A morte e a morte de Milarepa. Ou será encantamento?

Juarez Bomfim em Pokhara (Nepal). Ao fundo a estupa Peace Pagoda, monumento budista à Paz Mundial

Juarez Bomfim em Pokhara (Nepal). Ao fundo a estupa Peace Pagoda, monumento budista à Paz Mundial

As pessoas de Nyanam, acreditando que eram mais numerosas e poderosas, estavam prontas para levar o cadáver de Milarepa à força. O conflito parecia iminente. Foi quando um Deva apareceu nos céus e cantou um hino. Cessaram as disputas e começaram a orar. Então, o povo de Chubar viu que possuíam um cadáver de Milarepa, e que o povo de Nyanam possuía outro.

Sentindo que sua hora de abandonar o corpo físico e partir para o Reino da Felicidade se aproximava, o grande santo tibetano, Jetsun Milarepa, retirou-se para a Caverna de Brilche, em Chubar, seguido por seus inúmeros discípulos.

Nessa ocasião, alguns fenômenos como a sensação de êxtase e a visão do arco-íris, que haviam acompanhado seus sermões anteriores, encheram toda a região, e os picos das montanhas tornaram-se gloriosos, e por toda parte havia a percepção de bom augúrio. Assim, todos entenderam que Jetsun havia decidido partir para o outro mundo.

Milarepa instruiu-lhes:

— Vendo que não mais continuarei a viver, observai meus ensinamentos e segui-me.

Tendo dito isto, mergulhou no estado de quietude do Samadhi. E assim morreu Jetsun Milarepa, com a idade de oitenta e quatro anos, no amanhecer de um dia de inverno, em 1.135 d.C.

Durante seu passamento, Milarepa mergulhou o seu corpo físico no Reino da Eterna Verdade. Os seres celestiais, Devas e Dakinis  manifestaram fenômenos maravilhosos, e muitas pessoas, ali reunidas, contemplaram aquelas maravilhas.

O céu sem nuvens parecia palpável em suas cores prismáticas, distribuídas num fundo de desenhos geometricamente dispostos, em cujo centro havia lótus de várias cores, alguns de oito e outros de quatro pétalas. Sobre as pétalas havia mandalas maravilhosamente desenhadas, mais belas do que as que o mais hábil artista humano jamais poderia fazer.

O firmamento continha muitas nuvens maravilhosamente tingidas, que assumiam a forma de pára-sóis e bandeiras, cortinas e tapeçarias, e vários outros objetos para a adoração. Flores choviam profusamente. Nuvens de cores variadas adornavam os picos das montanhas e assumiam a forma de estupas, cada qual com seu topo voltado para Chubar.

Ouvia-se música de encantadora melodia, acompanhando os salmos celestes em louvor ao Santo que partia. E um delicioso perfume, mais fragrante do que todas as essências terrestres, impregnava o ar, de tal modo que todos se deliciavam..

Os seres celestiais, Devas e Dakinis, traziam oferendas e foram vistos por muitas pessoas, como se viessem dar boas-vindas a Milarepa. Mais maravilhoso, ainda, foi o fato de os seres humanos, ao verem as formas nuas dos Devas, não sentirem vergonha, nem os seres celestes pareceram afetados pelo desagradável odor emitido pelos seres humanos.

Deuses e homens se encontraram e conversaram livremente uns com os outros, trocando saudações, de modo que, por encantamento, foram magicamente transportados para a Idade de Ouro, tempo de felicidade (Sat Yuga).

O povo da Vila de Nyanam, sabendo do passamento de Milarepa, veio ao velório e propôs aos discípulos da Vila de Chubar que eles deveriam ter o privilégio de cremar o corpo do Guru em sua aldeia, mas a proposta foi rejeitada.

Em seguida, o povo de Nyanam solicitou que a cremação fosse retardada, até chegar todos os seus amigos, para que eles pudessem ver pela última vez o Amado Guru morto. Tendo sido aceito esse pedido, voltaram a sua aldeia e retornaram com uma grande multidão de homens, dispostos a obter à força os restos do Guru.

O conflito parecia iminente, mas os discípulos principais intervieram, e disseram:

— Ó povo de Nyanam! Todos vós acreditavam em Milarepa, e foram seus seguidores. Visto que o passamento do Guru se deu em Chubar, não é justo que o seu corpo seja cremado em Nyanam. Os que são de Nyanam podem permanecer aqui até que a cremação seja realizada, e receberão a devida partilha das relíquias das cinzas do Amado Guru.

Mas as pessoas de Nyanam, acreditando que eram mais numerosas e poderosas, estavam prontas para levar o cadáver à força. Foi aí que um Deva apareceu nos céus e, com a voz de Milarepa, cantou um hino:

Ó discípulos aqui reunidos!

Ó leigos que disputais um cadáver!

Milarepa, o melhor dos homens,

Mergulhou sua mente no Incriado Dharma-Kaya (a Verdade);

E como não há nenhuma forma real, exceto a mente,

Enquanto a forma terrestre de Jetsun está mergulhando no Dharma-Kaya,

Se não obtiverdes as Verdadeiras Relíquias,

É tolo disputar um cadáver.

Tendo assim cantado, o Deva se dissipou como um arco-íris, e os discípulos se sentiram tão felizes como se tivessem contemplado mais uma vez seu Amado Guru. Cessaram as disputas e começaram a orar.

Então, o povo de Chubar viu que possuíam um cadáver de Milarepa, e que o povo de Nyanam possuía outro. E estes tomaram o seu cadáver e o cremou na Caverna Dutdul, na rocha chamada “Ovo da Águia”, tendo essa cremação sido acompanhada de muitos fenômenos: arco-íris coloriam os céus; choveram flores; os perfumes celestes encheram o ar; e melodias celestiais soaram por todos os vales e montanhas do Himalaia.

Enquanto isso, em Chubar, o outro cadáver foi guardado pelos principais discípulos de Milarepa. Ofereceram eles ininterruptas e fervorosas orações, até que, depois do sexto dia, o cadáver emitiu um halo de glória radiante, igual ao dos seres divinos, e diminuiu de tamanho, feito o corpo de uma criança de oito anos.

Esperavam pela chegada de Rechung para a cremação, por ordem testamental de Milarepa. Rechung era o seu discípulo dileto.

— Rechung não chega. Se adiarmos ainda mais a cremação, nada restará do corpo; e assim perderemos o nosso quinhão das relíquias, não teremos nenhum objeto para venerar ou reverenciar. Deveríamos realizar a cremação imediatamente.

Todos concordaram e, depois de todos terem tido a oportunidade de olhar pela última vez a face de Jetsun, ergueu-se uma pira funerária sobre um penedo, no qual Milarepa havia pregado, na base da Caverna de Brilche.

O cadáver foi levado para lá com grande pompa. Oferendas fúnebres dos seres celestiais e dos seguidores terrenos foram dispostas ao redor do corpo santo.

Tentou-se pôr fogo à pira funerária antes do poente, e mesmo durante a noite, mas a pira não acendia. Surgiram, então, cinco Dakinis em meio a uma nuvem aureolada de arco-íris, que cantaram em coro o seguinte hino:

Tendo o fogo da Força Vital

Sido contemplado por Ele,

Que poder tem o fogo deste mundo sobre Seu sagrado corpo?

Terminado o hino, disse um dos principais discípulos:

— Ninguém deve tocar os restos do Senhor até a chegada de Rechung, é a ordem do Guru e a mensagem do hino das Dakinis. Mas, como não há nenhuma certeza de que Rechung venha, se adiarmos a cremação do corpo sagrado, parece provável que ele desaparecerá sem nos deixar qualquer relíquia substancial.

Pondera um outro discípulo:

— A ordem de Jetsun, a canção das Dakinis e o fato de que a pira se recusa acender, tudo coincide. Rechung chegará em breve, com certeza. Enquanto isso, devotemo-nos à oração.

E assim todos começaram a rezar.

Nesse meio tempo, Rechung estava no Mosteiro de Loro-Dol, a uma distância que viajantes montados em asnos levavam dois meses para percorrer, quando teve uma visão do seu Amado Mestre. Pensou: “terá́ o meu Guru morrido?”

Então, duas Dakinis lhe apareceram nos céus, e disseram:

— Rechung, se não te apressares para ver o teu Guru, breve ele partirá para os Reinos Sagrados, e não o verás mais nesta existência. Vai sem demora.

Pronunciadas essas palavras, o céu se encheu com a glória dos arco-íris.

 Muito impressionado com a visão, e ardendo de desejo de ver o seu Guru, Rechung imediatamente se levantou e se pôs a caminho. Os galos de Loro-Dol haviam começado a cantar.

Exercitando sua fé no Guru e seu conhecimento sobre o controle do processo de respiração (energia prânica), Rechung viajou com a velocidade de uma flecha e atravessou numa única manhã toda a longa Cordilheira.

Quando se aproximava de Chubar ele viu Jetsun Milarepa à sua espera, e este o cumprimentou muito afetuosamente:

— Então o meu filho Rechung por fim chegou?

E passou a mão carinhosamente sobre a sua cabeça. A visão de dissipou;

Ao chegar a Chubar, Rechung viu, na caverna em que Jetsun havia morrido, todos os discípulos reunidos em torno do seu corpo, chorando e realizando vários atos de veneração.

Rechung, melancólico, ofereceu ao seu Guru fervorosa e triste prece, e sua clara voz alcançou o cadáver; A cor deste, que havia desaparecido, tornou-se cada vez mais brilhante, e a pira funerária imediatamente se acendeu.

Tão grande era a força e a sinceridade da fé de Rechung que Milarepa, que já havia mergulhado no estado da Luz Clara, reanimou seu cadáver e dirigiu sábias palavras aos seus discípulos e, destacadamente, para Rechung:

— Tu, meu filho amado, aproxima-te do teu Pai.

De início, todos os presentes ficaram cheios de espanto e comoção; depois, esse sentimento deu lugar a uma onda de alegria. Rechung agarrou-se a Jetsun e caiu em prantos; e tão dominado ficou ele pelo excesso de alegria e dor alternadas, que por um instante ficou sem sentidos.

Quando Rechung recobrou a consciência, encontrou todos os discípulos e seguidores sentados ao redor da entrada da casa de cremação. Entrementes, Milarepa havia se elevado ao Corpo Indestrutível, no qual mergulham tanto o corpo espiritual quanto o corpo fenomênico.

As chamas da pira funerária assumiram a forma de um lótus de oito pétalas e, no meio dele, como os estames da flor, sentava-se Milarepa, com um dos joelhos semi-erguido e a mão direita estendida na atitude de pregação, dominando as chamas.

— Ouvi, disse ele, o último testamento deste velho.

Então, como uma resposta à prece de Rechung, e também como ensinamentos finais aos seus discípulos, com a mão esquerda colocada sobre a face, Milarepa cantou seu último hino do meio da pira funerária, numa voz divina que provinha do Corpo Indestrutível:

Ó Rechung, meu filho, tão querido como o meu próprio coração,

Ouve este hino, o meu último testamento de preceitos:

No Oceano Samsárico, dos Três Lokas (mundos),

O réu é o corpo físico impermanente;

Ocupado em sua ansiosa busca de comida e roupa,

Ele não encontra alívio nas obras mundanas:

Renuncia, ó Rechung, a todas as coisas mundanas.

(…)

Numa certa região invisível dos Céus,

O Buda Perfeito, versado nos argumentos sutis,

Propôs muitas sutis e profundas Verdades Aparentes;

E aí não se tem tempo para conhecer as Verdades Reais:

Evita, ó Rechung, os argumentos sutis.

Gurus, Devas, Dakinis — Reúne-os e reverencia-os;

O objetivo da aspiração, a meditação e a prática — Combina-as, e ganha o

Conhecimento da Experiência;

Esta vida, a próxima vida e a vida intermediária no Bardo

Olha-as como uma só, e acostuma-te a elas como unas.

Tais são os meus últimos Preceitos Seletos,

E o fim do meu Testamento;

Essa é a Verdade, ó Rechung;

Obtém dela o Conhecimento Prático, ó meu filho.

Tendo pronunciado essas palavras, Milarepa caiu novamente em transe na Luz Clara. A pira funerária assumiu a forma de um grande Palácio, com quatro grandes portais, pedestais para a subida e outros adornos. Tudo isso aureolado por um glorioso arco-íris de cortinas radiantes e ondeantes de luz colorida. Cúpulas e domos surgiram, cobertos por bandeiras e estandartes, pára-sóis (reais), flâmulas e vários ornamentos.

As próprias chamas, na base, assumiram as formas de flores de lótus de oito pétalas, que desabrocharam e se transformaram em lindas mandalas. As chispas assumiram as formas de uma deusa que carrega vários objetos de oferenda e adoração. A crepitação das chamas soou como melodiosos acordes de instrumentos musicais, como violinos, flautas e pandeiros. A fumaça exalou um doce aroma de diversas espécies de incenso.

O céu diretamente acima da pira funerária estava repleto de seres angélicos, que portavam taças de néctar, e as derramavam em cascatas. Outros traziam comida, bebida, unguentos e perfumes celestiais, com que se regalavam os seres humanos ali reunidos para aquele sublime banquete espiritual.

Namastê!

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.