Campanha de Centenário da ABI inspira cordelista

O poeta cordelista José Walter Pires.

O poeta cordelista José Walter Pires.

José Walter Pires, escritor e poeta cordelista, integrante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), é autor de mais de uma centena de títulos de cordéis, com temática variada, com militância profissional no sertão baiano, onde produz a sua literatura.

O cordel “Só por uma vírgula” foi inspirado na comemoração dos cem anos da Associação Brasileira de Imprensa – ABI, ocasião em que lançou um projeto sobre os cuidados no emprego da vírgula, em razão das peripécias que essa partícula sintática tem causado nas mais diversas ocorrências da linguagem escrita.

Ao tomar conhecimento desse interesse institucional, em algum momento da mídia, resolveu debruçar-se sobre o tema, não demoradamente, utilizando-se da obra “A Vírgula”, de Celso Pedro Luft, linguista gaúcho, de onde retirou os ensinamentos para a composição de trinta e oito estrofes, em sextilhas, com versos de sete sílabas poéticas cada, sob primoroso rigor técnico da literatura de cordel. Entretanto, como confessa, o cordel foi feito em apertada síntese dado à extensão e complexidade do assunto, porém com o intuito de servir à educação de maneira lúdica, didática e capaz de aprimorar e desenvolver o bom uso escrita.

O poeta estará na Plenária da ABLC, no Rio de Janeiro, no próximo dia 16 de março deste ano. A sede da associação fica na Rua Teixeira de Freitas, 5, Lapa, a partir da 16 horas, com o lançamento deste e de outros dos seus cordéis.

Conheça o cordel de José Walter Pires: ‘Só por uma vírgula’

Até quando já nem sei

Desta língua vou falar

Nos seus diversos falares

Do erudito ao popular,

Brincando com a gramática

Que não paro de estudar.

.

As normas gramaticais

São verdadeiros dilemas

E muitas delas já foram

Os motivos dos meus temas

Em cordéis educativos,

Amenizando problemas.

.

O cordel tem por missão

Informar e divertir,

Semear educação

Para poder garantir

Um presente glorioso

Que sedimente o porvir.

.

Ver o cordel nas Escolas

É a voz que não se cala,

Um vetor da aprendizagem,

Sendo usado em cada sala,

Quebrando a monotonia

Que toma conta da aula.

.

O tema que abordo agora

Merece muita atenção,

Pois só se vê claramente

No contexto da oração,

Não é somente uma pausa

Ou simples entonação.

.

Será a vírgula a vilã

Neste novo itinerário

Com os assombros que causa

Muitas vezes, sendo hilário,

Modificando o contexto,

Criando novo cenário.

.

Isso não será compêndio,

Mas somente uma cartilha

Onde aprendi soletrando,

Persistindo nessa trilha

Por um longo itinerário

Cada légua, cada milha.

 

A vírgula, no seu conceito,

Vem de uma função sintática

Dentro de cada oração,

Conforme ensina a Gramática

E só será aprendida

Quando aplicada na prática.

.

É ordem de qualquer frase:

Sujeito, verbo, objeto

E também os adjuntos,

Dando sentido correto

Ao que se chama oração,

Ordem direta, por certo!

..

Sujeito do predicado

Não se separa jamais

Nem objeto de verbo;

Adjuntos adnominais

Do nome sempre vêm juntos,

Essas regras são gerais.

.

São quatro casas na frase:

O sujeito é a primeira,

Em segundo vem o verbo,

Complementos a terceira,

As circunstâncias a quarta

Numa oração rotineira.

.

Entre as casas um, dois, três,

A vírgula não é usada

E também entre um e dois,

Entre dois e três sem nada;

Porém, entre três e quatro,

Pode ou não ser colocada.

.

Nomes de localidades

Com vírgulas são separados

No início de documentos

Ou final, quando datados.

Dessa forma sendo feitos,

Ficarão bem registrados.

.

Se a oração adverbial

Antepõem-se à principal,

Ainda que se desculpe,

(Por ter me causado um mal)

Eu não vou lhe perdoar!

A vírgula é sempre usual.

 

Orações coordenadas,

Entre si independentes,

Não pode faltar a vírgula,

Apesar de erros frequentes.

Dessa forma, é necessário

Vírgula e conjunção presentes.

.

A vírgula antes do “e”

Merece muita atenção:

Nas três estrofes seguintes

Ponho fim à discussão.

Fica a sintaxe correta,

Mais enxuta a oração.

.

O professor deu a nota,

E a Secretária anotou

No boletim semestral

Que o Colégio adotou.

São, portanto, dois sujeitos

Que a conjunção separou.

.

E varre, e lava, e dá brilho.

Com a vírgula e conjunção.

Dessa forma, com mais ênfase,

Para cada citação,

Embelezando o contexto

Que traduz a oração.

.

Sofre mudança semântica

A conjunção “e” aditiva,

Antes da vírgula empregada,

Passando à adversativa,

Portanto uma consequência

Que a conjunção motiva.

.

Rita disse que viria,

E (como sempre) não veio.

A vírgula fica correta.

Deve usá-la como esteio,

Justificando o sentido

Da oposição, sem receio.

.

Uso da Vírgula é correto

Com as enumerações

Ou com termos repetidos:

Os fãs, cheios de emoções,

Cantam, vibram, choram, sofrem,

Extravasando paixões.

 

Com mas, porém, todavia,

Contudo, muito cuidado

Com o sinalzinho gráfico

Que de vírgula é batizado,

Pois pode bagunçar tudo

Quando o seu uso for errado.

.

Com os advérbios em “mente”,

A vírgula é facultativa,

Mesmo no início ou no meio.

Se realçá-los precisa,

Use a vírgula sem vergonha

Pela intenção expressiva.

.

Com “ainda” e “também”

A vírgula exige cuidado

A depender do sentido

Que na frase seja dado:

Pois erros, também, cometo.

Vírgula ainda é pecado.

.

Depois de “mas” não se usa,

Conforme é regra geral.

No sentido de porém,

É certo usar o sinal;

Com contudo ou todavia,

Entre vírgulas é normal.

.

Também entre vírgula vão

“Isto é”, “melhor dizendo”,

Expressões explicativas,

Como agora estou fazendo

No “ócio criativo”, ou seja,

Lendo, estudando, aprendendo.

.

O mesmo fato acontece

Quando se trata do aposto.

Com vírgula fica isolado

Para enaltecer o posto

Assim como o vocativo:

Ó filho, quanto desgosto!

.

Locuções adverbiais,

Conjunções intercaladas:

“Naquela tarde”, “no entanto…”

Em orações, deslocadas,

Invertendo a ordem direta,

Com vírgulas são destacadas.

.

Uma vírgula também pode

Uma palavra omitir:

Gosto de rua, ela não!

Um pretexto pra fugir

Quando lhe faço um convite

Para comigo sair.

.

A vírgula deve vir antes

Se o “pois” for explicativo;

Porém, antes e depois

Quando o “pois” for conclusivo,

Equivalendo a “portanto”,

Sendo, pois, de uso preciso.

.

Você trabalha ou estuda?

Conjunção alternativa

Uma vírgula antes do “ou”

Colocá-la não precisa

Para não quebrar a guia

Da função conectiva.

.

Agora chega o talvez

Com a sua explicação:

Não me separe com vírgula,

Pois é íntima a ligação

Com o meu subjuntivo,

Sendo verbo da oração.

.

Não é permitida a vírgula

Numa oração relativa

Pelo “que” iniciada;

A oração explicativa

Com duas vírgulas grafadas;

Nenhuma na restritiva.

.

A vírgula ainda desperta

Muita curiosidade

Em várias situações

Com a criatividade

Nas montagens de expressões

Fruto da ludicidade.

.

— Peço, espere mais um pouco!

Diz a amante ao seu amado.

— Isso só, minha doce amada?

Sou Quixote apaixonado!

— Não, desejo muito mais

Para viver ao seu lado!

.

Vejam: “Matar não é crime!”

Um dia, o rei decretou.

Entretanto, o condenado,

Com uma vírgula, mudou

O sentido da sentença

E da morte se livrou.

.

Acredite quem quiser!

Em gramática não peguei.

O livro de Pedro Luft,

Foi nele que pesquisei,

Um linguista brasileiro

Que como guru adotei.

Chego ao fim desta aventura

Desdenhando da gramática.

Só não sei se consegui

Demonstrar a minha prática

Com os exemplos que dei

De maneira mais enfática

*Com informações da ABI.

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