4 de janeiro. Aniversário do Mestre-Conselheiro Luiz Mendes do Nascimento

Juarez Bomfim - Luiz MendesQuem conhece Luiz Mendes sabe que uma característica da sua personalidade é a efusividade. Imaginem quando jovem… Pois ele anunciou a recepção do seu primeiro hino aos parentes e amigos ali reunidos simplesmente cantando e pulando de alegria!

Por Juarez Duarte Bomfim

Luiz Mendes do Nascimento nasceu em 1940 e casou-se com a jovem Rizelda, filha de dona Ana de Souza e do sr. Elias Brito, dois dos mais antigos discípulos do Mestre Raimundo Irineu Serra, fundador da Doutrina do Daime, em Rio Branco – Acre.

A família de seu Elias morava nas terras sagradas do Alto Santo, ao lado do Velho Juramidã. Pelos idos de 1962, o jovem Luiz bebeu o Santo Daime e se tornou seguidor da Santa Doutrina. Foi através de sua esposa que Luiz Mendes conheceu o Mestre Ensinador, que a partir de então o instruiu e preparou para se desenvolver espiritualmente.

Foi longo o convívio e aprendizado de Luiz com o Velho Mestre. Ele conta que, certa vez, em gratidão por uma graça alcançada: “fui me aproximando e já fui me ajoelhando, tomando a benção e beijando a mão” (do Mestre Irineu), e chamando de papai.

Raimundo Irineu Serra combatia a idolatria, “não vos façais, pois, idólatras”, doença que acometia a muitos daqueles que recebiam a cura divina através do seu aparelho.

— Levante! Pode se levantar… Você pode ficar tomando a minha benção, tudo bem! Agora, de joelho, não! Beijar a mão, tudo bem — minha gente assim faz — agora, não me chame de papai. Grave isso no seu coração, no seu pensamento: me tenha essa consideração, mas me chame mesmo é de Padrinho.

Luiz Mendes completa: “foi quando ele me explicou a história entre padrinho e pai. Padrinho é uma palavra disfarçada, mas que quer dizer ao mesmo tempo pai. A partir daí, é meu padrinho até hoje.”

Assim foi se dando o aprendizado espiritual e religioso de Luiz Mendes, para hoje, com todo merecimento ser chamado de Mestre-Conselheiro.

A Doutrina do Daime foi entregue ao Mestre Irineu pela Virgem da Conceição, a Rainha da Floresta, através dos hinos, que são revelações sagradas dos mistérios divinos. O hinário tronco da Doutrina é “O Cruzeiro” do Mestre Ensinador, e muitos dos seus discípulos também passaram a receber hinos, enviados lá do mundo espiritual.

De início, Luiz era incrédulo quanto a origem dessas mensagens cantadas. Ele era um daqueles que se enquadram nos dizeres de um conhecido hino de dona Maria Damiao: “passa o tempo a procurar / e a maior parte a duvidar”… pois Luiz, ainda não suficientemente firmado, desconfiava da veracidade dos cânticos “recebidos” pelos membros da irmandade. Pensava consigo: “Isso são palavras bonitas que o pessoal mesmo cria”.

Todavia, em 1965, seu terceiro ano na Doutrina e com a idade de 25 anos, ele recebe o primeiro hino do seu hinário que então se inicia, numa “miracao esplendorosa” — diz.

Foi assim: Luiz tomou um Daime na casa de sua sogra e, quando a miração chegou, ele teve uma visão muito bonita. Dessa visão nascia “um fio” à sua procura, seguido das palavras. Ele compreendeu que “as palavras eram as letras que compunham o hino, e o ‘fio’ era a melodia, pois o fio dava a mesma ‘quebrinha’ da música” (depoimento a Florestan Neto).

Quem conhece Luiz Mendes sabe que uma característica da sua personalidade é a efusividade. Imaginem quando jovem… Pois ele anunciou a recepção do hino aos parentes e amigos ali reunidos simplesmente cantando e pulando de alegria!

O Rei me mandou

Para eu cantar assim

Para eu bem aprender

E amar a Mãe Divina

(hino 01 d’O Centenário)

Dava-se início naquele momento a um importante legado de Luiz Mendes para a Doutrina do Santo Daime: os seus dois hinários, O Centenário e o Novo Horizonte, este ainda aberto, isto é, aberto ao acréscimo de novos hinos que vão chegando.

O Mestre Irineu, ainda em vida de matéria, “passava a limpo” os hinos recebidos pelos seus discípulos. Quer dizer, confirmava (ou não) se a mensagem recebida era da sua linha doutrinária e a veracidade das revelações ali contidas. Certo dia, quando Luiz se aproxima para pedir a benção ao Padrinho Irineu e apresentar um hino para Ele “passar a limpo”, o Mestre, manifestando os seus dons de clarividência, se antecipa e pergunta:

— E aí, trouxe o presente?

Só restou a Luiz cantar o novo hino e entregar o “presente” ao Padrinho, que era o próprio hino, o 14 – Eu te dou um presente:

Eu te dou um presente

De bom coração

Firmeza, firmeza

Em concentração.

Por sua inteligência e dotes oratórios, o jovem Luiz se tornou orador oficial do Alto Santo, designado pelo próprio Mestre Imperador. Passou também a fazer parte do círculo íntimo de amigos do Mestre Irineu, que se reuniam para estudar e fazer as leituras bíblicas e esotéricas.

Foi na condição de orador do CICLU – Centro de Iluminação Cristã Luz Universal Alto Santo – que Luiz viveu a sua mais difícil tarefa naquele ofício, quando foi convocado a discursar sobre o cadáver do Velho Mestre, que seria entregue à terra fria. Corria a tarde de 6 de julho de 1971.

Quando se prepara para usar da palavra, em homenagem ao irmão que alegre partiu para os planos celestiais, sob forte emoção e crispado pela dor da perda de seu Querido Padrinho, Luiz sucumbe logo nas primeiras frases. Tomba sobre o corpo morto do Velho Mestre, como se quisesse ir junto…

Mas a Voz de Deus sussurrou ao seu ouvido:

— Calma Luiz! Sua hora não é chegada. O seu Mestre tem uma linda Missão para você: doutrinar o mundo inteiro.

Desde então, Luiz Mendes do Nascimento vem cumprido essa missão com maestria. Explande a Doutrina do Santo Daime por todos os rincões do mundo Terra. Seja em terras estrangeiras, como embaixador do Rei Juramidã, ou aqui mesmo, no território brasileiro.

A sua trajetória na Doutrina do Santo Daime é de significativas realizações. Do CICLU – Alto Santo licenciou-se para ajudar o sr. Sebastião Mota de Melo (Padrinho Sebastião) a hastear sua bandeira na Colônia 5 Mil e fundar o Cefluris (1974). De volta ao CICLU – Alto Santo, quando Francisco Fernando Filho (Tetéu) assume a presidência é nomeado Comandante Geral do Salão.

Tetéu funda a dissidência CICLU (atual CRF – Centro Rainha da Floresta) em 1981 e Luiz o acompanha. Assume a presidência da instituição quando do passamento do querido Assessor (Tetéu). Em 1992, junto com o seu filho Saturnino Brito, Luiz Mendes preside as comemorações da memorável festa do Centenário do Mestre Irineu.

Logo depois, Luiz Mendes contribui para a fundação do Cicluris (1994), ao lado do Sr. Ladislau Nogueira (presidente) e Tufi Rachid Amim (vice-presidente). É então designado Mestre-Conselheiro.

Quando Ladi e Tufi fundam o Ciclujur (1998), é a vez de Luiz Mendes adentrar a floresta e erigir a sua Fortaleza: o Centro Eclético Flor de Lótus Iluminado (CEFLI), comunidade daimista que realiza anualmente o Encontro para o Novo Horizonte, num seringal da Floresta Amazônica, município de Capixaba – Acre.

O Encontro para o Novo Horizonte

Ponto alto deste Encontro anual ocorre na noite de 3 de janeiro, quando são cantados e bailados hinários em homenagem ao aniversário do Mestre-Conselheiro Luiz Mendes do Nascimento. Ali, no coração da floresta amazônica, às margens do rio Xipamano, fronteira com a densa mata boliviana, com toda pompa e vigor executa-se o hino ‘A Força’, de Tufi Rachid Amim:

A força chegou

O mar balanceou

A terra estremeceu

Deus do céu foi quem mandou.

Quando isso acontece, já na madrugada do dia seguinte, o lugar como que transcende… e aqueles que têm o privilégio e a oportunidade de estar presente naquela hora e lugar, sobem na força do cântico a um lindo salão dourado e, lá, na luz do Santo Daime, este mítico templo resplandecente é inundado por um ‘tsunami’ de amor que invade todos os corações.

A Comunidade Fortaleza

Quando se aposentou do ofício de professor, Luiz Mendes realizou um antigo sonho: tornar-se jardineiro e campineiro nesta reserva extrativista acreana. Ele sente o maior prazer de arar a terra, plantar e colher.

Quando periodicamente visitamos o velho amigo lá na sua colonha da Capixaba (Acre), muitas vezes somos obrigados a sair a procurar o Padrinho Luiz pelo meio da mata onde ele se encontra colhendo palmito, consertando uma cerca caída ou batendo o feijão recentemente colhido. È dessa vida que ele gosta.

Na boca da mata, próximo a um lindo açude florestal, Luiz Mendes ergueu a sede de serviços dos trabalhos espirituais com o Santo Daime (CEFLI) e, junto com sua linda e obreira família recebe todos que chegar.

Estrela Dalva vós me dá…

O Padrinho Luiz Mendes é um ótimo contador de causos e, dele, certo dia ouvi essa história, que aqui resumirei:

Numa noite de Concentração, Mestre Raimundo Irineu Serra Juramidã olhou para o horizonte e, ali, avistou brilhante a Estrela Dalva. Rogou à sua Mãe, a Virgem da Conceição, Rainha da Floresta:

— Minha Mãe, me leve naquela Estrela.

Ele foi prontamente atendido. Chegando lá, encontra um lindo Palácio, feito de cristal, ouro e prata e brilhantes pedras finas. Passeou por seus amplos salões, tocou em suas paredes para testificar a sua existência… E notou que não havia nenhum habitante naquele lindo palácio.

Mestre Irineu perguntou à sua Mãe, a Virgem da Conceição, Rainha da Floresta:

— Minha Mãe, porque um palácio tão bonito, 5ao esplendoroso, não tem um morador sequer?

E Ela lhe respondeu:

— Meu filho, aqui nos céus existem outros palácios iguais a este, vazios, esperando alguém que seja merecedor de neles habitar.

O Mestre voltou à Terra e comunicou a seu amigo, Germano Guilherme:

— Maninho, eu fui na Estrela Dalva. E mais não disse.

Na Concentração seguinte, desejoso de conhecer os primores celestiais, seu Germano pede à Mãe das Mães que o leve lá também, na Estrela Dalva. Germano é atendido e vê tudo o que seu amigo e mestre visitou.

Ao retornar à Terra, lhe fala:

— Maninho, eu fui na Estrela Dalva também!

— Foi maninho? E o quê que tu viu lá?

Germano foi dizendo e o Padrinho Irineu testificando, confirmando. Inclusive que aquele lindo palácio todo de cristal, ouro e prata e brilhantes pedras finas, não tinha um habitante sequer.

Não tinha! Pois tenho a certeza que naquele lindo Palácio de Cristal, ouro e prata e brilhantes pedras finas o Rei Juramidã foi habitar, e lá das alturas onde está, governa todo o seu Império sentado num trono celestial.

E desejo, do fundo do meu coração, que o irmão e amigo Luiz Mendes do Nascimento, quando deste mundo se ausentar, pela sua grandeza, por sua nobreza e delicadeza seja digno e merecedor de habitar também em um lindo Palácio de Cristal, ouro e prata e brilhantes pedras finas.

Assim seja!

 

Link para o discurso de Homenagem ao Mestre-Conselheiro Luiz Mendes do Nascimento proferido por Juarez Duarte Bomfim, em Assis-Itália:

https://www.youtube.com/watch?v=TgxXvyvgZk4&feature=youtu.be&list=UUHlqLxFAJ2vI4zClA7SHAHA

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.