Obra de José de Souza Martins aborda ‘Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder’

Capa do livro ‘Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder’. Livro apresenta uma análise para aqueles que querem entender o que realmente acontece na política brasileira.

Capa do livro ‘Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder’. Livro apresenta uma análise para aqueles que querem entender o que realmente acontece na política brasileira.

Em “Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder”, o sociólogo paulista José de Souza Martins questiona: o PT que lutava nas ruas e nas portas de fábrica, pregando ética e justiça social, é o mesmo partido que está no poder há mais de uma década?

Lançado pela editora Contexto e com previsão de lançamento para o começo de fevereiro, o livro apresenta uma análise para aqueles que querem entender o que realmente acontece na política brasileira.

José de Souza Martins é um dos mais importantes cientistas sociais do Brasil. Professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, foi eleito fellow de Trinity Hall e professor da cátedra Simón Bolívar da Universidade de Cambridge.

Ele é autor de diversos livros. Entre eles está “Linchamentos: A Justiça Popular no Brasil”, em que o autor busca as raízes profundas do justiçamento de rua no Brasil, um verdadeiro ritual de loucura coletiva.

A seguir trecho do livro “Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder”

Uma dupla gestação

Complementares entre si, os documentários Peões, de Eduardo Coutinho, e Entreatos, de João Moreira Salles, nos mostram a metamorfose do operário em presidente da República, na pessoa que neste país a personificou de maneira completa. Uma positiva quebra de nossas tradições políticas, sem dúvida. Uma afirmação eloquente da democracia.

Trata-se de um competente ensaio sobre o duplo e o ser em Luiz Inácio. Somos convidados a compreender Luiz Inácio à luz do que foi a trajetória de Lula, o que inevitavelmente fará com que Lula seja compreendido e decifrado à luz da sua nova identidade de Luiz Inácio. A admiração dos autores por seus personagens, os peões e o candidato, não tolhe, antes instiga, como é próprio do bom documentário, o protagonismo do espectador, convidado a comparar os momentos, a fazer sua interpretação. Ao fim das exibições, cada um sai da sala com sua própria versão do filme na cabeça e até no coração.

No diálogo subjacente dessas duas personalidades, Lula-Luiz Inácio nos interroga sobre temas tão pouco debatidos e tão pertinentes na democracia, que são os da gestação social do líder e da construção política do governante. Poucos políticos têm passado por uma transição biográfica marcada por significados e símbolos tão contraditórios.

Tanto Eduardo Coutinho quanto João Salles têm conhecida e sólida competência na realização de filmes que procuram, com êxito difícil no cinema, trazer para o documentário a questão do tempo social como tempo histórico e como alternância biográfica, como a denominou o sociólogo Peter Berger para se referir às rupturas nas biografias.

Coutinho nos mostra isso no primoroso Cabra marcado para morrer, em que retoma o mesmo documentário, que já não é o mesmo, muitos anos depois de iniciado. O próprio filme ganha vida e se torna protagonista de uma reivindicação de justiça e de um debate sobre a injustiça.

Para que não haja dúvida quanto à sua visão crítica do personagem e do filme, em Teodorico, imperador do sertão Coutinho nos fala de um homem que personificou tão amplamente o poder pessoal que se tornou seu próprio fantasma. Tornou-se duplo de si mesmo, como se vivesse sob o encantamento do poder sem limites de um único homem, traduzido na ficção de ser senhor de um pedaço de terra que, por isso, o fez senhor de corpos, mentes e almas.

João Salles também preza o tempo social, no seu caráter corrosivo e nos fantasmas que gera. Em O vale, é a saga do tempo que derruba monumentos, poderes, pretensões: o descendente de um barão do café do Vale do Paraíba, que fora senhor de 800 escravos, vive tanto tempo depois aprisionado pelos restos e vestígios do passado, sobrevive como vendedor de ovos de porta em porta, convertido em fantasma do próprio avô.

A inevitabilidade do tempo retorna em sua trilogia Futebol para desmontar as biografias míticas, as vicissitudes, o momentâneo da glória, de um jeito fácil-difícil de produzir os astros e desproduzi-los, prisioneiros do instante e do efêmero. Sobretudo na estreiteza das alternativas de vida em Notícias de uma guerra particular, ele toca na ferida aberta da sociedade, naqueles âmbitos em que as pessoas nascem para morrer antes do tempo, como dizia frei Bartolomeu de Las Casas. É o mundo dos sem destino, dos condenados à brevidade do viver e à incerteza permanente. Por isso, o simples documentário acusa, provoca as instituições, que processam o autor porque não podem processar o filme.

Esses antecedentes nos alertam previamente para a mensagem da unidade dos dois documentários sobre Lula. E, longe de nos porem diante das eufóricas certezas de uma história épica e de um momento de glória, nos põem diante das incertezas decorrentes do caráter corrosivo do tempo histórico, da transitoriedade de pessoas e momentos. Lula- Luiz Inácio intui isso, quando se indaga sobre o que será dele depois do poder. Trata-se de um temor proletário, de Lula falando no interior do coração do já agora Luiz Inácio, um lembrete à sua nova identidade. Uma preciosidade etnográfica no documentário sensível e bem-feito que demonstra a consciência da transitoriedade no personagem.

É nesse sentido que os dois documentários, ao tratar, respectivamente, de Lula antes de Luiz Inácio e de Luiz Inácio depois de Lula, nos sugerem que há também o antes do antes e o depois do depois. Ou seja, nos interrogam em relação à história que se oculta nas biografias do que historiadores do passado chamavam de epônimos, os homens que dão nome a uma época.

O antes do antes nos propõe o grande processo político e histórico de gestação da figura de Luiz Inácio no subúrbio antes de Lula saber disso. Foi na silenciosa disputa entre católicos e comunistas na região do ABC que começou a nascer lentamente a necessidade social e política da figura do líder operário, ainda anônimo, que personificasse a diversidade e a religiosidade da classe operária. O primeiro bispo da diocese, dom Jorge Marcos de Oliveira, veio em 1954, aberto para um diálogo com os comunistas, mas ao mesmo tempo disposto a suscitar uma liderança operária católica. Lula não sabia, porque ainda não era senão o anônimo; mas nessa opção da Igreja começava o movimento, que ele seria chamado a protagonizar mais tarde, de constituição de uma força partidária católica de esquerda, anticomunista. Foram vários os que estiveram no corredor dessa possibilidade e da fama possível.

O depois do depois nos vem no alerta de Lula a Luiz Inácio quanto à incerteza além do poder. Ele entende e menciona que foi ele mesmo quem escolheu esse caminho. Quer tão somente trinta minutos de solidão, para estar consigo mesmo, para ter-se a si mesmo, que já não tem. Na volta à vida comum, descobrirá que sua profissão já não existe, que sua classe operária já não é a mesma, que assim como ele, seu mundo mudou, arrastado pela reestruturação produtiva, pelo tempo e pela história.

*Com informações da livraria Folha.

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