A arte que diverte também ensina | Por Monica Serra

Monica Serra é presidente do Instituto Se Toque.

Monica Serra é presidente do Instituto Se Toque.

Estamos habituados a ver surgir propostas de soluções para problemas endêmicos da sociedade, os quais não conseguem ser resolvidos pelo poder público, seja porque não é prioridade no momento, seja porque não é da alçada de quem cobramos atitudes (Município, Estado ou Federação), ou, ainda, porque certos problemas endêmicos da sociedade são tidos como de responsabilidade difusa. Há dúvidas se corresponde ao poder público ou somente à família.

Quaisquer que sejam as razões da endemia, não podemos, nós da sociedade civil, sair de fininho encolhendo os ombros e os deixando cair, fazendo de conta que não temos nada com isso.

E é aí que melhor se justifica o trabalho cooperativo das ONGs – Organizações Não Governamentais – apoiadas pelo capital privado. Elas são o resultado dessa consciência que une pessoas para tentar resolver juntos alguns desses problemas endêmicos.

Um deles, que desperta crescente cooperação, é a prevenção do câncer de mama. Aproveitando a maciça mobilização do outubro rosa em prol da saúde da mulher, formou-se um calendário anual que dá visibilidade às muitas outras datas que celebram a mulher: 8 de março, Dia Internacional da Mulher; 30 de setembro, Dia da Secretaria; etc.

O Instituto Se Toque, fundado em 2005 e havendo, portanto, completado 10 anos de atuação, tornou-se referência inovando em matéria de prevenção. O Instituto Se Toque entende que prevenção é educação. Isto o levou a uma atuação permanente, como o ato educativo requer.

A base para criar a ponte, por onde transita a criança com a informação, indo ao encontro das mulheres da família, foi a escola pública.  Aproveitando da sua estrutura, feita para agregar conhecimento relevante à vida futura dos estudantes, criamos instrumentos próprios e adequados ao conceito de “escola da família”.

Assim, desenvolvemos um modo eficiente de troca de informações entre o Se Toque e as diversas faixas etárias da escola, informações estas que deviam chegar sem distorções para as famílias. Refiro-me ao Teatro Colar da Vida, para crianças de 8 a 12 anos, e às Oficinas de Prevenção, para jovens de 13 a 17, onde o conceito de prevenção do câncer de mama retira o rótulo de “doença maligna” e o substitui pelo de “doença detectada a tempo de ser curada”.

É nesse circuito de escolas que disseminamos a educação transformadora para sermos efetivos na prevenção do câncer de mama.

Para a prevenção ser efetiva, precisamos que a mensagem converse com o aluno em dois momentos da sua passagem pela escola: assistindo ao teatro dos 8 aos 12 anos e, mais tarde, dos 13 aos 17 anos, assim promovendo uma mudança cultural do conceito de prevenção. Isso é disseminar a educação transformadora no circuito escolar, pois requer remover o fatalismo que acompanha o termo câncer no seu início, por ter sido culturalmente associado à morte por muitos anos.

Essa mudança de visão, que chega às famílias por meio dos seus filhos, que não mais associam o câncer “àquela coisa ruim”, é capaz de reverter o quadro de casos encontrados em estado avançado da doença e reverter o prognóstico de sobrevida significativamente.

A pergunta inicial que nos fizemos referia-se a por que as mulheres não evitam, com a amplamente divulgada necessidade da mamografia anual, passar por processos muito mais penosos do que só o aperto das mamas pelas placas do mamógrafo.  A resposta veio de outra área.

Parece existir a convicção cultural, passada de pais para filhos, subliminarmente, de que a palavra câncer é sinônimo de morte. Observa-se que se fala “daquilo” sem nomeá-lo. Aquilo é “essa coisa ruim”. “O negócio que levou a vovó”. Se a criança pergunta: morreu do quê a vovó? Salta alguém para calar a pergunta: “Não fala nisso agora”. “Foi dessa doença ruim”.

Sendo a morte um tabu do qual não se fala em família, a informação sobre a doença, que vem marcada com esse estigma, é boicotada. Por tanto, descartada.

O Instituto Se Toque, nasceu com o compromisso de alcançar as pessoas com a informação de prevenção, quando ainda não instalado o tabu da morte vinculado à doença. A ideia é alcançar a criança de 8 a 12 anos com informações, numa primeira abordagem, chegar nela novamente quando instalada a preocupação com o próprio corpo e suas mudanças, numa segunda abordagem àqueles de 13 a 17 anos.

Para a primeira abordagem, criamos o Teatro Colar da Vida, onde, logo após cada apresentação, um presente é doado a cada criança para ser entregue às mães e avós, o Colar da Vida. O Colar da Vida faz parte da trama da peça de teatro. De forma didática e interativa, ensina o seu significado. O crescimento das pérolas indica não só a chance de cura associando o tamanho das pérolas ao crescimento do tumor, como a textura a ser procurada pelos dedos no autoexame, pois se assemelha ao toque de uma pérola, embora sempre deixemos claro que a mamografia detecta um tumor antes da palpabilidade, quando ainda é possível retirá-lo sem o dano ao corpo (retirada da mama ou parte dela). Sem falar nos altos custos à sociedade e à família: abalo quando há perda do trabalho, o custo de um leito hospitalar, os efeitos da quimioterapia ou o desconsolo familiar pela perda de mulheres valorosas. Nada disso uma família deveria passar se houver prevenção.

As crianças, na nossa experiência, já foram os melhores agentes antitabagistas e, hoje, ajudam as suas mães e avós a preservar seu convívio em família com a simples cobrança: Olha aí, meu presente é para ajudar você a se lembrar de fazer a mamografia. Usa o Colar da Vida para você se lembrar de fazer a mamografia. Dessa forma, a arte que diverte também ensina e salva vidas.

*Monica Serra é presidente do Instituto Se Toque.

Sobre o autor

Redação
O Jornal Grande Bahia é um portal de notícias com sede em Feira de Santana. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: editor@jornalgrandebahia.com.br