Delator da Lava Jato deu passagem de ida e volta para Marte, a ministro do governo Rousseff

Reprodução de página da matéria do Jornal Folha de São Paulo, com o título ‘Dono da UTC deu R$ 6,8 mil em vinhos como presente para Wagner’. Manipulação do discurso jornalístico ultrapassa o limite do aceitável.

Reprodução de página da matéria do Jornal Folha de São Paulo, com o título ‘Dono da UTC deu R$ 6,8 mil em vinhos como presente para Wagner’. Manipulação do discurso jornalístico ultrapassa o limite do aceitável.

Reprodução de página da revista ‘Veja’, com o título ‘João Santana pode ter recebido dinheiro do petrolão no exterior’.

Reprodução de página da revista ‘Veja’, com o título ‘João Santana pode ter recebido dinheiro do petrolão no exterior’.

Reprodução de capa da revista IstoÉ, com o ministro Jaques Wagner.

Reprodução de capa da revista IstoÉ, com o ministro Jaques Wagner.

Capa de revistas evidenciam posição editorial favorável a derrubada do governo Rousseff.

Capa de revistas evidenciam posição editorial favorável a derrubada do governo Rousseff.

A partir da pequena margem de vitória de Dilma Rousseff, ocorrida no segundo turno das eleições presidências de 2014, a grande mídia intensificou uma pauta de desconstrução do governo, membros do governo, liderados e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT). A pauta não é nova, ela sempre existiu. Um momento histórico demarca o processo, a candidatura de Fernando Collor de Mello à presidência da República, em 1989. Na época, o candidato foi ungido pela Rede Globo, Veja, Folha e Estadão como o “caçador de marajás”. A mídia que apoiou o ‘Golpe de 1964’ criou um mito para combater a ascensão das forças progressistas ao poder da República,e por um tempo teve efeito positivo.

Com a perda do poder para as forças progressistas, observa-se que a estratégia de descontrução foi intensificada em anos mais recente, e adquiriu singular projeção em 2015, sendo sequenciada em 2016. A estratégia objetiva destruir as principais lideranças do PT que possam vir a ser lançados como candidatos a presidente da República em 2018.

No jogo de interesses dos conservadores, cujo meio de ressonância é a grande mídia golpista, vale tudo. Principalmente, releituras e interpretações de passagem de depoimentos de criminosos confessos, os delatores, contra membros da República filiados ou afinados com o Partido dos Trabalhadores. Destaca-se que o alvo principal da mídia golpista é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o segundo alvo é a presidente Dilma Rousseff.

Destruir a imagem pública dos membros do governo do PT é o ponto central para retomada do poder. Observando que após a tentativa de ‘golpe dentro da ordem democrática’, liderada pela dupla peemedebista Eduardo Cunha – Michel Temer, fracassar, a mídia golpista segue com a estratégia anterior, destruir a imagem dos políticos ligados ao PT.

Os novos senhores do mundo: a Folha de São Paulo

Entre os esdrúxulo e patético, a chamada de capa do Jornal Folha de São Paulo, na coluna Poder, categoria ‘Brasil em Crise’, redigida por Aguirre Talento, publicada no sábado (16/01/2016), com o título ‘Dono da UTC deu R$ 6,8 mil em vinhos como presente para Wagner’. Cuja legenda da imagem em destaque na matéria descreve: ‘O ministro Jaques Wagner passa por cinegrafistas após reunião com o vice, Michel Temer’, evidencia o apelo pela manipulação discursiva.

Na sequência, o jornalista descreve o fato:

– O dono da UTC, Ricardo Pessoa, apresentou em sua delação premiada comprovantes de que presenteou o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner (PT), então governador da Bahia, com três vinhos que totalizaram R$ 6.797,84.

– O mimo foi dado em março de 2014 por ocasião do aniversário do petista. Na época, Wagner estava no último ano de seu segundo mandato como governador.

– As três garrafas de Vega Sicília Único Gran Reserva 2003 custaram, cada uma, R$ 2.059,95, e foram compradas em uma importadora de vinhos em São Paulo. Com impostos, totalizaram R$ 6.797,84.

Os novos senhores do mundo: a revista Veja

A reportagem de Rodrigo Rangel, publicada na revista veja, categoria Brasil, na sexta-feira (15/01/2016), com o título “João Santana pode ter recebido dinheiro do petrolão no exterior’. Cujo intertítulo informa ‘Carta assinada pela mulher e sócia do marqueteiro petista, agora em poder da PF, foi endereçada a um dos operadores do esquema criminoso indicando contas na Inglaterra e nos Estados Unidos’, é mais um exemplo de tentativa de criminalização de personagens da vida política do país, e de elaboração de texto com evidente conteúdo especulativo.

Observa-se que o uso da expressão “pode”, mais uso dos temos delator e criminoso, e o uso de uma imagem do ex-presidente Lula conversando com o publicitário João Santana e, na sequência ilações à presidente Dilma Rousseff evidenciam a incapacidade do veículo em publicar matéria baseada em documentação que indique, efetivamente, o envolvimento dos personagens citados. Conforme observa-se na seguinte passagem:

– A remetente da correspondência, manuscrita, era Mônica Moura, mulher e sócia do marqueteiro João Santana. Intrigante. Que ligação financeira poderia haver entre a esposa e sócia do marqueteiro da presidente da República e um operador de propinas do petrolão? Estranho.

Néscios da comunicação

Na falta de documentos que comprovem que o ministro Jaques Wagner é um corrupto, serve para destruir a imagem de um homem público, que governou a Bahia por oito anos, possíveis garrafas de vinho dadas de presente por um delator condenado, que, na época dos possíveis presentes entregues, era reconhecido como destacado empresário nacional.

Também serve, no processo de destruição de reputações, a produção de conteúdo especulativo baseado em fontes anônimas, cujo contexto remete a ligações imaginárias entre personagens.

Observa-se que a grande mídia se tornou expert em construir cenários fictícios, cuja finalidade é a destruição dos atuais ocupantes do poder – ligados ao PT– objetivando a devolução do poder aos oligarcas dos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Não demora e algum néscio da comunicação golpista publica a manchete ‘Delator da Lava Jato deu passagem de ida e volta para Marte a ministro do governo Rousseff’. Será o ápice da manipulação discursiva da mídia golpista apoiadora do ‘Golpe de 1964’.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.