George-Eugène Haussmann, o homem que construiu a Paris que conhecemos hoje

Georges-Eugène Haussmann, largamente conhecido apenas como Barão Haussmann- o "artista demolidor", foi prefeito do antigo departamento do Sena, entre 1853 e 1870.

Georges-Eugène Haussmann, largamente conhecido apenas como Barão Haussmann- o “artista demolidor”, foi prefeito do antigo departamento do Sena, entre 1853 e 1870.

A Paris que conhecemos hoje surgiu no século 19. (Fotos: Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)

A Paris que conhecemos hoje surgiu no século 19. (Fotos: Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)

Paris ainda é uma das cidades mais visitadas do mundo, e o distrito do Marais é um dos mais populares entre as milhões de pessoas que frequentam a cidade a cada ano. (Fotos: Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)

Paris ainda é uma das cidades mais visitadas do mundo, e o distrito do Marais é um dos mais populares entre as milhões de pessoas que frequentam a cidade a cada ano. (Fotos: Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)

Louvre, Paris, França. (Fotos: Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)

Louvre, Paris, França. (Fotos: Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)

Popular entre aristocratas antes de Luís 14 (o “Rei Sol”) transferir a corte para Versailles, essa animada região de ruas estreitas e casas históricas caiu no abandono nos séculos seguintes antes de renascer nas ultimas décadas como um charmoso labirinto de lojas fashion, cafés, restaurantes, museus e galerias.

Ao andar por essas agitadas ruas medievais, é difícil de acreditar que elas já foram consideradas “o inimigo”, algo que deveria ser demolido imediatamente. E quem queria fazer isso era ninguém menos que o imperador francês Napoleão 3º e seu chefe de departamento de Paris, George-Eugène Haussmann.

Como grande parte de Paris, Marais fedia horrivelmente em 1853, quando o imperador deu instruções a Haussmann para reconstruir a cidade com grandes e salubres avenidas. Regiões inteiras da cidade seriam demolidas e substituídas por avenidas.

“Era a reconstrução de Paris”, escreveu Haussmann, orgulhoso, em seu livro de memórias.

O homem demolição

Administrador público sem nenhum treinamento em arquitetura ou planejamento urbano, Haussmann transformou Paris em um enorme canteiro de obras por 20 anos. Apesar de ter sido forçado a deixar o cargo em 1870, quando o imperador enfrentava críticas por excesso de gastos públicos, seu projetos continuaram sendo seguidos até o final dos anos 1920.

Concebido e executado em três fases, o plano incluía a demolição de 19.730 prédios históricos e a construção de 34 mil novos. Antigas ruas foram substituídas por grandes e amplas avenidas, caracterizadas por fileiras de prédios neoclássicos em tons de creme alinhados e proporcionais.

Além das grandes avenidas, Haussmann construiu grandes quarteirões, parques inspirados no Hyde Park, de Londres, um sistema de esgoto abrangente, um novo aqueduto que dava acesso amplo a água doce, uma rede de canos de gás subterrâneos para iluminar ruas e prédios, fontes complexas, banheiros públicos grandiosos e fileiras de árvores.

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Essa infraestrutura urbana foi combinada com novas e ousadas estações de trem – Gare du Nord e Gare de L’Est – a opulenta Opera de Paris, novas escolas, igrejas, mais de 20 praças, ambiciosos teatros na Place du Châtelet, o gigante mercado de comida de Les Halles (do livro O Ventre de Paris, de Èmile Zola), e uma sensacional rede de avenidas radiais saindo do Arco do Triunfo, no centro da Place de l’Ètoile de Haussmann.

Rebatizada de Place Charles de Gaulle, l’Ètoile é um pesadelo para motoristas estrangeiros: você tenta dirigir entre carros velozes vindo de várias direções diferentes enquanto tenta negociar – ou lutar – para abrir caminho no entorno do arco, monumento de celebração de vitória de Napoleão.

Transformação radical

Nenhuma outra grande cidade, antes ou desde então, sofreu uma transformação tão radical quanto Paris em tempos de paz. Foram necessários inúmeros trabalhadores – qualificados e não qualificados – assim como arquitetos, engenheiros e paisagistas.

Ela devolveu a saúde à cidade após anos de cólera e tifo. Deu a parisienses de todas as classes parques onde brincar e relaxar.

Teoricamente, suas largas avenidas permitiam que tropas do governo se movimentassem livremente para manter a ordem em um tempo de barricadas, protestos e outros distúrbios. E, em uma época em que a cidade dobrou seu tamanho e a população triplicou, ela deu a Paris um senso de unidade com um ar de prosperidade burguesa.

O que ainda surpreende é que tantas partes da cidade tenham sido destruídas e refeitas no que parece uma extravagância do imperador e Haussmann. Mas Napoleão 3º estava seguindo os passos de seu tio, Napoleão Bonaparte, que também tinha grandes projetos para Paris. “Se ao menos os céus tivessem me dados mais 20 anos de poder e um pouco de lazer”, escreveu ele no exílio após a batalha de Waterloo, “uma pessoa procuraria em vão pela antiga Paris; não sobraria nada a não ser vestígios”.

Uma dúzia de avenidas parte do Arco do Triunfo, um verdadeiro pesadelo para motoristas estrangeiros

Em 1925, o visionário arquiteto franco-suíço Le Corbusier publicou seu Plan Voisin para Paris, um projeto patrocinado por Gabriel Voisin, pioneiro da aviação francesa e fabricante de carros de luxo. O plano iconoclasta planejava demolir grande parte do centro da cidade ao norte do Sena. No lugar entrariam parques de onde sairiam prédios residenciais altos. Os carros andariam pela cidade em elevados de concreto livres de pedestres.

O plano de Le Corbusier foi considerado radical demais e não foi para frente. Mas, antes dele, Haussmann também foi criticado. O renomado estadista Jules Ferry (1832-93) escreveu: “Choramos com os olhos cheios d’água pela velha Paris, a Paris de Voltaire… a Paris de 1830 e 1848, quando vemos os grandes e intoleráveis novos prédios, a custosa confusão, a vulgaridade triunfante, o terrível materialismo que vamos transmitir para nossos descendentes.”

Ou, como o historiador do século 20 Réné Héron de Villefosse coloca, pensando particularmente na transformação de Haussmann na Île de la Cité, “o velho barco de Paris foi torpedeado pelo Barão Haussmann e afundou durante seu reinado. Foi talvez o maior crime do megalomaníaco governador e também seu maior erro. Seu trabalho causou mais danos que centenas de bombardeios.”

Sempre teremos Paris

Quando, em 1944, as forças aliadas marcharam para liberar a cidade e Adolf Hitler ordenou que Paris fosse destruída, o comandante alemão Major General Dietrich von Choltitz se recusou a obedecer. Paris era bonita demais para ser arrasada.

Os planos de Haussmann foram impressionantes pelo fato de ele ter conseguido resultados com padrões tão altos e uniformes em tão pouco tempo. Administrador público, Haussmann era um homem que se impunha e, apesar de ser um músico talentoso, não era sentimentalista. Ele demoliu até a própria casa em que nasceu – 55 rue Faubourg-du-Roule -, apesar de ter boas memórias da infância.

Sobre sua primeira reunião com Haussmann em 1853, Napoleão 3º escreveu: “eu tinha diante de mim um dos homens mais extraordinários de nosso tempo, grande, forte, vigoroso, com energia, e ao mesmo tempo esperto e malandro, com a alma cheia de recursos”.

A visão de Haussmann aparece nas fachadas de Paris

A parceria entre o ambicioso imperador francês e seu governante foi notória. Um ano após a demissão de Haussmann por excesso de gastos, porém, Napoleão 3º caiu após a derrota da França na guerra franco-prussiana. Ele foi para o exílio em Chiselhurst, Kent, onde morreu em 1873.

Após sua demissão, Haussmann foi eleito deputado em Ajaccio, Corsega, onde Napoleão Bonaparte nasceu.

Ele encontrou tempo para escrever três volumes de memórias. Elas não são muito lidas atualmente, mas sua memória ainda vive na nova Paris que ele moldou – e em cidades como Barcelona, que seguiram seu exemplo – mas não nas estreitas mas amadas ruas do Marais.

*Por Jonathan Glancey, Da BBC Culture.

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