curso superior, como os cursos superiores de graduação a pós-graduação.

*Sergio Alexandre Centa é professor do ISAE/FGV, instituição de ensino de Curitiba (PR). O profissional é Graduado em Administração de Empresas e Direito, Especialista em Planejamento Estratégico e Engenharia Financeira.

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