O enigmático Labirinto da Catedral de Chartres

Labirinto da Catedral de Chartres, na França

Labirinto da Catedral de Chartres, na França

A Catedral de Nossa Senhora de Chartres é dedicada inteiramente à Mãe de Deus. É Ela quem administra o novelo de Jesus Cristo e nos dá o fio, tornando possível sermos fieis e chegarmos a seu Divino Filho, após atravessar todas as vicissitudes desta vida.

Origem dos templos

Os povos do mundo, através da história, cultivaram as suas expressões religiosas e criaram o registro físico de suas crenças em locais de cultos. A manifestação religiosa de cada civilização se revela na forma de complexas simbologias, que foram sendo construídas ao longo dos tempos, sempre com o propósito de louvar o Poder Supremo ao qual chamamos Deus.

Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente; o começo de toda a verdade, a fonte de toda a lei e justiça, a origem de toda a ordem e beleza e a causa de todo o bem.

Os templos edificados por todas as partes do Planeta são estruturas arquitetônicas dedicadas ao serviço religioso. Lugares sagrados. Porém, são os cânticos, as preces e os bons pensamentos dos devotos que os sacralizam. Em sentido figurado, templo é a habitação de Deus sobre a terra.

O corpo é o templo do Espírito Santo, assegura o Apóstolo Paulo, pois Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou, dentro do Templo de Salomão, em Jerusalém:

— Derribai este templo, e em três dias o levantarei.

Disseram, pois, os judeus:

— Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias?

Mas Ele falava do templo do seu corpo.

Simbologia e arquitetura dos templos

Para muitas pessoas o propósito das construções, sua arquitetura e simbologia são incompreensíveis ao seu limitado entendimento. Assim como ignoram o motivo das regras e costumes que giram em torno de um templo, de uma tradição religiosa.

Como exemplos, podemos assinalar as complexas liturgias das cerimônias e, também, a separação por gênero, masculino e feminino, encontrado em algumas tradições: seja nos templos hinduístas, nos terreiros de candomblé ou na Doutrina do Santo Daime (Ayahuasca).

Os templos são convites e sinais que orientam as pessoas para sua casa Divina. Templos são destinados a instruir as pessoas na arte de remover o véu do apego que se encontra sobre seu coração, afirma Sai Baba.

Sendo assim, surpreende e desperta interesse a todos que a visitam, a existência de um labirinto desenhado em lajes contínuas no piso da nave principal da monumental Catedral gótica de Chartres, na França.

O labirinto da Catedral de Chartres

Labirinto é um caminho sinuoso, com ou sem cruzamentos, becos-sem-saída e falsas pistas, destinado a perder ou enganar o indivíduo que nele penetra. É constituído por um conjunto de percursos intrincados criados com a intenção de desorientar quem os percorre.

O termo tem muitos significados existenciais, que pode ser resumido no mítico labirinto grego adentrado pelo guerreiro Teseu, que mata o Minotauro e, guiado pelo fio de Ariadne, é salvo da perdição.

Este episódio é bastante lembrado na civilização humana, na filosofia, na arte e literatura.

“Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações… e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto” (Jorge Luís Borges).

Em algumas catedrais góticas europeias encontram-se belas e misteriosas representações de labirintos, em locais de destaque, e despertam o interesse de muitos o seu significado e simbologia.

O labirinto visto como modelo e referência no mundo cristão é, sem dúvida, o labirinto da catedral de Chartres, na França. Um caminho em lajes contínuas, construído no piso de sua nave central, por volta do ano 1200 e medindo cerca de 13 metros de diâmetro. Ele é redondo e suas pedras negras marcam o percurso — em pedras brancas — a ser feito a pé ou de joelhos, em penitência.

A borda do labirinto é finamente trabalhada, assim como o centro, rodeado por um desenho florido. A renda de pedra que rodeia o labirinto estabelece uma fronteira entre o sagrado e o profano.

Simbologia e significado

Qual o significado do Labirinto de Chartres? Ou significados. Pois os ícones sagrados têm múltiplos significados, religiosos e esotéricos.

Quando em peregrinação espiritual pela Europa e Ásia, eu e minha esposa, a muito amada Cecília, visitamos aquela majestosa Igreja, ciceroneados pelo amigo Stéphane Herbert e sua cônjuge brasileira.

A catedral de Nossa Senhora de Chartres é dedicada inteiramente à Mãe de Deus. É Ela quem administra o novelo de Jesus Cristo e nos dá o fio, tornando possível sermos fieis e chegarmos a seu Divino Filho, após atravessar todas as vicissitudes desta vida.

O Labirinto de Chartres converge para o seu ponto central, que é a meta a ser alcançada. Esse centro é chamado de Paraíso, ou também de Jerusalém, aplicando-se o termo à Jerusalém celeste e à Jerusalém pela qual os Cruzados combatiam.

Simbologia numérica oculta

Por tradição, o percurso dentro do Labirinto recebe o nome de ‘Caminho de Jerusalém’ e deve ser percorrido recitando-se orações, em contrição. O percurso está composto com 273 pedras.

273 são os dias dos 9 meses de gestação, porque Nossa Senhora vai gestando para o Céu a alma do pecador que percorre com o coração arrependido e humilhado o caminho rumo à Pátria celeste, guiado por Ela por meio do fio da graça de seu Filho.

Quem ingressa no Labirinto deve caminhar através de 11 anéis até chegar ao Paraíso. O número 11 é simbólico e ensina que é um caminho a ser percorrido pelo pecador.

Na simbologia numérica oculta, o 11 é o símbolo da luta interior, da dissonância, do desvio. Santo Agostinho diz que é o número da transgressão da lei, porque supera em 1 o número 10 que é o número dos Mandamentos da Lei.

Filósofos cristãos consideram o 11 o número do pecado e dos penitentes, pois a noção de penitência é indissociável da ideia de pecado.

Os 11 anéis que compõem o labirinto sinalizam o conjunto das peripécias que o homem concebido no pecado deve atravessar no decurso da vida. Ele encontra obstáculos, voltas e desvios, retrocessos inesperados que o obrigam a começar tudo de novo.

Sua vida está cheia dessas idas e vindas, das voltas que não se entendem, das aparentes aniquilações dos trabalhos feitos, da necessidade de reiniciar uma e outra vez.

A última pedra do ‘Caminho de Jerusalém’ tem um tamanho diverso de todas as outras e a proporção do corpo humano.

Ela representa simbolicamente o cristão que após completar o caminho prenhe de desafios e provações o venceu, matando o Minotauro. Ao vencê-lo chega à porta do ‘Paraíso’, prosterna-se agradecido e implora à Virgem que o apresente a seu Divino Filho.

Cristo venceu o Labirinto

Cristo venceu todas as vicissitudes do Labirinto de sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição. O Labirinto foi vencido e Nosso Senhor está num trono no mais alto do Céu, recebendo o eterno louvor de seus anjos e de seus santos.

Aquele que persistiu seguindo os passos do Nosso Senhor Jesus Cristo, no fim da existência, as sinuosidades do Labirinto terão ficado definitivamente para trás, e a alma que perseverou ascenderá ao Céu.

Ali repousará por toda a eternidade, contemplando a beleza incomensurável de Nossa Senhora e a glória infinita de Deus.

Amém.

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.