Entrevista exclusiva: senadora Lídice da Mata diz que PSB planeja vencer as eleições municipais em Feira de Santana e que pode ser candidata a prefeita em Salvador

Lídice da Mata: "O meu nome surge naturalmente, por ter sido prefeita de Salvador. Tanto o meu partido como os outros partidos acham que seria um nome interessante para ser lançada a prefeitura.".

Lídice da Mata: “O meu nome surge naturalmente, por ter sido prefeita de Salvador. Tanto o meu partido como os outros partidos acham que seria um nome interessante para ser lançada a prefeitura.”.

A senadora Lídice da Mata (PSB/BA) em entrevista exclusiva ao Jornal Grande Bahia (JGB), gravada em Feira de Santana, na segunda-feira (18/01/2016), aborda temas contemporâneos da política, a exemplo do processo eleitoral nas cidades de Salvador e Feira de Santana, os desafios para financiar a campanha eleitoral, e o processo de fragmentação partidária. Ela comenta, também, sobre a crise política que afeta a identidade dos congressistas, além do envolvimento de parlamentares no caso Lava Jato.

Confira o teor da entrevista

Jornal Grande Bahia — Qual será o posicionamento do PSB em relação ao processo eleitoral em Salvador?

Lídice da Mata — Em Salvador o partido é oposição ao prefeito ACM Neto. Nós participaremos de forma decisiva neste processo eleitoral, tendo candidatura ou não. Nós ainda não definimos uma candidatura, mas tendo uma candidatura, ou não, nós estaremos de corpo e alma na oposição a Antonio Carlos Magalhães Neto (ACM Neto).

JGB — Há alguns meses o seu nome foi cogitado, inclusive para ser candidata em uma frente de oposição ao prefeito ACM Neto. Como analisa esse dado?

Lídice da Mata — O meu nome surge naturalmente, por ter sido prefeita de Salvador. Tanto o meu partido como os outros partidos acham que seria um nome interessante para ser lançada a prefeitura. No entanto, nosso partido ainda não discutiu essa questão, não tomou decisão e nós vamos começar a tratar da campanha em Salvador, agora, em janeiro.

JGB — Com relação a Feira de Santana, o que o partido planeja nas eleições municipais de 2016?

Lídice da Mata — Planejamos ganhar as eleições em Feira de Santana. Esse é o nosso planejamento básico inicial. Digamos que agora estamos iniciando o processo, nós vamos discutir a construção de um projeto político administrativo para a cidade de Feira de Santana e vamos começar isso hoje, com uma reunião preparatória, com a finalidade de produzir um seminário a respeito da economia criativa na cidade.

Nós temos nomes com folego para representar o partido nesse pleito eleitoral municipal, tanto ao cargo executivo, como legislativo. A existência de um partido é essa, ele se define pela necessidade de alcançar o espaço do poder. O PSB se prepara, pode não ganhar, mas o seu objetivo é acumular forças na direção de sair vitorioso no poder.

JGB – O PSB pretende lança candidatos a cargo majoritário em quantos municípios baianos?

Lídice da Mata — Devemos lançar em mais de 70 municípios. Mas em quantos ganharemos, eu não sei. Nosso esforço será para alcançarmos o máximo de municípios. Estamos buscando, através das candidaturas, apresentar programas para cada cidade. Com a finalidade de expressar esse desejo de mudança existente na sociedade, expondo as regras e, principalmente, passando uma ideia de uma nova política, com base nos princípios antigos de seriedade, honestidade e de compromisso com a agenda do povo.

JGB – Nesse quadro de processo eletivo, temos duas questões. Como financiar uma campanha eleitoral, observando o novo marco legal?

Lídice da Mata — O desafio de 2016, em termo de financiamento de campanha, não está respondido por nenhum partido. Todos nós vamos ter que nos adaptar para esse novo momento. Estamos começando a planejar isso. Buscando ter uma coordenação financeira, que faça um planejamento de arrecadação entre os eleitores, porque o financiamento só poderá ser de pessoa física.

Então todo esse esforço, eu creio que será a marca deste novo período eleitoral. Porque até então as eleições foram realizadas com financiamento de empresas privadas, com regras que diferem da atual.

JGB — Com relação a fragmentação partidária. Como analisa?

Lídice da Mata — Como relação a fragmentação, eu não acho que seja problema. Existe problema com a regra que permite que todos os partidos tenham as mesmas condições, porque a organização partidária deve ser livre, se existem partidos que queiram existir, podem existir, desde que as regras diferenciem o apoio recebido do povo.

JGB — São cerca de 40 partidos. É possível conceber 40 ideologias distintas para gerir a sociedade?

Lídice da Mata — Como o povo diz, cada cabeça é um mundo. Então se alguém quer organizar um partido, pode organizar um partido em sua cabeça. Não é um problema político e ideológico que se coloque. Não é se nós temos tantas ideologias, mas é o desejo das pessoas se organizarem em torno da tese.

Já teve partido de aposentado no Brasil, agora inventaram um partido da mulher, que mulher nenhuma tem. Então, nome de partido e causa, tem muito a ser conquistado, o problema é que não pode haver o que há no Brasil.

Todo partido tem fundo partidário, tem tempo de televisão, isso é que é um absurdo. Porque leva não a formação de partidos ideológicos, que eles são bem-vindos que existam, mas sim a partidos sem ideologia, que se transformam em legendas de aluguel para garantir a muitas hegemonias que existem na sociedade e que se vendem por preços exorbitantes e peculiares. Então isto é absurdo, é uma degradação da política brasileira e não pode existir. Para isso não existir, é preciso que haja um regramento na política para impedir que esse absurdo continue se perpetuando.

JGB — Observe como a situação é complexa. O senador Randolph Frederich Rodrigues Alves (Randolfe Rodrigues) foi eleito pelo partido PSOL. Era o único senador do partido, eleito em uma conjuntura ideológica bem definida. Mas, resolveu mudar de partido e isso afetou diretamente a legenda?

Lídice da Mata — Veja bem, no caso do Senado, o Supremo Tribunal Federal (STF) se pronunciou. O senador tem um voto majoritário, o mandato não é necessariamente o mandato do partido. O mandato do partido é aquele proporcional, em que ele se elegeu graças ao esforço do conjunto do partido. O mandato majoritário de um governador, de um presidente da República e de um senador, não vem diretamente da força do partido, pode vir dessa força, mas não necessariamente. Porque como voto é majoritário, ele precisa representar mais do que o partido.

Então apesar de achar que é como você disse. Que existe certa frustração para o partido, pelo qual ele se elegeu. Mas, ele saiu do partido de forma constitucional. Há uma decisão do Supremo nessa direção. Se um senador for eleito por um partido e desejar mudar de partido, não recai sobre ele as punições do processo de infidelidade partidária.

JGB — A crise política decorrente do caso Lava Jato tem atingido personagens do Congresso Nacional, a exemplo dos presidentes da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB/RJ); e do Senado, Renan Calheiros (PMDB/AL). A mídia hegemônica tem analisado esse processo de envolvimento com uma crítica cujo tom do discurso recai sobre a criminalização da atividade política. Como analisa essa leitura realizada pela grande mídia?

Lídice da Mata — Eu lamento muito e acho que a mídia ao fazer isso, não contribui com o processo democrático. É como se nós também generalizássemos o comportamento incorreto de um jornalista e transformássemos isso em uma visão sobre todos os jornalistas e todos meios de comunicação.

Eu acho que é uma postura que a mídia se arrependerá, a mídia democrática se arrependerá. Eu vi esses dias um texto jornalístico que dizia: “entregou tal cargo, em troca de apoio eleitoral”. Ora, qualquer cargo de governo que não seja de preenchimento exclusivo de careira, ele é uma indicação política em troca de apoio. É com troca de apoio político que se faz um governo.

Aqueles que estão no governo, são aqueles que apoiam politicamente aquele governo. Estamos num sistema de presidencialismo de coalisão, ou seja, presidencialismo resultante da coalisão de diversos partidos, não é possível que alguém participe do governo naqueles cargos, permitidos pela Constituição, que não seja em troca de apoio.

JGB – Como analisa a situação do senador Collor de Melo (PTB/AL) e do presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), que parecem ter agravado, com novas denúncias no STF e na imprensa sobre envolvimento no caso Laja Jato?

Lídice da Mata —Sobre Eduardo Cunha, eu acho que se a Câmara Federal não tomar uma medida, vai caminhar para uma situação de que a Justiça vai tomar. Era, portanto, melhor que fosse a Câmara a fazer. Eu creio que já se esgotou a possibilidade de inocentá-lo, pela riqueza, não de acusações, mas de provas que surgiram de contas, principalmente de contas no exterior.

Quanto ao senador Fernando Collor, eu acho que na medida em que se consolidem provas, o senado terá que tomar uma decisão também. Mas veja bem, há uma diferença.  Até então, não há comprovação. Por mais que tenha sido acusado, não há uma comprovação que diga que tenha dinheiro na conta do senador, ou que esta sendo gasto de outra forma. O que esta sendo dito é que alguém repassou dinheiro.

No caso do presidente da Câmara não. Houve uma acusação do Ministério Público da Suíça, de que ele teria essas contas, e foi comprovado a existência. Ele nega, mas confirma que é da mulher dele e dos filhos, ou seja, não nega na prática.

JGB – E a situação da senadora Delcidio do Amaral (PT/MT), preso por envolvimento no caso Lava Jato?

Lídice da Mata — Eu acho um excesso a manutenção de prisão de Delcídio. Porque ele foi preso sobre o argumento de que ele estaria obstruindo a Justiça. Aliás, coisa que explicitamente Eduardo Cunha fez e não foi preso.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.