Guerreiros Gurkhas do Nepal: vitória à Grande Deusa Kali

Juarez Bomfim com quepe Gurkha (Bhaktapur-Nepal)

Juarez Bomfim com quepe Gurkha (Bhaktapur-Nepal)

Na Guerra das Malvinas, os jovens recrutas argentinos, mal-treinados, mal-vestidos, friorentos e famintos tremiam apenas de ouvir falar nos guerreiros gurkhas. Esses soldados de origem nepalesa semearam o terror entre o inimigo nas lutas corpo-a-corpo, usando a famigerada faca kukri. O terrível grito de guerra para o assalto mortal ao inimigo era: “vitória à Grande Deusa Kali!”

A cena cultural nepalesa é marcada pelas lendas, feitos, histórias e a presença dos temidos guerreiros gurkhas. O Nepal é um distante e enigmático país asiático, circundado por duas superpotências econômica e militar — China e Índia.

Originalmente os gurkhas se constituem enquanto um grupo étnico indo-afegão do Himalaia ocidental, de forte presença na história política daquele país, e a origem do Reino do Nepal está ligado a este povo e seus líderes. Todavia, os gurkhas estão relacionados mesmo é a grandes feitos militares. Registre-se que no Século VIII eles barraram, pelo menos temporariamente, o ímpeto do Islã em sua expansão pelo subcontinente indiano.

Mais recente — séculos XX e nesse inicio de século XXI — o nome gurkha é lembrado associado à tradição militar britânica, e são considerados como ‘tropa de elite’ do que restou daquele vasto império colonial.

Foi assim: as vitórias militares seguidas de colonização pelos britânicos em todos os continentes, entre os séculos XVI e XIX, criou o mito do “império onde o sol nunca se põe”, devido as grandes anexações de territórios dos povos subjugados. Os “civilizados” europeus vitimavam povos e destruíam culturas milenares, motivados pela sanha de poder e riqueza, na aventura colonial.

Os ingleses encontraram uma barreira quase intransponível na fronteira do Nepal: os intrépidos guerreiros gurkhas. A Guerra anglo-nepalesa ocorreu entre 1814 e 1816, e para cessar a beligerância, aquele país asiático foi obrigado a aceitar uma espécie de protetorado da Grã-Bretanha

Usando da máxima: “se não puder derrota-los, junte-se a eles”, nos acordos que poriam fim à Guerra, os ingleses incluíram uma cláusula de que os valorosos guerreiros gurkhas deveriam servir ao exército de sua majestade. A partir de então, são inúmeros os feitos dos gurkhas na história militar mundial. Destacaremos apenas algumas, a título de exemplos.

Nas guerras coloniais do Século XIX os Gurkhas serviram nas Forças da Companhia das Índias Orientais nas várias contendas pelo subcontinente indiano, se mantendo fieis aos britânicos.

No Século XX, tiveram participação nas duas Grandes Guerras. Na Segunda Guerra Mundial, os Gurkhas somaram cerca de 250 mil soldados no Exercito Britânico e atuaram em diversos teatros de guerra. Porém, a minha geração só veio a tomar conhecimento da coragem, destreza e ferocidade desses soldados, quando da Guerra das Malvinas, em 1982.

Pokhara, local de recrutamento dos gurkhas

A Cidade de Pokhara, no Nepal, está situada no vale que antecede o grande   maciço Anapurna (Himalaia), com picos de 8 mil metros de altitude ou mais, e é base para as excursões de alpinistas ao majestoso Monte Everest — topo do mundo.

Pokhara é local de recrutamento dos futuros guerreiros da Brigada dos Gurkhas do exército inglês. Rapazes vindos de todo o país são reunidos ali, após rigorosa pré-seleção em suas aldeias de origem. Na primeira fase, com média de 30 candidatos por vaga, são escolhidos aqueles entre 17 e 22 anos, com no mínimo 1,57 metro de altura e 50 quilos, excelente saúde e certo conhecimento do idioma inglês. Apesar do nome, a Brigada inclui integrantes dos vários grupos étnicos e culturais que compõem a população nepalesa, não se limitando aos gurkhas.

No Centro de Seleção de Pokhara os candidatos passam por provas e testes, entre eles a “corrida doko”, em que é preciso correr durante 40 minutos montanha acima carregando nas costas uma cesta com pedras pesando quase 40 quilos.

Após exaustivos exames, os aprovados estão aptos a iniciar o treinamento de nove meses, aprendendo as tradicionais tarefas militares (uso de armas e explosivos, condicionamento disciplinar etc.), língua inglesa e os costumes ocidentais. Quem tem sucesso em todas essas etapas está pronto para juntar-se a uma das forças de elite mais peculiares e temidas do planeta: a Brigada dos Gurkhas.

Guerra das Malvinas. Batismo de fogo

Em 1982 a Ditadura Militar argentina dava sinais de desgaste, o que apontava para o seu fim próximo. Crescia a insatisfação da população e a oposição se rearticulava.

É quando os militares argentinos, no comando do governo, tentam uma “cartada de mestre”, apelando para o sentimento ideológico mais vulgar entre tantos — o nacionalismo — e invade e ocupa militarmente as geladas Ilhas Malvinas no Atlântico Sul, cuja soberania disputava em fóruns internacionais com a Inglaterra.

Multidões ocupam a Plaza de Mayo de Buenos Aires em apoio aos militares. A mesma multidão que ali se reunia, até a véspera, para protestar contra a Ditadura, desafiando a cruel repressão militar. Todos os grupos e organizações de centro-esquerda e esquerda, até então inimigos mortais do regime, apoiam a medida. A população entra em frenesi, aguardando a retaliação britânica. A guerra, a morte e a violência excitam os humanos. Os alimenta. Parece ser o que mais gostam. De ambos os lados.

O decadente Império britânico — mas ainda império — organiza às pressas um exerctio ‘brancaleônico’ de luxo. Requisita navios transatlânticos de cruzeiros para transportar soldados, inclusive o emblemático Queen Elizabeth.

Não discorrerei sobre pormenores da descabida guerra. Só a possível participação dos guerreiros gurkhas, negada pela Inglaterra. Porém, do lado argentino, os jovens recrutas mal-treinados, mal-vestidos, friorentos e famintos tremiam apenas de ouvir falar nos seus nomes.

É dito que esses guerreiros de origem nepalesa semearam o terror entre o inimigo nas lutas corpo-a-corpo, após desembarque na Baía de San Carlos (Malvinas).Soldados argentinos denunciaram a extrema brutalidade dos guerreiros asiáticos. Usando o kukri, a famigerada “faca gurkha”, foram acusados de assassinar prisioneiros a sangue-frio. O terrível grito de guerra para o assalto mortal ao inimigo era:

— Vitória à Grande Deusa Kali! …Kali, a temível Deusa bebedora de sangue.

Da absurda guerra provocada por los hermanos, surpresos ficamos sabendo enquanto assistíamos jogos da Copa do Mundo de 1982. Dúvida: qual a maior das tragédias? O desastre de Sarriá? Ou a clamorosa derrota militar argentina?

Na conturbada Cidade do Salvador – Bahia, outra incursão acontecia, porém pacífica. Milhares de Sem-Teto ocuparam terras disponíveis às margens da Avenida Paralela, que liga a cidade ao Aeroporto. Surgia a grande favela “Invasão das Malvinas” — hoje o consolidado e popular Bairro da Paz.

Ao drama argentino que abreviou a sobrevida da Ditadura Militar, seguiu-se uma diáspora de jovens daquele sofrido país, e milhares deles escolheram o Brasil para aqui viverem clandestinamente. Aqui em Salvador se concentravam no bairro de Pituaçu, que ficou conhecido como o ‘bairro dos argentinos’. Quando Maradona e companhia ganharam a Copa de 1986, houve um carnaval improvisado neste prazenteiro bairro, localizado entre a lagoa e o mar.

Os Gurkhas na atualidade

Hoje, batalhões gurkhas ainda fazem parte dos exércitos indiano e britânico. Neste, a Brigada continua em ação, adaptando-se aos novos tempos — o exército da Rainha planeja admitir mulheres na unidade. Todavia, o lema da Brigada permanece o mesmo: “melhor morrer que acovardar-se”. E há mais de meio século esse espírito marcial vem sendo aplicado além dos círculos militares. Desde 1949 a Força Policial de Cingapura conta com regimentos gurkhas.

Toda donzela tem um pai que é uma fera

Os soldados Gurkhas, quando voltam da Gra-Bretanha para o Nepal, por darem baixa no serviço militar ou por aposentadoria, costumam trabalhar no setor de vigilância público e privado em Kathmandu e Pokhara. Monopolizam o negócio de segurança, seja patrimonial, bancária etc.

Quando da peregrinação espiritual que fizemos ao país dos Budas, eu e minha consorte, a muito amada Cecília, tivemos oportunidade de entrar em contato com esta realidade através de jovens brasileiros que ali residiam.

Antes do devastador terremoto de abril de 2015, havia um pequeno contingente de brasileiros residindo no Nepal, muitos deles budistas vinculados aos mosteiros desta tradição religiosa, situados no sul do Brasil.

Os rapazes são leigos, lamas ou aspirantes à monge. Na condição de noviços ainda não fizeram os votos de castidade ou, se for o caso, podem renunciá-los. Mas não é que um desses rapazes se apaixonou perdidamente por uma jovem nepalesa filha de um ex-guerreiro gurkha?

Preocupados com possíveis oscilações de humor do temido ‘sogro’ nepalês e pela integridade física do companheiro, seus amigos tentaram o dissuadir de alimentar tal romance, lembrando de famoso ditado popular brasileiro, bem adequado ao caso nepalês:

Toda donzela tem um pai que é uma fera…

 

 

 

 

 

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.