Uso da Ayahuasca para a reabilitação de presidiários no Lar de Frei Manuel, em Rondônia

A ação da ONG Acuda de reabilitação de presidiários tem sido considerada exitosa e contribui para a redução do índice de violência nos presídios de Rondônia. A experiência desperta interesse nacional e internacional, e muito chamou a atenção quando foi divulgado o convênio com a instituição religiosa ayahuasqueira de Ji-Paraná.

Pela sagrada noite de sábado, 13 de fevereiro de 2016, na Chácara Divina Luz — zona rural de Ji-Paraná, Rondônia — vai começar a celebração litúrgica de Obras de Caridade da ‘Casa de Jesus e Lar de Frei Manuel’, instituição ayahuasqueira da linha da Barquinha.

Esta é uma celebração especial, pois se comemora 25 anos de fundação desta Casa Espírita, quando em visita a esta comunidade o Velho Pastor Frei Manuel consagrou o lugar.

É cantado o salmo Culto Santo e os demais hinos de abertura, abrem-se as cortinas do templo, são feitas as rogativas de pedido de guarnição para os irmãos iniciarem a viagem no Barquinho Santa Cruz, navegando na Santa Luz do Daime, rumo aos Santos Pés de Jesus, tendo por companheiras a Rainha da Floresta e a Princesa Santa Fé.

O Culto Santo é simples, todo estruturado na forma de orações e cânticos, com um puxador dos salmos e o coral de irmãos presentes no salão respondendo uníssono, cantando o refrão.

Quando cânticos de louvor se elevam das vozes dos homens aos céus, Deus, Ele mesmo, desce para conceder a sua graça. Quando cânticos de louvor descem do Céu a Terra, Deus, Ele mesmo, nos abençoa com a sua Divina Presença.

A Doutrina ayahuasqueira da Barquinha

No ano de 1945, término da 2ª Guerra Mundial, o maranhense Daniel Pereira de Mattos (13.07.1888 – 08.09.1958) ergueu uma Capelinha simples, de taipa, e na frente levantou um Cruzeiro de madeira. Consagrou esta Igrejinha ao Senhor São Francisco das Chagas, seu protetor.

Esta Casinha de Jesus e da Virgem da Conceição está localizada na Vila Ivonete (Rio Branco-Acre), na época um vasto seringal, e é a Igreja Matriz de onde se originou todas as outras.

Numa revelação mística, à Luz do Santo Daime, Daniel havia recebido uma Doutrina e a ordem de por ela zelar. Trabalhou ininterruptamente por 12 anos e alguns meses na Missão Espiritual que lhe foi destinada (1945 a 1958). De cipó e folha Mestre Daniel erigiu o seu Culto de Oração e cânticos sagrados, para desta forma poética e amorosa louvar a Deus Jesus Nosso Senhor.

Não foi por acaso o fundador desta Doutrina marítima, Daniel Pereira de Mattos, ter sido membro da Marinha de Guerra do Brasil e depois reservista, ao receber baixa da Marinha em Belém do Pará, na condição de 2º Sargento e migrar para o Acre. Esta foi uma determinação Divina, e Daniel um predestinado.

Na Missão Sagrada de Mestre Daniel, recebida de Deus e da Virgem Mãe da Conceição, estão presentes cinco elementos que formam a Doutrina desta Casa de Jesus, que são:

1) Espiritismo Cristão, fundamentado na comunicação entre o mundo dos vivos e dos mortos, dos encarnados e desencarnados; Doutrina reencarnacionista, admite que Deus dá uma oportunidade de salvação no retorno da alma sobre à Terra, dentro de um corpo físico: “ao que vencer, farei dele uma coluna do templo do meu Deus; e nunca mais de lá sairá” (Apocalipse 3:12),  isto é, estará livre da ‘roda de samsara’, do ciclo de nascimento e morte, encarnação e desencarnação — e alcançará a iluminação.

2) O catolicismo popular, base das devoções e dos dias consagrados do Calendário Cristão, presente na Missão;

3) Os cultos afros, presentes principalmente no trabalho de Obras de Caridade e nas evocações das entidades afro-brasileiras no Bailado do Parque;

4) O elemento indígena através da bebida utilizada como sacramento — Daime/Ayahuasca — e também nas evocações das entidades ameríndias que vêm bailar no Parque;

5) A filosofia esotérica, presente nos fundamentos da Doutrina — Harmonia, Amor, Verdade e Justiça — nos símbolos da Missão e na arquitetura sagrada do Templo.

Doutrina cristã exotérica e esotérica

Daniel Pereira de Mattos era filiado ao Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (CECP) e a Doutrina a ele revelada terá forte influência da filosofia esotérica. Mais do que isso: sendo esta (CECP) uma linha humanista e mentalista, as suas instruções casam perfeitamente com a corrente do Daime dentro dos campos espirituais, estão de acordo com os ensinos do Senhor São Francisco das Chagas, patrono da Missão de Daniel.

A Doutrina revelada a Mestre Daniel possui uma particularidade exotérica – aberta ou exterior — e um núcleo esotérico — oculto ou interior. O aspecto exotérico é percebido pelos não adeptos da Doutrina. Já o aspecto esotérico é um mistério revelado aos oficiais dos Exércitos de Jesus.

O aspecto exterior desta linda Doutrina é a sua imagem pública, abalizada pelo conteúdo ético e moral dos hinos, pelas Obras de Caridade realizadas e pelo exemplar comportamento de seus membros na vida familiar e integração harmoniosa na vida em sociedade.

Já o aspecto esotérico da Doutrina é alcançado na Santa Luz do Daime, na autêntica comunhão da alma com Deus, na experiência interna da Divindade. No êxtase místico proporcionado pela miração, o Daime possibilita a revelação das percepções intuitivas da alma a respeito das verdades mais profundas.

Certo dia, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram:

— Por que falas ao povo por parábolas?

Ele respondeu:

— A vocês foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus, mas a eles não. Porque vendo, eles não vêem e, ouvindo, não ouvem nem entendem. Mas, felizes são os olhos de vocês, porque veem; e os ouvidos de vocês, porque ouvem.

Dessa maneira, a Doutrina de Mestre Daniel é cristã exotérica e cristã esotérica. É cristianismo exotérico e cristianismo esotérico.

Com o passamento de Mestre Daniel para o mundo espiritual, esta Doutrina vai ter continuidade através dos seus discípulos e sucessores, e hoje desperta o interesse do universo ayahuasqueiro por sua originalidade e pouco conhecimento que se tem dela fora das fronteiras do Planeta Acre.

Doutrina não expansionista, conta com alguns Pontos de Luz autorizados a trabalhar nos Estados do Ceará, Rio de Janeiro e Rondônia.

Casa de Jesus e Lar de Frei Manuel

O ‘Centro de Regeneração Espiritual Casa de Jesus e Lar de Frei Manuel’ é uma entidade filantrópica sem fins lucrativos, um Centro Espirita juridicamente constituído. Pratica a Doutrina Espírita Cristã fundada por Mestre Daniel Pereira de Mattos.

Todavia, a originalidade desta Casa da linha da Barquinha está relacionada a formação religiosa e espiritual, visão de mundo e percepções filosóficas do seu presidente, o sr. Edilsom Fernandes da Silva — Fernando.

Nascido na Vila de Bom Pastor, Cidade de Resplendor, Minas Gerais, Edilsom Fernandes é casado há 28 anos com Maria José da Silva e é pai da jovem Mariana. Trabalha como representante comercial e profissional de TI (Tecnologia da Informação), de onde tira o seu sustento.

Chegou a Ji-Paraná (Rondônia) em 1984, vindo do Rio de Janeiro, onde servia à Marinha Brasileira como Fuzileiro Naval de Primeira Classe, membro da Infantaria e armeiro.

— Eu me identifiquei com a Doutrina de Mestre Daniel por ser Fuzileiro Naval,  membro do Círculo Esotérico e Rosacruz, além de gnóstico e filiado a Ordem do Graal na Terra, afirma Edilsom Fernandes.

Com todos esses estudos, Fernando (Edilsom Fernandes) é, desde muito, um buscador espiritual. Filiado desde 1981 ao Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (CECP), filiou-se depois a AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosacruz) e a Ordem do Graal na Terra.

Além de buscador espiritual, Fernando se declara um estudante:

— Sou estudante, assim como da Gnose e da Sociedade Teosófica. E grande admirador e propagador da filosofia da Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada) e da Maçonaria.

Por falar nisso, o seu mestre, o Velho Pastor Frei Manuel — de quem Fernando sempre recorda com admiração e carinho — foi, em vida de matéria. um respeitável Maçom Grau 33.

Fernando afirma ser um eterno estudante. Porém, com toda esta vasta caminhada e trajetória, ele é considerado um mestre por seus amigos: Mestre Fernando.

Na sua origem, Mestre Fernando é de religiosidade budista. Ao conhecer a Ayahuasca se tornou cristão. Mas esclarece:

— Embora esteja hoje sob o pensamento cristão, continuo com compreensão búdica. Que é essencialmente o mesmo pensamento. A espiritualidade Búdica é exatamente a mesma espiritualidade Crística.

“Não importa o nome de Deus, desde que seja o princípio supremo que rege todas as coisas” (Leonardo Boff).

Assim é Edilsom Fernandes (Fernando): universalista, pluralista, multiculturalista e ecumênico. Assim ele configurou a ‘Casa de Jesus e Lar de Frei Manuel’:

— Esta Casa é uma Escola de Ciências Ocultas. Aqui é uma Barquinha ou Arquinha onde as espécies culturais são muito bem-vindas. Dedicada a caridade em muitos níveis, acreditamos nos processos terapêuticos, como gestalt, eneagrama, constelação familiar, biodança entre outras aplicações do conhecimento para o fortalecimento da amplitude consciencional e consequentemente do conhecimento espiritual. A relevância é a espiritualidade, e não a religião; é a consciência, não a informação.

Porém, cabe a observação:

— O rito e os padrões são os mesmo recebidos por Mestre Daniel e passados ao Presidente Antônio Geraldo da Silva e ao Velho Pastor Frei Manuel. Somente a visão da espiritualidade universalista é distinta, mas o princípio fraternal e espiritual, além do rito, são os mesmo que recebi de Frei Manuel, exatamente os mesmo, inclusive na forma de lidar com as diferenças — esclarece Edilsom Fernandes.

Isto significa que as terapias e vivências citadas por Mestre Fernando são complementares e paralelas às cerimônias litúrgicas, como observamos durante o Retiro Espiritual do Lar de Frei Manuel no período do Carnaval de 2016.

Um exemplo do universalismo e multiculturalismo deste Centro Espírita é o ritual do sacramento do batismo de crianças e pagãos. Na tradição deixada por Mestre Daniel o batismo se realiza com Daime, cinza e água. A cinza recolhida da fogueira de São João — o verdadeiro batizador — representa o Fogo Sagrado (Espírito Santo) que baixou sobre Jesus na hora do seu batismo; e a água representa o Rio Jordão, onde João batizou Jesus e Jesus batizou João, segundo a original cosmologia daimista.

Acontece que uma frequentadora da Casa, a sra. Maria Regina da Silva (Atma Devi), era devota do Mestre indiano Sathya Sai Baba e trouxe da Índia a cinza sagrada Vibhuti, que era materializada pelo Guru e hoje é fabricada pelos estudantes das Escolas da Organização Sai. O presidente Edilsom Fernandes passou a misturar a cinza da fogueira de São Joao ao vibhuti indiano para a realização do sacramento do batismo.

Neste momento a cerimônia do batismo é ressignificada, e adquire novos elementos filosófico-doutrinários, pois o Vibhuti indiano tem o mesmo simbolismo das Cinzas no Catolicismo: “lembra-te que és pó e que ao pó voltarás”.

O Vibhuti — assim como a Cinza do inicio da Quaresma — simboliza que toda a matéria é perecível e limitada a uma forma e a uma duração. Portanto, na nossa trajetória aqui na Terra não devemos nos apegar a nada, nem mesmo ao nosso corpo físico. O principal objetivo de todo ser humano deve ser reduzir seu ego a cinzas e conhecer Aquele que É Sempre Existente e que está além de todas as limitações: Deus.

Acredita-se que o Vibhuti tenha poderes curativos, pode ser ingerido e passado em partes do corpo. Dessa maneira, utilizada no batismo de crianças, a Cinza Sagrada indiana terá efeitos imunológicos e de proteção da saúde do recém-batizado.

É dessa maneira inovadora que são estruturadas as cerimônias e rituais do ‘Lar de Frei Manuel’.

Arquitetura esotérica do Templo

Pela sagrada noite de 2 de fevereiro de 2016, na celebração do Dia de Nossa Senhora das Candeias e Mamãe Yemanjá, a ‘Casa de Jesus e Lar de Frei Manuel’ inaugurou o seu Salão de Bailado (Parque), local onde se celebram os festejos da Missão.

O Salão de Bailado com o Coreto ao centro é onde acontece a dança circular sagrada. É destinado para as festas dançantes (bailados), isto é, as ‘brincadeiras’ da irmandade com as entidades dos Mistérios do Céu, da Terra e do Mar que trabalham nesta Casa Espírita, prestando Obras de Caridade; a dança da comunhão do Senhor com os homens, quando os seres de luz se manifestam no bailado, confraternizando-se com as pessoas (‘aparelhos’) por eles irradiadas.

O formato do Salão é circular oitavado; e o Coreto um octágono. E são 8 as colunas de sustentação. Nas colunas estão estampados 8 estandartes representando 8 das muitas entidades que se manifestam no Parque, confraternizando com os irmãos encarnados presentes.

— O Óctuplo é o símbolo do cristianismo primitivo, o 8 deitado, traduzido como um peixe, referência aos pescadores, porém significa o infinito, que é Deus — diz Mestre Fernando.

E continua:

— A primeira Igreja Cristã foi a casa de Pedro em Cafarnaum, que tinha  a forma octogonal. E você lembra quantas são as bem-aventuranças? Oito!

Podemos completar: o Nobre Caminho do Senhor Buda é Óctuplo.

Assim é a Missão de Daniel, repleta de referências à simbologia numérica oculta. Dessa maneira são erigidos os templos da linha da Barquinha.

A Santa Luz do Daime

Nas atividades litúrgicas da Doutrina de Mestre Daniel é ingerida a bebida de poder inacreditável denominada Daime — a Santa Luz.

O Santo Daime é resultante do cozimento do cipó Jagube (banisteriopsis caapi) e da folha Rainha (psychotria viridis) e é central para o desenvolvimento dos trabalhos espirituais desta linha religiosa.

A ayahuasca, nome quéchua que se dá à bebida, é usada desde tempos imemoriais por comunidades indígenas da Amazônia Ocidental.

O uso religioso desta santa bebida é garantido e assegurado pelo Estado e governo da República Federativa do Brasil.

Foi o Mestre Raimundo Irineu Serra quem recebeu esta Santa Luz das mãos da Rainha da Floresta, a Virgem da Conceição, e começou a usá-la na Doutrina Cristã a ele revelada.

O Daime é a Luz de Jesus. “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida”.

Daniel Pereira de Mattos conheceu o Daime através do seu amigo, mestre e conterrâneo Irineu Serra e obteve a graça da cura de seus males físicos e espirituais através desta sagrada bebida.

Quando iniciou a sua Missão Espiritual, foi das mãos de Mestre Irineu que Daniel recebeu os primeiros litros de Daime com os quais abriu o Culto Santo.

Comungar da Santa Luz nas atividades litúrgicas desta Casa Espírita é um privilégio que nos é dado por Deus. O Daime é um veiculo para a concentração mais profunda, mais sensível e aguçada de autoconhecimento e aperfeiçoamento pessoal.

Uso da Ayahuasca para a reabilitação de presidiários no Lar de Frei Manuel

Até aqui, o perfil traçado da instituição Lar de Frei Manuel e do seu presidente teve o propósito de ser um preâmbulo para adentrarmos o tema (título) deste breve artigo, que é o uso da Ayahuasca para a reabilitação de presidiários.

Tudo começou quando no ano de 2013 o sr. Luiz Marques, presidente da Acuda (Associação Cultural e de Desenvolvimento do Apenado e Egresso) visitou esta Casa Espírita, tomou Daime e participou de uma sessão.

A Acuda é uma ONG (Organização Não-Governamental) que há mais de 15 anos tem como objetivo a reabilitação de presidiários e a sua reinserção na sociedade, durante e após o cumprimento da pena. Está sediada em Porto Velho, capital de Rondônia.

A Acuda desenvolve atividades de reabilitação de apenados do regime fechado e semiaberto. São traficantes de drogas, estupradores, pedófilos e homicidas. Os detentos participam de diversas atividades como laborterapia e terapias alternativas tipo massagem ayurvédica, banho de argila, yoga, reiki, meditação, eneagrama, teatro gestaltico… entre outras atividades. Em 15 anos de projeto, apenas seis apenados tentaram fugir.

A ação desta ONG tem sido considerada exitosa e contribui para a redução do índice de violência nos presídios de Rondônia. A experiência desperta interesse nacional e internacional, e muito chamou a atenção quando foi divulgado pela imprensa o convênio da Acuda com a instituição religiosa ayahuasqueira de Ji-Paraná.

Voltando ao Presidente da Acuda, o sr. Luiz Marques, quando terminou a sessão religiosa, ele perguntou a Edilsom Fernandes:

— O senhor gostaria de nos ajudar? Permitiria que eu trouxesse um ou outro apenado aqui, para assistir o trabalho?

— Sim, pode trazer. Esta é uma Casa cristã e a Doutrina não foi feita para os sãos e sim os necessitados. Jesus aceitou os gentios e ele veio para os criminosos. Este é um Centro de Regeneração, de recuperação. Imitamos a trajetória de Cristo.

— Mas o senhor acha que não haveria reação contrária por parte dos frequentadores? Preconceito?

— Se eu sou cristão e digo que sou cristão, assim devem ser e dar o exemplo os membros desta Casa. Fazer a caridade, ajudar os necessitados, os réprobos, os criminosos. E ser apenado é para mim uma condição temporária. Ele é apenado hoje e amanhã pode ser livre.

A partir de então, com autorização do Juiz Corregedor dos Presídios, grupos de 10 a 20 apenados, em regime fechado ou semiaberto passaram a frequentar o Culto Santo uma vez ao mês, ou em ocasiões especiais (Retiro Espiritual, Semana Santa etc.). Eles vão sem nenhum tipo de escolta. Só os presos, a psicóloga e os diretores da ONG.

— Foi a Doutrina Cristã que motivou esse convênio com a Acuda, afirma Mestre Fernando.

Percepção social sobre o presidiário

Ao longo da história, o criminoso apenado não tem gozado de boa vida, muito pelo contrário. Quando ocorria um crime a reação a ele era imediata. Comumente esta reação era superior à agressão, não havia qualquer ideia de proporcionalidade e a penalidade era aplicada pelos familiares da vítima ou por sua tribo.

Era a lei de talião, que consiste na rigorosa reciprocidade do crime e da pena — apropriadamente chamada retaliação. Esta lei é frequentemente expressa pela máxima ‘olho por olho, dente por dente’. É a lei mais antiga da história da humanidade.

Com a República Romana e o Direito Romano ocorreu substancial mudança: a vingança privada foi abolida, passando ao Estado o magistério penal. A finalidade da pena passou a ter o intuito de restabelecimento da ordem externa na sociedade.

A penalidade legal é então vista como um mal imposto ao indivíduo merecedor de castigo, por motivo de uma falta considerada crime, cometida voluntária e conscientemente. Todavia, a lei existia principalmente com a finalidade de salvaguardar o domínio Imperial romano.

Com o advento do liberalismo político de cunho humanitário, a lei passa a defender os direitos individuais e o principio da reserva legal, sendo contra o absolutismo, a tortura e o processo inquisitório. Esta filosofia jurídica foi importantíssima para a evolução do Direito Penal na medida em que defendeu o individuo contra o arbítrio do Estado.

Os sistemas penitenciários são criados e têm o objetivo de recuperar os apenados e ressocializá-los, inserindo-os na sociedade após o cumprimento da pena. Mas há uma distância entre a teoria e a prática, entre a filosofia do Direito Penal e a realidade.

O sistema presidiário brasileiro

No Brasil, já há mais de um século foi abolida a pena de morte, dando início a uma nova era no conceito de punir o indivíduo infrator. Assim, criou-se o regime penitenciário de caráter correcional, ou seja, que tinha como finalidade ressocializar e reeducar o preso.

A ideia de ressocialização do condenado sempre foi resgatar o indivíduo que infringiu uma determinada lei. A partir dessa ideia, o sistema carcerário buscou mecanismos socializadores, nos quais os órgãos responsáveis buscariam aprimorar seus estabelecimentos prisionais com o máximo de respeito à pessoa humana do preso.

O que de fato acontece é que o sistema penitenciário brasileiro, ao invés de ressocializar, acaba por condenar ainda mais o indivíduo para além de sua condenação, desprezando o seu direito a uma nova oportunidade na sociedade depois de cumprida a pena.

Embora nas penitenciárias haja projetos para reduzir a pena do condenado e serem importantes instrumentos para garantir dignidade ao apenado, essas iniciativas ainda não são capazes de, por si só, garantir sua ressocialização, que é algo de caráter mais social do que jurídico.

Com o aumento da violência social nas últimas décadas do Século XX, optou-se pelas prisões em massa, em consonância com uma tendência mundial. A ideia de recuperação dos criminosos enfraqueceu-se, em boa medida, por causa de iniciativas surgidas nos Estados Unidos, a exemplo da política de tolerância zero. Venceu a ‘linha-dura’, defensora da segregação de quem comete um delito.

Segundo especialistas em criminologia, apesar de seguir uma tendência mundial, o encarceramento massivo no Brasil tem suas peculiaridades, a começar pelo foco em crimes contra o patrimônio (furtos, roubos) e drogas. E o paradoxo é que o aumento do encarceramento aumentou a violência, segundo mostram os estudos.

A cultura do medo disseminada na opinião pública brasileira estimula o encarceramento massivo. Daí a situação de presídios superlotados, extremamente violentos, sob controle de quadrilhas internas, condição a qual o Estado assiste impotente. Um sistema prisional que não recupera o apenado e parece um matadouro ou universidade do crime — essa é a triste realidade.  Todavia, não parece ser algo puramente circunstancial. As sociedades atuais são excludentes e desprezam os indesejados.

É como se a opinião pública clamasse pela volta da ‘lei do talião’.

O convênio da Acuda com o Lar de Frei Manuel

Daí que se estabeleceu o convênio entre a Acuda e o Lar de Frei Manuel, assim como os critérios para participação. Os apenados do regime fechado ou semiaberto que vêm de livre e espontânea vontade para as cerimônias do Daime, são aqueles participantes do programa de reabilitação desenvolvido pela Acuda que já frequentam as atividades há seis meses ou mais.

— O Daime é o ponto final da recuperação, o retoque. A religião e a espiritualidade vão amalgamar o conhecimento adquirido nas terapias, A Ayahuasca vai lembrá-los das suas atitudes, as consequências dos seus crimes, eles vão refletir sobre suas vidas. A participação nos trabalhos espirituais com Ayahuasca vai reajustando, reconfigurando algo da personalidade dessas pessoas que trazem consigo uma gama de rebeldia, histórico de maldades, crueldades, de torturas, diz Mestre Fernando.

A originalidade deste convênio está em atender os prisioneiros fora da penitenciária. A maioria das denominações religiosas criam células dentro dos presídios, desenvolvem trabalhos dentro das prisões. Este que vos escreve, por exemplo, quando era criança visitava a Casa de Detenção de Salvador acompanhando a progenitora, para realização do culto evangélico dominical no pátio do presídio.

As lembranças daquele tempo já distante continuam vivas na minha memória, especialmente a arquitetura do lugar, um velho forte colonial e o artesanato confeccionado pelos presidiários com palitos de fósforo queimados.

Já no caso estudado, os prisioneiros se deslocam até a igreja. Vão ao local do Culto.

— Quando o preso esta na igreja, aqui tomando Daime e convivendo conosco,  ele é um homem livre,  pode sentir o valor da liberdade, pode contemplar como seria bom recuperar a sua liberdade, observa Mestre Fernando.

As cerimônias às quais os apenados costumam participar acontecem nos sábados à noite. Após a autorização do Juiz Corregedor dos Presídios, viajam sem escolta de Porto Velho até Ji-Paraná durante cerca de cinco horas, chegam ainda na parte da manhã à Chácara Divina Luz, em grupos de 10 a 20 apenados, e colaboram no trabalho de preparar o ambiente para a sessão da noite, na limpeza, na cozinha (laborterapia) e praticam exercícios terapêuticos.

— Viajarem sem escolta dignifica o preso, afirma Fernando.

Participam do trabalho de sábado à noite, descansam e retornam no domingo à Penitenciaria de Porto Velho – Rondônia.

O tipo de sessão a qual assistem é a mesma do calendário litúrgico da instituição, não há diferença devido a participação de apenados. O que pode acontecer é um enfoque maior nas preleções feitas pelo presidente sobre as consequências dos atos praticados.

— Na doutrinação pode-se falar sobre as consequências espirituais do crime e da rebeldia, a importância da liberdade relacionada a espiritualidade… mas isso é para todos e faz parte da Doutrina da Casa.

Uma característica da religiosidade ayahuasqueira brasileira é que as instituições não são proselitistas, não buscam novos adeptos nem conversões. Por isso, não há o intuito de converter o presidiário, a não ser de reabilitá-lo e ressocializá-lo.

— Não há conversões e sim conscientizações, afirma o presidente da instituição religiosa.

O perfil do apenado que frequenta as sessões de Daime é de na sua maioria religiosos evangélicos, ou porque já eram evangélicos antes do encarceramento ou porque se tornaram evangélicos na cadeia, um fenômeno sociológico das prisões brasileiras.

A novidade está em que esses frequentadores passam a aceitar o pluralismo religioso, considerar as crenças dos demais, respeitar a religiosidade afro-brasileira contida na Doutrina da Barquinha. Ao tempo em que continuam a professar a sua religiosidade.

— Eles sentem que a Casa é aconchegante. Tem hindus presos, budistas… todos podem professar a sua religião, podem ficar na posição yogue, meditar, rezar pros seus deuses. Se comportando dentro da ordem da casa são bem-vindos. Aqui vão encontrar não uma religião e sim um caminho espiritual, completa Edilsom Fernandes.

Para o dirigente da instituição ayahuasqueira, após mais de dois anos dessa experiência os resultados tem sido promissores, muito bons. Há uma tentativa de monitoramento daqueles presidiários que estão em liberdade provisória, e que beberam ayahuasca nos rituais religiosos nos últimos dois anos, pois o grande desafio é de como se dará a reinserção do egresso na sociedade.

Depoimento de um apenado por homicídio:

Sob efeito do Daime, durante a sessão, ele se viu atirando e matando uma pessoa, ao mesmo tempo ele era a própria vitima. Sentia as fortes dores que a vítima sentia. Uma voz lhe perguntou:

— Qual a pior dor do mundo?

— Cólica dos rins, respondeu.

— Não. É a dor da morte. Você lembra daquele homem que você atirou e deixou agonizando, para morrer?

O prisioneiro sentiu na própria pele as dores da família da vítima e de sua família, da mãe da pessoa assassinada e da sua própria mãe. Ficou amargamente arrependido, jurou e prometeu não mais cometer crime.

Hoje este apenado está no regime semiaberto, trabalhando, mas, mesmo assim, o grande estigma social que carrega dificulta a sua ressocialização.

Há outros depoimentos parecidos. Chama a atenção também a mudança de comportamento dos apenados que frequentam a Casa há mais tempo, tipo vários meses ou mais de um ano. Chegavam ‘mal-encarados’, desconfiados, cabisbaixos e calados… Com o passar do tempo se tornam risonhos e afáveis.

Não se tem noticia de reação contrária dos membros do Lar de Frei Manuel a este convênio com a Acuda de acolhimento de presidiários nos rituais da Casa. A grande repercussão midiática do projeto, associado ao carisma e liderança do Padrinho Fernando foram fatores favoráveis para a aceitação pelo grupo. Sim, Edilsom Fernandes é padrinho dos seus afilhados de batismo e dos inúmeros afilhados espirituais frequentadores da Missão.

Quanto a possibilidade de conversões religiosas, o que se percebe é a participação ativa dos diretores da ONG Acuda e seus familiares na integração com o grupo, na condição de membros participantes. Estes foram grandes beneficiários de encontrarem e se identificarem com uma linda Doutrina.

As inúmeras terapias alternativas que na atualidade esta Casa Espírita desenvolve, parece ser fruto deste convênio e dos contatos estreitos entre os membros das duas instituições. Isto casa perfeitamente com a visão holística que o Padrinho Fernando tem da espiritualidade.

Quanto à realidade dos apenados e egressos, a incógnita mesmo é o ‘mundo lá fora’, de como fazer a reinserção do ex-presidiário na vida social brasileira, pois tudo conspira desfavoravelmente a eles.

O forte estigma social, discriminação e preconceito acompanham o egresso, dificultando ou até impossibilitando a sua reabilitação para a vida em sociedade.  Um ex-presidiário depõe que “sair da cadeia e do crime é fácil. Difícil é permanecer fora”.  O desejo de vingança dos familiares das vítimas, a perseguição dos colegas de crime, as ameaças, a facilidade para cometer novos e graves delitos… tudo isso atormenta e confunde o egresso do sistema prisional brasileiro.

— Difícil é permanecer fora do crime. Por conta dos convites, perseguições e ameaças. A sociedade não ajuda. A sociedade quer extinguir o criminoso, quer que o assassino seja assassinado também, lamenta um apenado em liberdade provisória.

Bem… o circuito percorrido é o de: a Polícia prende, a Justiça julga… E quem reabilita? O diretor da ONG Acuda, Rogério Araújo, alerta:

— Querendo ou não essas pessoas vão voltar para a sociedade. E aí a grande pergunta é: nós queremos que elas voltem como?

… E o Barquinho continua a navegar

Barquinha, Arquinha, Barco Santa Cruz, Escola de Ciências Ocultas… assim é a Casa de Jesus e  Lar de Frei Manuel, navegando nas ondas do Daime lá em Ji-Paraná-Rondônia. Universalista, pluralista, multiculturalista e ecumênica, configurada dessa forma por seu líder e dirigente, Edilsom Fernandes da Silva.

Mestre Fernando também afirma ser adepto da filosofia Ebionita, da tradição essênia e dos gnósticos, linhas originadas no Cristianismo Primitivo. Mas adverte: “com ritos franciscanos, segundo Mestre Daniel”.

Dentro desta perspectiva, consideramos a Barquinha de Ji-Paraná com uma ‘cosmologia em construção’, com muitas semelhanças e também diferenças das outras casas da linha da Barquinha. Essa rica diversidade não é exclusiva do Lar de Frei Manuel, encontra-se também nas demais igrejas desta linda Doutrina — autônomas e independentes.

Todavia, a característica que mais me despertou a atenção nesta Casa de Jesus e da Virgem Maria é a inovadora e revolucionária contribuição a Nova Consciência Religiosa, com o seu universalismo e pluralismo.

Shalom

Assalamaleikom

Om Sai Ram

Namastê

Axé

Paz e Bem

Amém!

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.