Rosas de São Francisco de Assis

Juarez Bomfim na Basílica de Santa Maria dos Anjos. Ao fundo a Porciúncula (Assis-Itália)

Juarez Bomfim na Basílica de Santa Maria dos Anjos. Ao fundo a Porciúncula (Assis-Itália)

Como forma de penitenciar-se, Francisco mirou um grande roseiral à sua frente, próximo a Porciúncula, repleto de ameaçadores espinhos. Corre em direção ao roseiral e se lança sobre ele, na expectativa de ferir-se duramente, e assim afastar a tentação.

Francisco de Assis era filho de um rico e ambicioso comerciante. Em busca de glória mundana para o filho e honras para a família, seu pai, Pedro Bernadone, o induz a lutar na guerra de Assis contra Perugia. Sem vocação para a violência, Francisco é facilmente aprisionado e muito padece nas prisões medievais peruginas.

Quando visitamos a Cidade de Perugia, eu e minha senhora, a muito amada Cecília, conhecemos dois destes locais de encarceramento do jovem Francisco, onde ele passou fome, sede e frio, até ser resgatado com o pagamento de elevada soma aos seus algozes.

Apesar dos maus-tratos físicos, é dito que Francisco animava os desesperançados prisioneiros como ele, cantando para alegrá-los e lhes dar alento.

Retorna muito doente à casa paterna e, com a recuperação da saúde, se torna uma pessoa diferente do que era até então. A fama de Francisco era de ser um folgazão, boêmio e farrista, líder dos folguedos dos rapazes de Assis.

Ele se transformou em uma pessoa silenciosa e meditativa, preferindo passar seu tempo livre passeando pelos campos e florestas, na companhia dos animaizinhos que fielmente o seguiam, esquilos e pássaros, pelos arredores de Assis, nos vales aos pés da colina onde a cidade foi providencialmente edificada, com fins estratégicos de defesa.

Neste verde vale Francisco se depara com a arruinada Igreja de São Damião, e entra para rezar ao Pai de todas as criaturas. Frente a uma imagem do Senhor Crucificado, Este salta da Cruz e o ordena:

— Francisco, reconstrua a Minha Igreja, Ela está em ruínas!…

O jovem entende ao pé da letra aquela mensagem, e começa a sua Missão de reformar fisicamente os templos do Senhor.

Porém, o que Jesus o recomendara foi reformar os homens — o templo que é o seu corpo e abrigo da alma. Pois Ele prometeu e cumpriu, ao ressuscitar ao 3º Dia: “derribai este templo, e em três dias o Levantarei”.

E Francisco deveria reconstruir moralmente a Santa Igreja Romana, corrompida e desviada dos ideais de fraternidade e amor.

Com ajuda de seus companheiros, Francisco reedifica a Igreja de São Damião e ali constrói um mosteiro para a sua alma gêmea e irmã espiritual residir: Clara de Assis.

Mas havia uma igrejinha de sua predileção, tão pobrezinha, tão pequeninha que recebeu o nome de Porciúncula. Lugar sagrado para os cristãos, importantes eventos ali aconteceram associados a vida terrena deste Santo Maior da cristandade: ali ele consagrou Irmã Clara como serva do Senhor, e também foi o local que escolheu para entregar o seu corpo à Mãe Terra.

Na atualidade, esta capelinha está contida dentro da monumental Basílica de Santa Maria dos Anjos. Após visitar este solo sagrado, nos dirigimos a um extenso corredor que leva ao pátio interno da Basílica e ao museu.

Porém, experiência mística e inesquecível nos aguardava, ao nos deparar com uma imagem (estátua) do Senhor São Francisco em um nicho lateral deste caminho… O lugar como que transcendia, imantado pela fervorosa devoção dos fieis, um numeroso grupo de freiras em êxtase, que emitiam exclamações de contentamento:

— Oh Deus!.. Oooh!…

À nossa frente, víamos a estátua (viva?) do Senhor São Francisco de Assis guarnecida por duas pombas brancas, que se revezavam na companhia do Santo: uma pomba pousada na sua mão e, ao lado esquerdo, uma cestinha onde outra pomba descansava, pois elas vão se revezando e nunca o deixam só.

Este fenômeno é continuo… ano após ano. Quem visita este sítio sagrado dele testifica.

Emocionados e envolvidos por esta energia benfazeja, continuamos a andar pelo extenso corredor e chegamos ao Roseto de São Francisco. O Roseiral localiza-se num pátio interno da Basílica, e foi cenário de importante momento e prodígio na vida em matéria deste Querido Santo.

Francisco era um penitente, devido ao seu passado de pecador. Buscando a salvação, seguia os passos do Nosso Senhor, através da estrita Imitação de Cristo. Certa vez, Francisco se pegou tendo pensamentos impuros, sensuais, ele que buscava a pureza e a castidade.

Como forma de penitenciar-se, Francisco mirou um grande roseiral à sua frente, próximo a Porciúncula, repleto de ameaçadores espinhos. Corre em direção ao roseiral e se lança sobre ele, na expectativa de ferir-se duramente, e assim afastar a tentação.

Que acontece? O espinhento e intimidador roseto se transmuta em inofensivo, belo e florido roseiral, sem um espinho sequer. Francisco, que esperava dele sair lanhado, dolorido e ensanguentado, emerge do inofensivo matagal deliciosamente perfumado, cheirando a rosas e jasmim.

Desde então, surgiu uma nova espécie de rosas, que as mudas do Roseto da Basílica de Santa Maria dos Anjos espalharam pelos quatro cantos do mundo: rosas de São Francisco, delicadas flores sem espinho.

Pace e Bene

Paz e Bem!

Roseiral de São Francisco:

https://m.youtube.com/watch?v=itrMyooUGZw

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.