Feira de Santana – CUCA: o Museu Regional de Arte (MRA)

Fachada do Museu Regional de Arte (MRA) – inicialmente Museu Regional de Feira de Santana.

Fachada do Museu Regional de Arte (MRA) – inicialmente Museu Regional de Feira de Santana.

Complexo de edificações do Cuca abrigam o Museu Regional de Arte de Feira de Santana, a Galeria de Arte Carlo Barbosa, o Teatro do Cuca e as salas de aula.

Complexo de edificações do Cuca abrigam o Museu Regional de Arte de Feira de Santana, a Galeria de Arte Carlo Barbosa, o Teatro do Cuca e as salas de aula.

O Museu Regional de Arte (MRA) – inicialmente intitulado Museu Regional de Feira de Santana – é uma das instituições localizadas no complexo cultural do Centro Universitário de Cultura e Arte da Universidade Estadual de Feira de Santana (CUCA – UEFS).

O complexo cultural do Centro Universitário de Cultura e Arte da Universidade Estadual de Feira de Santana (CUCA – UEFS) compreende o conjunto de prédios localizados na Rua Conselheiro Franco, nº 66, Bairro Centro, Feira de Santana.

As edificações do Cuca abrigam o Museu Regional de Arte de Feira de Santana (MRA), a Galeria de Arte Carlo Barbosa, o Teatro do Cuca, o Seminário de Música, e as Oficinas de Criação Artística.

O Museu

O Museu Regional de Arte (MRA) foi instalado no histórico prédio do Grupo Escolar José Joaquim Seabra, edificação inaugurado em 12 de março de 1916. A partir de 1927, funcionou no mesmo local a Escola Normal. Depois, no final dos anos 1960, passou a abrigar a Faculdade de Educação de Feira de Santana, precursora da Universidade Estadual de Feira de Santana. Atualmente, o prédio principal é a sede do Museu Regional de Arte (MRA).

Fundação do MRA

Primeira instituição museológica do município, o Museu Regional de Arte de Feira de Santana (MRA) foi fundado em 26 de março de 1967, pelo embaixador Assis Chateaubriand (1892-1968), magnata das comunicações no Brasil, que foi um dos principais responsáveis pela fundação, em 1947, do Museu de Arte de São Paulo (MASP).

Amante e incentivador das artes, Chateaubriand idealizou, duas décadas após a inauguração do MASP, a Campanha Nacional dos Museus Regionais, que tinha por objetivo dotar as diferentes regiões do país com expressivos acervos. A iniciativa pretendia possibilitar a descentralização dos museus das grandes metrópoles e viabilizar a interiorização da arte, o incentivo à descoberta de novos artistas e a criação de espaços de lazer e educação que favorecessem a apreciação de obras de arte.

Nessa época, intelectuais, artistas e políticos feirenses percebiam que a cidade crescia e se industrializava rapidamente, o que provocava, em uns, grande entusiasmo com a modernização da vida urbana; em outros, preocupação com a perda das características de cidade pacata, fortemente marcada pelo universo rural e por suas raízes históricas, que remontam ao comércio de gado e à feira-livre.

Tanto os adeptos da modernização quanto os defensores da cidade tradicional acreditavam, porém, que a criação de um museu ajudaria a assegurar e fortalecer a vida cultural do município. Assim, iniciaram-se os esforços junto aos poderes públicos municipal e estadual para a viabilização do projeto. Paralelo a isso, o odontólogo e professor Dival da Silva Pitombo, principal entusiasta da ideia do museu feirense, ao tomar conhecimento da iniciativa de Assis Chateaubriand, buscou, com sucesso, o apoio do empresário. Garantida a doação do acervo por parte de Assis Chateaubriand, e contando com o empenho do jornalista e escritor pernambucano Odorico Tavares (1912 – 1980), colaborador do empresário na campanha de formação dos museus regionais e diretor da rede Diários Associados da Bahia, parte do império midiático fundado por Chateaubriand, as atenções foram voltadas à estruturação do espaço.

Em resposta a essa mobilização, o Governo do Estado acionou a Fundação Museus Regionais da Bahia e, através desta, foi criada, em 20 de fevereiro de 1967, a Fundação Museu Regional de Feira de Santana (FMRFS) para administrar o futuro museu do município. Na diretoria, o jornalista João da Costa Falcão (1919 – 2011), como presidente; o poeta Eurico Alves Boaventura (1909 – 1974), como vice-presidente; o jurista e educador Fernando Pinto de Queiroz (1922 – 2010), na função de secretário; o jurista Jorge Bastos Leal, como tesoureiro; e o professor Dival da Silva Pitombo (1915 – 1989), no cargo de diretor executivo.

Pouco mais de um mês depois, em 26 de março de 1967, o Museu Regional de Feira de Santana abriu suas portas ao público. A solenidade de inauguração reuniu personalidades de destaque nos cenários nacional e internacional, dentre elas o empresário Assis Chateaubriand, o pintor carioca Di Cavalcanti (1897 – 1976) e o embaixador da Inglaterra no Brasil John Russell.

O início

Ao iniciar suas atividades, o Museu Regional de Feira de Santana atendia plenamente às expectativas dos grupos que o idealizaram. Para os defensores das tradições históricas da cidade, o museu havia reunido uma vasta coleção dedicada à cultura regional, constituída por artefatos característicos da chamada “cultura do couro”, que ilustrava o dia-a-dia do homem sertanejo e remetia às origens do povo de Feira de Santana.

No entanto, a designação de Museu Regional não pretendia refletir o perfil de uma instituição de arte exclusivamente da região, e sim de um museu voltado para o território de identidade no qual está inserido. Sendo assim, os adeptos da modernização também foram contemplados com uma singular coleção de artes plásticas, na qual figuravam renomados artistas modernistas brasileiros e estrangeiros.

Importante acervo

Por iniciativa de Chateaubriand, o Museu Regional tem hoje um dos mais importantes acervos do mundo, sobretudo por reunir o valioso conjunto de obras assinadas por Di Cavalcanti e Vicente do Rego Monteiro, precursores do Movimento Modernista Brasileiro, que participaram ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922; e a singular coleção de obras modernistas inglesas, única em toda a América Latina, adquirida por Assis Chateaubriand quando de sua estadia como embaixador do Brasil na Inglaterra (1957 -1960), e doadas por ele ao Governo do Estado da Bahia.

A Coleção Inglesa, como é conhecida, reúne 30 telas confeccionadas a óleo sobre diversos suportes, nas décadas de 1950 e 1960, por alguns dos mais consagrados artistas modernos ingleses, a exemplo de Antony Donaldson, Alan Davie, Bary Burman, Bryan Organ, Brett Whiteley David Leverret, David Oxtoby, Derek Hirst, Derek Snow, Howard Hodgkin, Graham Sutherland, Paul Wilks, Pauline Vincent, Joe Tilson, John Kiki e John Piper.

Também compõem o acervo permanente do Museu Regional a Coleção de Arte Naïf e a Coleção Nipo-Brasileira, que também têm grande importância nos cenários artísticos nacional e internacional; obras pertencentes a renomados artistas estrangeiros naturalizados brasileiros, como Manabu Mabe, Carybé, Hansen Bahia e Reinaldo Eckenberger; telas e esculturas de consagrados artistas baianos, a exemplo de Mario Cravo, Calasans Neto, Floriano Teixeira, Carlos Bastos, Jenner Augusto, Juarez Paraíso, Presciliano Silva, Riolan Coutinho, Justino Marinho, Genaro de Carvalho, Tatti Moreno, Sergio Rabinovitz e Sante Scaldaferri; e obras de artistas feirenses que alcançaram projeção nacional e internacional, como é o caso de Raimundo de Oliveira, Carlo Barbosa, Juraci Dórea, Graça Ramos, César Romero, Gil Mário e Antonio Brasileiro.

Segundo dos três museus criados com o apoio de Chateaubriand (o primeiro foi o Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, em dezembro de 1966; e o terceiro foi o Museu Regional de Campina Grande, atualmente chamado Museu de Artes Assis Chateaubriand, em agosto de 1967), o Museu Regional de Feira de Santana foi inicialmente instalado no antigo prédio da administração do Campo do Gado, localizado na Rua Geminiano Costa, onde atualmente funciona outra instituição museológica, o Museu de Arte Contemporânea (MAC). O imóvel foi doado pela Prefeitura Municipal na gestão do então prefeito Joselito Falcão de Amorim (1919 – ), que assumiu o cargo no dia 8 de maio de 1964, empossado pela Câmara Municipal, após a deposição do prefeito Francisco Pinto, pelo Regime Militar, permanecendo no posto até abril de 1967.

Nas décadas seguintes, a qualidade e a importância do patrimônio artístico do Museu Regional, no entanto, não lhe garantiram os recursos necessários, junto ao poder municipal, para assegurar o adequado desenvolvimento de suas atividades. Assim, a despeito dos esforços de seu diretor, passou a funcionar de modo cada vez mais precário, tendo sido arrombado e depredado em mais de uma ocasião. Tal situação provocou a reação da sociedade feirense, que passou a exigir melhores condições de funcionamento e conservação do acervo. Como resultado, a Prefeitura transferiu o Museu Regional para a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em 1985.

Dez anos depois, com a inauguração do Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA), a UEFS resolveu realocar o acervo do Museu Regional, que passou a funcionar no imponente prédio de estilo eclético, datado de 1916, que, no passado, abrigou a Escola Normal de Feira de Santana. Nesse momento, o acervo original foi desmembrado, tendo a parte característica do Ciclo do Couro sido enviada ao Museu Casa do Sertão, também pertencente à UEFS. Com isso, o Museu Regional de Feira de Santana, que teve seu nome mudado para Museu Regional de Arte de Feira de Santana (MRA), passou a ser um espaço destinado exclusivamente às artes visuais.

Por sua vinculação com a UEFS, o MRA passou a privilegiar também o desenvolvimento de ações e atividades de Pesquisa e Extensão, que buscam preservar a memória e o patrimônio sociocultural representados pelo seu acervo, assim como pela relação estabelecida com o seu público e sua história, atuando com base nos princípios da universalidade do acesso, do respeito e da valorização da diversidade cultural, como forma de promoção da cidadania.

Localizada na Rua Conselheiro Franco (antiga Rua Direita), nº 66, a atual sede do MRA também passou, mais recentemente, por sérios problemas estruturais, que forçaram a Instituição a fechar as portas por mais de dois anos. Nesse período, a UEFS viabilizou a restauração não apenas do prédio, mas também do valioso acervo do Museu, que passou por um meticuloso processo de limpeza e conservação, realizado pelo Studio Argolo Antiguidades e Restaurações, sob o comando do restaurador José Dirson Argolo.

No dia 9 de maio de 2015, o Museu Regional de Arte foi finalmente reinaugurado, com o vernissage da exposição que reuniu as principais obras de seu acervo histórico. Desde então, o MRA permanece aberto à visitação pública de segunda a sexta-feira, em horário comercial.

*Com informações da UEFS.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.