A nova realidade do petróleo

Edifício Sede da Petrobra (EDISE) no Rio de Janeiro. Companhia petrolífera estatal brasileira revê planos de investimento.

Edifício Sede da Petrobra (EDISE) no Rio de Janeiro. Companhia petrolífera estatal brasileira revê planos de investimento.

A Guerra do Yom Kippur, deflagrada em outubro de 1973, dividiu Israel, de um lado, e Egito e Síria, do outro. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) anunciou então cortes na produção de seus membros e embargo aos EUA. Em dezembro do mesmo ano, o barril de petróleo tipo Brent alcançou US$ 11, contra os meros US$ 2 registrados em setembro.

Embora o cessar- fogo tenha sido anunciado ainda em outubro, o embargo a Washington foi encerrado em março do ano seguinte A retirada do Egito da península do Sinai foi negociada em janeiro, a paz entre Síria e Israel ficou acertada em maio, e os preços do petróleo continuaram subindo ao longo de toda a década, ultrapassando a marca de US$ 80 por barril em 1980.

O mercado mundial de petróleo é, porém, maior do que os países e corporações que o compõem, conforme o descreve o pesquisador norte-americano Jim Rogers, no clássico “Hot Commodities”. Segundo ele, estamos todos à mercê da lei da oferta e demanda da commodity.

A referida “crise do petróleo” de 1973 não foi, portanto, a principal causa da alta dos preços do petróleo naquela década. A espiral de alta resultou sobretudo de uma redução gradativa da oferta global e do aumento do consumo.

Para controlar a inflação, o governo Nixon, por exemplo, congelou o preço dos combustíveis em 1971, estimulando o consumo. Entre 1970 e 1973, as importações de petróleo dos Estados Unidos praticamente dobraram, levando os negociadores e as refinarias a comprar a commodity onde quer houvesse oferta sem se importar com os preços crescentes.

A partir de 1981, porém, o petróleo voltou a cair. Na metade da década de 1980, recuou para US$ 30, faixa em que se manteve na maior parte do tempo até 1999, quando retomou um novo ciclo de alta. Na crise financeira russa de 1998, por exemplo, o cotação do tipo Brent estava na faixa entre US$ 20 e 15. Em contraste, a partir de 2004, o barril ultrapassou US$ 50 e deu início a uma ascensão que culminou em cotações acima de US$ 140 em meados de 2008. Com a crise financeira do “subprime”, o barril sofreu forte correção por alguns meses e depois retornou à faixa de US$ 100 a 120 até despencar em 2014 e atingir, em janeiro de 2016, menos de US$ 30.

Historicamente, os preços do petróleo, como de outras commodities, têm flutuado em ciclos de uma década ou pouco mais. Quando os preços estão baixos, as empresas decidem adiar ou abandonar novos projetos de exploração e produção. Quando o efeito dessas decisões chega ao mercado consumidor, em geral dentro de alguns anos, a oferta começa a encolher e os preços a subir de novo. Quando alcançam dado nível, projetos de investimento que não eram rentáveis começam a se tornar viáveis. A oferta cresce de novo, até derrubar os preços mais uma vez.

Em 2014, grande parte da imprensa responsabilizou o boom do gás e do petróleo de xisto nos Estados Unidos como o principal fator responsável pelo aumento da oferta global de hidrocarbonetos. Agora, é a desaceleração da China em 2015, que reduz as importações das commodities pelo país, quem tem sido apontada como principal causa do final do ciclo de alta do petróleo. Mas a verdade é que os preços mundiais das commodities têm se comportado em ciclos ao longo dos últimos cem anos pelo menos, em função da balança entre oferta e demanda.

Em meados da primeira década do século 21, cansamos de escutar que, com o impacto crescente da China no mercado consumidor mundial, os preços do petróleo e demais commodities se manteriam em alta por muitas décadas – até para sempre –, diferentemente do passado. Dizia-se também que as reservas mundiais estariam se esgotando e que a época do petróleo fácil e barato tinha acabado. Entretanto, como afirmou o lendário investidor John Templeton, o pior equívoco em finanças é a afirmação de que “agora é diferente”.

O avanço tecnológico é uma variável do capitalismo moderno que tem levado a um contínuo aumento da produtividade da economia, incluindo a indústria do petróleo. Então, com os preços na estratosfera a partir de 2006, não é surpresa alguma que tenha havido aumento da oferta por meio do incremento tecnológico na exploração e produção.

Quanto ao crescimento chinês, como diz outro grande investidor, Warren Buffett, “árvores não crescem até o céu”. Em algum momento, o modelo que o impulsionou entraria em colapso, como, de fato, vem ocorrendo. Recessões e depressões fizeram parte da trajetória norte-americana ao longo dos séculos 19 e 20. Por que no caso chinês seria diferente?

Podemos, portanto, tirar algumas lições. Em primeiro lugar, o presente ciclo de baixa dos preços das commodities, incluindo o petróleo, vai durar alguns anos. Talvez até 2020, ou além. No caso específico dos hidrocarbonetos, o gás de xisto tem uma curva de produção mais curta do que os métodos convencionais de exploração e produção, o que pode reduzir o tempo do ciclo de baixa, mas não eliminá-lo. Além disso, a “era do petróleo” não acabou, pois a commodity continua suprindo a maior parte da demanda global de energia. Por último, temos que nos preparar para o pior: muitas empresas vão quebrar, a indústria do petróleo vai sofrer reduções e a sobrevivência só será possível aos mais eficientes e capazes de se adaptar à nova realidade do petróleo.

*Com informações do Gazeta Russa.

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