A fugacidade da vida e a impermanência da matéria num crematório nepalês

Cavernas de Tilopa e Naropa em Pashupatinath (Kathmandu-Nepal)

Cavernas de Tilopa e Naropa em Pashupatinath (Kathmandu-Nepal)

O conhecido axioma de muitas tradições religiosas “tu és pó, e ao pó voltarás” adquire literalidade quando, contemplativos, observamos os rituais de cremação na outra margem daquele estreito rio, a uma distância tão pequena que parece possível alcançar os corpos mortos lá do outro lado, apenas a um esticar de mãos.

Na peregrinação espiritual que fizemos ao país dos Budas (Nepal), eu e minha consorte, a muita amada Cecília, visitamos tantos locais sacralíssimos e especiais que se torna difícil enumerar os principais. Menos quando se trata do complexo religioso de Pashupatinath (Vale de Kathmandu), joia arquitetônica e cultural nepalesa.

Pela sua importância e monumentalidade o templo de Pashupatinath foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco na década de 1970, junto a outros seis sítios arquitetônicos do Vale de Kathmandu (Nepal).

Em 25 de abril de 2015 um forte terremoto devastou aquele sofrido país, matando milhares de nepaleses e destruindo total ou parcialmente 2/3 das suas edificações, inclusive esses sítios arquitetônicos protegidos, atualmente na condição de patrimônio ameaçado.

O Templo de Pashupatinath foi construído em louvar ao Deus Shiva, e é estimado como sendo do Século III a.C., ou, se preferirem, desde tempos imemoriais. É composto pelo templo principal — só acessível a hinduístas — templos menores, santuários das divindades hindus, os ghats (escadarias) de acesso ao sagrado Rio Bagmath, crematório, mata fechada e as sacras cavernas dos grandes yogues indianos Tilopa e Naropa.

Desperta a atenção de quem visita Pashupatinath o seu crematório, erigido às margens do Rio Bagmath. De uso intenso, esse é o principal crematório de todo o Vale de Kathmandu. O grande enigma da morte se apresenta ali, nos rituais fúnebres e nas elevadas chamas que sobem aos céus desde as piras funerárias.

O conhecido axioma de muitas tradições religiosas “tu és pó, e ao pó voltarás” adquire literalidade quando, contemplativos, observamos os rituais de cremação na outra margem daquele estreito rio, a uma distância tão pequena que parece possível alcançar os corpos mortos lá do outro lado, apenas a um esticar de mãos.

Não foi por acaso que os mestres budistas Tilopa e Naropa escolheram este lugar para as suas práticas meditativas, próximo a um crematório.

Todos os yogues tantristas são exortados pelos gurus a praticar a meditação em cemitérios e em lugares onde os defuntos são cremados, ou mesmo em lugares gélidos do Himalaia onde os cadáveres são esquartejados e lançados aos corvos para serem devorados. A meditação em tais localidades tem por finalidade dominar a aversão ou o horror, universal entre os seres humanos, por cemitérios e crematórios e compreender a natureza transitória da existência mundana.

Em alguns rituais, é necessário ao yogue sentar-se em meditação solitária sobre um cadáver, especialmente durante as horas escuras da noite; em outros rituais, ele é instruído a fazer uma almofada do cadáver e, sentado em posição de lótus, dormir nessa postura.

O grande yogue do Tibet, Milarepa (1052-1135), praticou essa meditação, fazendo uma almofada dos ossos de sua mãe morta, e sobre os ossos permaneceu em samadhi por sete dias e sete noites.

Pashupatinath e as cavernas de Tilopa e Naropa

Num entardecer em Pashupatinath, visitamos as cavernas, lado ao lado, do mestre e seu discípulo, Tilopa (988-1069) e Naropa (1016-1100), yogues indianos que peregrinaram também pelo Nepal. Lugar bucólico, apesar de distar poucos metros do concorrido crematório.

Numa caverna mais acima do local de peregrinação, reside um sadhu (renunciante) nepalês que é o zelador dessas pequenas grutas. Nosso anfitrião, George Carvalho, foi busca-lo para abrir o gradil que fecha a entrada das sagradas grutas. Ao término da visita, é mister fazer uma pequena doação pecuniária pelo serviço, importante para o sustento do mendicante.

Uma vez lá dentro, acendemos velas em louvor a estes dois iluminados, e meditamos sobre a vida desses mestres autorrealizados, sorvendo a energia benfazeja que emanava do sacro lugar.

A caverna de Tilopa era muito baixa, não cabendo um homem de estatura média, sentado em posição de lótus, sem ser obrigado a curvar tronco, pescoço e cabeça.

Para se livrar deste molestamento, com a sua iluminada cabeça Tilopa afundou a pedra de granito do teto da caverna, para assim poder sentar confortavelmente na gruta escolhida.

A reentrância na pedra dura e bruta está lá, no formato de um chapéu, para quem quiser ver, tocar, sentar e meditar.

Tilopa e Naropa

Naropa era renomado como erudito e reconhecido como mestre nos ensinamentos dos sutras (doutrina), tantras (práticas) e vinayas (escrituras sagradas). Porém, tanta erudição o fizera orgulhoso e arrogante, e não contribuía para ele compreender realmente os ensinos.

Foi quando ouviu falar do sábio Tilopa, e recebeu um chamamento da voz interior. Porém, não sabia onde encontrá-lo. Entrou em meditação e após meditar por seis meses, as dakinis (seres divinos) disseram-lhe que deveria encontrar Tilopa no oeste do Tibet.

Ao chegar à região indicada, não tinha ideia de onde iria encontrar Tilopa. Ele perguntou às pessoas do local, mas ninguém sabia nada. Naropa insistiu:

— Não há aqui um grande yogue chamado Tilopa?

E um pescador respondeu:

— Bem, não sei nada a respeito de um grande yogue, mas há um homem chamado Tilopa, o Pária, ou o Mendigo, que mora perto do rio. É muito preguiçoso e vive apenas do que os pescadores jogam fora, como as cabeças e vísceras dos peixes.

Naropa pensou: as ações dos sidhas(mestres autorrealizados)são incompreensíveis. Deve ser ele.

Quando foi até o lugar indicado, encontrou Tilopa sentado em frente a um tonel de madeira, cheio de peixes, alguns vivos, outros mortos. Tilopa pegou um peixe, assou sobre o fogo e o colocou na boca, mastigando.

Naropa se prostrou diante dele e pediu para que o aceitasse como discípulo.

— Do que você está falando? Sou apenas um mendigo! Respondeu Tilopa.

Mas Naropa insistiu e depois de três dias foi aceito.

Naropa ainda não estava pronto para receber os ensinamentos, e assim Tilopa sujeitou-o a uma série de tarefas, a maioria das quais resultando em grande sofrimento. Uma vez, Tilopa levou Naropa ao topo de uma torre de nove andares e perguntou:

— Há alguém aqui que, para obedecer as ordens de seu mestre, possa pular lá embaixo?

Naropa pensou: “não há mais ninguém aqui, devo ser eu”. Ele pulou da torre e seu corpo se quebrou no chão, causando enorme dor e sofrimento. Tilopa desceu da torre e perguntou a ele:

— Você está sentindo dor?

— Não é apenas dor, não sou mais do que um cadáver… Suspirou Naropa.

Mas Tilopa abençoou-o e seu corpo foi completamente curado. Então, Tilopa continuou a conduzir Naropa em sua jornada.

Num outro dia, Tilopa disse:

— Naropa, estou com fome. Vá mendigar alguma comida para mim!

Então Naropa foi a um lugar onde um grande número de lavradores estava comendo. Lá, ele conseguiu encher o pote de esmoler, feito de crânio, com sopa, e então retornou ao seu mestre.

Tilopa comeu a sopa com enorme apetite e parecia ter ficado muito contente. Naropa pensou: “por todo tempo em que estive com o mestre, nunca o vi tão feliz. Talvez se eu pedir novamente, consiga mais sopa”. Ele pegou o pote de crânio vazio e voltou a mendigar, mas os lavradores já tinham voltado para os campos e deixado a sopa onde estava.

Naropa pensou: “a única coisa a fazer é roubá-la”. Ele pegou a sopa e saiu correndo, mas os lavradores o pegaram e bateram nele, deixando-o quase morto. Ele ficou tão machucado que, por vários dias, não conseguia sequer se levantar. Novamente, seu mestre chegou, curou-o e voltaram para a estrada.

Em outro dia, Tilopa disse:

— Naropa, preciso de muito dinheiro.

Então Naropa tentou assaltar um homem muito rico. Novamente foi pego e espancado à beira da morte. Depois de vários dias, Tilopa chegou e perguntou:

— Você está sentindo dor?

Ele recebeu a mesma resposta anterior, abençoou Naropa e voltaram mais uma vez à sua jornada.

Tilopa percebia que os problemas de Naropa surgiam de seu ainda poderoso apego aos conceitos eruditos, que o fizeram um professor orgulhoso e arrogante. Naropa continuou a seguir suas ordens por 12 anos, passando por 12 provas maiores e outras 12 menores, até que fosse liberado do mais debilitante de seus falsos conceitos, purificando-os através de sua intensa e inabalável fé em seu mestre.

Finalmente, Tilopa disse:

— Naropa, vá pegar água. Vou ficar aqui e fazer uma fogueira.

Quando Naropa chegou com o pote de água, Tilopa saltou da fogueira que estava fazendo e segurou a cabeça dele com a mão esquerda.

—— Mostre-me sua testa, ordenou a Naropa.

Com a mão direita, Tilopa pegou sua sandália e bateu na testa de Naropa, que caiu inconsciente. Quando Naropa voltou a si, todas as qualidades da sabedoria de seu mestre tinham surgido em sua mente. Mestre e discípulo tornaram-se um em sua realização.

Os ensinamentos de Tilopa não foram longas discussões da doutrina ou instruções detalhadas para a prática. Ele apontou para o céu vazio e disse a Naropa:

— Aqui está a sabedoria primordial da autoconsciência que transcende as palavras e inquietações mentais. Eu, Tilo, nada tenho a mostrar. Apenas compreenda, observando a autoconsciência.

Ouvindo estas palavras, o véu de maya (venda da ilusão) foi tirada dos olhos de Naropa e ele foi capaz de compreender a natureza primordialmente pura da mente e encontrou a Verdade. Havia alcançado a iluminação.

Namastê!

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.