Visita à casa de um iluminado, em Varanasi, Índia

Juarez Ciça LahiriO quarto estava envolto em luz deslumbrante. Lahiri Mahashaya, na posição de lótus, levitava no centro do quarto, circundado por anjos. Em atitude de dignidade suplicante, com as palmas unidas, eles o adoravam.

Passeando pelas ruas, becos e ghats de Varanasi, na Índia, pisamos o mesmo abençoado solo que, ao longo de séculos, grandes yogues, santos e iluminados também pisaram.

Varanasi é a mais sagrada das cidades sagradas da Índia. Nos cinco mil templos e em seus ghats (escadarias de acesso ao Rio Ganges) são realizadas as devoções ao Deus Shiva e à Mãe Divina, ali manifestada no elemento água — gerador de vida, dádiva da vida.

A Cidade de Varanasi — também chamada de Benares e Kashi — é referência mundial para os buscadores de diversas linhagens espirituais. Entre tantos, esta venerável urbe pode ser lembrada como cenário especial da vida dos mestres iluminados da Self-Realization Fellowship, organização fundada por Paramahansa Yogananda, mestre da Kriya Yoga, um dos principais responsáveis pela difusão da espiritualidade da Índia aqui no Ocidente.

Quando eu e minha consorte, a muito amada Cecília, peregrinávamos por aquela sacra cidade, entramos em contato com os registros e a memória das edificantes histórias narradas por Yogananda no célebre ‘Autobiografia de um Yogue’ — livro transformador de vidas.

A começar por um simpático devoto de Larihi Mahashaya, que se chamava Santo, e sua simpática família, que nos narrou prodigiosos feitos do seu mestre e de outros yogues que cumpriram a sua missão ali na Cidade de Shiva.

O Jovem senhor de nome Santo era proprietário de um modesto bar-restaurante onde fazíamos nossa parca refeição matinal. Percebi que a vida simples e ordinária do sr. Santo  adquiria um sentido existencial maior através da religiosidade por ele praticada, e o dignificava.

Ao perguntarmos pelo insólito do seu nome, Santo, ele respondeu que é palavra derivada de sanscrito, tronco linguístico de grande parte dos idiomas indo-europeus, incluindo a inculta e bela flor do Lácio, que migrou para a Pindorama.

Bem… foi ali em Varanasi que vivemos uma experiência mística de inenarrável grandeza, que ficará para sempre nos nossos corações e mentes, agradecidos e emocionados: visita à casa onde Láhiri Mahashaya se iluminou.

Quem foi Lahiri Mahashaya

Esse respeitável santo viveu aqui na Terra como um homem comum, modesto funcionário público do governo colonial inglês. Como yogue-chefe-de-família, Lahiri foi um exemplo de aspirante espiritual adaptado às condições e necessidades do mundo moderno, integrado à vida mundana.

Ele não encorajou nos seus discípulos o velho ideal do yogue como asceta errante carregando a sua escudela de mendigo. Preferiu salientar as vantagens que teria o yogue em ganhar o seu próprio sustento, não dependendo de uma sociedade competitiva para a sua sobrevivência, e praticar yoga no recesso de seu lar.

A este conselho, Lahiri acrescentou a força alentadora de seu próprio exemplo.  Seu modo de vida tinha o objetivo de servir de guia aos aspirantes à yoga em todas as regiões do mundo.

Assim, não foi apenas um mestre aos olhos de Deus, mas também um homem de sucesso neste mundo, no diminuto drama humano, onde desempenhou humilde papel como funcionário de repartição pública: era contador no Departamento de Engenharia Militar do governo colonial inglês.

Após a morte do pai, o jovem Lahiri assumiu inteira responsabilidade por todos os membros de sua família. Comprou-lhes uma casa em subúrbio afastado de Varanasi, em Garadéswar Mohulla. Foi nesta casa que residiu e se iluminou.

Na condição de mestre espiritual, Lahiri Mahashaya não fazia distinção de credo ou casta: conferia a iniciação em Kriya yoga a devotos não apenas hindus, mas também a maometanos e cristãos, que eram incluídos entre seus mais preeminentes discípulos.

Lahiri Mahashaya pertencia à casta mais elevada, a dos brâmanes, porém, com muita coragem para a sua época, esforçou-se em diluir o rígido fanatismo de castas, trazendo esperança aos párias e oprimidos.

Em 1886 aposentou-se do serviço público, tendo então mais tempo disponível aos discípulos que o procuravam em número sempre crescente. O grande guru sentava-se em silêncio, em tranquila posição de lótus. Raramente deixava sua pequena sala de recepção, nem para dar uma caminhada ou mesmo fazer uma visita a outros aposentos da casa. Um quieto fluxo de chelas (discípulos) passava, quase incessantemente, para o darshan (benção) do guru.

Foi ali, naquele modesto sobrado, que o grande yogue se iluminou. A vibração cósmica deste lugar santo faz com que, em visita ao espaço sagrado, possamos sentir a sublime energia balsâmica emanada, em conexão com o Divino.

Sabedores daqueles acontecimentos numa modesta residência da populosa cidade, pedimos ao nosso guia turístico, Lav kumar, para visitá-la. O solícito Lav observou que geralmente eram turistas brasileiros que demonstravam este desejo. E para lá nos dirigimos.

A iluminação de Lahiri Mahashaya

Elevados e emocionados visitamos o sacro lugar desses feitos, a iluminação do paramguru de Yoganada. A casa, de fato, só é aberta a visitação uma vez ao ano, no Guru Purnima (Dia do Guru). Os devotos e visitantes fazem as suas reverências e devoções no batente da porta e num modesto templo bem em frente, onde sempre estão dois pressurosos guardiões a zelar o venerando espaço.

A senhora Káshi Moni era esposa de Lahiri, e foi a testemunha do magnânimo momento. Ela conta:

“Muitos anos decorreram antes que eu percebesse a estatura divina de meu esposo… Certa noite, no nosso quarto de dormir, tive um vívido sonho. Anjos gloriosos flutuavam com graça inimaginável acima de mim. Tão realista era a visão que despertei naquele instante. Estranhamente, o quarto estava envolto em luz deslumbrante. Meu marido, na posição de lótus, levitava no centro do quarto, circundado por anjos. Em atitude de dignidade suplicante, com as palmas unidas, eles o adoravam. Desmedidamente surpresa, acreditei ainda estar sonhando”.

— Mulher — disse Lahiri Mahashaya — você̂ não está sonhando. Renuncie a seu eterno sono.

Enquanto ele desce lentamente para o chão, Kashi Moni se prostra a seus pés, e exclama:

— Mestre, curvo-me à sua frente, repetidas vezes! Pode perdoar-me tê-lo considerado meu esposo? Morro de vergonha ao compreender que permaneci adormecida em minha ignorância, ao lado de quem está divinamente desperto. Desta noite em diante, já́ não o considero meu esposo e, sim, meu guru. Aceita minha insignificante pessoa como sua discípula?

O mestre tocou-lhe com delicadeza, e disse:

— Alma sagrada, levante-se. Está aceita.

Ele apontou para os anjos:

— Reverencie, por favor, cada um destes grandes santos.

Sua devotada esposa-discípula prossegue:

“Quando terminei minhas humildes genuflexões, as vozes angelicais entoaram, uníssonas, maviosa canção”.

— Consorte da Divindade única, bendita és tu. Recebe a nossa saudação.

O cortejo de anjos se curvou a seus pés e suas formas refulgentes, oh, desvaneceram-se. O quarto escureceu.

O mestre então perguntou~lhe se queria receber a iniciação em Kriya Yoga.

— Certamente. Lamento não ter recebido essa benção mais cedo em minha vida.

— Você̂ não estava amadurecida. Ajudei-a, em silêncio, a esgotar muito de seu carma. Agora você̂ tem vontade e está preparada, disse Lahiri.

O mestre tocou-lhe a testa, vertiginosas massas de luz apareceram; gradualmente a radiação se transformou num olho espiritual, azul opalino, circundado por um anel cor de ouro, e tendo ao centro uma estrela branca pentagonal.

— Introduza sua consciência através da estrela, no reino do Infinito.

A suave voz do seu guru vibrava num timbre novo, até então desconhecida. Era doce música. E continua:

“Uma após outra, as visões se desfaziam como espumas oceânicas nas praias de minha alma. Por fim, as esferas panorâmicas fundiram-se num mar de beatitude. Perdi-me em bem-aventurança sempre renovada”.

Daquela noite em diante, Láhiri Mahásaya nunca mais dormiu em seu quarto onde levara vida marital. Permaneceu na sala da frente, no andar térreo, em companhia de seus discípulos, tanto de dia quanto de noite, sem jamais voltar a dormir.

Jay Guru Jay!

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.