Disponível na Livraria da Folha, ‘Golpe de Estado’ aponta os resquícios do golpe militar no cotidiano nacional

Capa do livro 'Golpe de Estado', de autoria de Palmério Dória e Mylton Severiano.

Capa do livro ‘Golpe de Estado’, de autoria de Palmério Dória e Mylton Severiano.

Assinado por Palmério Dória e Mylton Severiano, “Golpe de Estado” pode ser considerado um livro de alerta. Enquanto apontam os resquícios do golpe militar no dia a dia do brasileiro, os autores mostram que o preço que pagamos é muito alto: educação que deixa a desejar, violência policial crescente, marchas que bradam pela volta dos militares e um mercado que reduziu a cultura legítima a puro pó.

Para revelar as marcas de 1964, o livro apresenta depoimentos de quem viveu naquele tempo – testemunhos de atos atrozes e decisões que acabaram com a possibilidade de autonomia para o país.

“Um dos méritos deste livro […] é este de aclarar as manobras safadas de hoje, à luz do que aconteceu em 1964 e em seguida, pois os civis que tomaram o poder (usando os militares como aliados armados) o que fizeram foi interromper as reformas política, financeira, agrária, industrial, a reforma do Estado, enfim, que vinham sendo anunciadas pelo presidente João Goulart”, escreve o editor Luiz Fernando Emediato no texto de orelha do livro.

Trecho da obra ‘Golpe de Estado’

15 de março de 2015.

Estamos pagando até hoje.

O prédio do Museu de Arte de São Paulo demorou doze anos para ser concluído, de 1956 a 1968. Foi inaugurado no dia 7 de novembro, antevéspera do maldito AI-5. Quem cortou a fita inaugural foi a Rainha Elizabeth, da Inglaterra. O idealizador da majestosa obra não estava presente. Pouco antes, depois de uma vida feérica e longa enfermidade, Assis Chateaubriand havia morrido.

O vão livre do MASP, o maior da América Latina, epicentro das manifestações que ocorrem na Avenida Paulista, é que nem papel: aceita tudo. Atos democráticos ou antidemocráticos. Aos domingos, uma sofisticada feira de antiguidades, com desfile de madames e colecionadores. Nos dias de semana, hippies tardios fumam maconha, jovens musculosos jogam capoeira, casais de namorados trocam carícias. Poucos locais são tão democráticos quanto o museu de Chatô.

Chateaubriand, o magnata das comunicações, dono dos Diários Associados, levantou mundos e fundos, tosquiou os ricos, viabilizou a obra, comprou, tomou ou extorquiu o seu acervo deslumbrante e contratou o galerista italiano Pietro Maria Bardi para dirigir o novo cartão postal da cidade.

Quem concebeu esse monumento às artes foi a mulher de Pietro, Lina Bo Bardi, arquiteta modernista italiana. Para manter a vista da Paulista, no alto de uma colina, imaginou um vão livre de 70 metros, mantendo essa estrutura pousada em quatro pilares laterais. Um milagre!

Quem tocou essa bela loucura foi o engenheiro José Carlos Figueiredo Ferraz, que depois se tornou prefeito de São Paulo, indicado por Garrastazu Médici, o mais sanguinolento dos ditadores.

Quinze de março de 2015. Em sua juventude, na Itália, Pietro Maria Bardi era devoto do ditador fascista Benito Mussolini, que se sentiria muito à vontade no vão do MASP neste domingo nublado e de chuva fina.

A multidão que passa barulhenta e circula por aqui está atrás de um Duce de ocasião, um líder que se apresente “acima dos partidos” e cultive incontido ódio por todos os tons de vermelho, como o próprio Mussolini. O humorista Gregório Duvivier, do grupo Porta dos Fundos, foi preciso no diagnóstico: “Histeria coletiva”.

No canteiro central da mais importante avenida do hemisfério sul, os relógios digitais marcam três da tarde. Um formigueiro verde e amarelo zanza de ponta a ponta nos seus 2.600 metros de extensão. A avenida ferve. Dos buracos do metrô pipocam inúmeras famílias. No meio de uma delas, uma garotinha com não mais de cinco anos, de bandeirinha nacional na mão, repete com alegria palavras das quais nem sonha o significado:

– Fora Dilma! Fora PT!

Dá para imaginar o papo dessa linda criatura com seus pais daqui a uns quinze anos, ao se flagrar em meio a tristes figuras em selfies para a posteridade, quando terá uma perfeita noção das circunstâncias deste dia 15.

– Então vocês me fizeram pagar esse mico, hein?

Vamos circular.

Um sujeito corpulento e careca, com rasgos de exibicionismo evidente, cercado de moças em trajes mínimos, desce de seu Jaguar e, com um megafone, urra, repetitivo: “Fora Dilma!”. Oscar Maroni, figurinha carimbada de programas B da televisão e empresário da noite, é o dono da sauna relax Bahamas, onde batalhões de garotas de programa atendem senhores endinheirados. Maroni, sem saber, dá o tom da festa: “Isso está uma zona! E de putaria eu entendo!”.

Cercado da mulher e familiares, o senador goiano Ronaldo Caiado, líder o DEM, vestindo uma camiseta onde se estampa a mão de Lula sem o dedo mindinho, perdido num acidente no torno, empresta ares agrários ao happening. Depois se soube que as tais camisetas eram vendidas a R$ 150,00.

Caiado, de porte físico invejável, médico ortopedista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro com especialização em cirurgia da coluna pelo Serviço de Cirurgia Ortopédica e Traumatológica do professor Roy-Camille, em Paris, e com ideário político pré-queda da Bastilha, faz um tremendo su, como diria o colunista analfabeto Ibrahim Sued. Damas do society e damas do Bahamas de Maroni disputam selfies com o vistoso galã rural. Ele também posa com o roqueiro Lobão, da vanguarda intelectual do movimento, uma das sumidades formadas pelo filósofo Olavo de Carvalho. A soma delas de todas elas daria um Alexandre Frota.

Dias depois, o paladino da Paulista, pretenso candidato das massas conservadoras ao Palácio do Planalto, seria abatido por um artigo furibundo e irrespondível de outra reserva moral de Goiás: o ex-senador e seu íntimo (ex) amigo Demóstenes Torres. Uma traulitada. Do financiamento de Caiado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira a férias pagas pela empreiteira OAS num resort baiano, Demóstenes o demoliu. Caiado respondeu com adjetivos terríveis.

Com informações da Livraria da Folha.

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