Um yogue sergipano meditando nas cavernas do Himalaia

Juarez Cecilia HimalaiaRogo aos aventureiros viajantes no Himalaia que, se encontrarem o simpático e terno George Carvalho, dele se aproximem e entabulem uma conversa. Se não estiver em voto de silêncio, o enigmático sergipano-tibetano os responderá.

No místico e mágico país dos budas — Nepal — ouvi falar mais uma vez de um popular santo tibetano, que em vida de matéria peregrinou também pelo solo nepalês. Os feitos, milagres e prodígios por Ele produzidos surpreendem a todos e, obviamente, gera incredulidade nos céticos, aqueles que não têm olhos para ver e não têm ouvidos para ouvir.

Estou me referindo a Milarepa, grande yogue tibetano que atingiu o Budado, isto é, se iluminou em apenas uma existência, apesar de tudo. Digo ‘apesar de tudo’ porque na juventude Mila colecionou grandes e graves pecados, que resultou em acúmulo de mal karma — atos negativos e prejudiciais ao próximo e a si mesmo.

Após sincero arrependimento pelas suas más ações, Ele trilhou o caminho da retidão e do perdão, se tornando um exemplo para toda a humanidade de alguém que conquistou a emancipação numa única existência.

A vinda de Milarepa aqui na Terra, em plena kali-yuga (Era das trevas) foi profetizada por um outro grande santo. Conta-se que Naropa, juntando as mãos numa prece, cantou o seguinte hino:

“Nas sombrias regiões do Norte

Como o Sol que ilumina os picos das montanhas

Reside aquele que se chama Thopaga (Milarepa);

(Rendam) obediência a esse Grande Ser”.

Então Naropa fechou os olhos reverentemente e inclinou três vezes a cabeça na direção do Tibet, e todos os picos das montanhas indianas e todas as árvores também se inclinaram três vezes na direção do Tibet.

Até os dias de hoje os picos das montanhas e as copas das árvores em torno de Phulahari (Índia) se inclinam para o Tibet. É a explicação mítica para os fenômenos naturais da região de Phulahari: a inclinação das montanhas e a obliquidade das árvores, causadas pela direção dos ventos principais, afirmam os cientistas.

Na peregrinação espiritual que fizemos ao Nepal — antes do devastador terremoto de abril de 2015 — eu e minha consorte, a muito amada Cecília, visitamos a Cidade de Pokhara, situada aos pés da Cordilheira do Himalaia. É de lá que partem os aventureiros para encararem os grandes picos gelados, principalmente o legendário Monte Everest, teto do mundo.

Pokhara é uma pitoresca cidadezinha espraiada pelas margens do Phewa Tal, o Lago Tal, e tem como pano de fundo as montanhas de mais de 8 mil metros de altitude do vizinho maciço Anapurna.

Ali, na base e subida do Himalaia, encontram-se as grutas e cavernas onde, ao longo de milênios, aspirantes espirituais se retiram em práticas meditativas, em busca da paz e bem-aventurança. Aquele gelado solo sagrado conserva as marcas dos pés de homens santos, sábios (rishis) e ascetas (sadhus). Até hoje é procurado por monges, lamas e estudantes hinduístas, budistas e de outras tradições.

Por orientação do seu amado Guru — Marpa, o Tradutor — Milarepa renunciou a qualquer bem material e viveu longos e solitários anos em devoção, meditando nestas cavernas, suportava a fome, o frio e a solidão. Se alimentava de sopa de urtiga, uma espécie que brota espontaneamente nos arredores daquelas grutas.

Esta parca e frugal alimentação deu uma tonalidade verde à sua pele, e aquele asceta esquelético, desnudo, de pelos esverdeados, era confundido com um ser fantasmagórico e assustador chamado bhuta. pelos caçadores que esporadicamente o encontravam.

Como falamos, ainda na atualidade são concorridas e pacificamente disputadas as cavernas nas quais meditou o grande yogue Milarepa, para as práticas religiosas que duram semanas, meses ou anos. Nosso anfitrião e cicerone nesta instrutiva perambulação, o amigo George Carvalho, sergipano-tibetano de religiosidade budista, costuma refugiar-se em tais grutas para os seus exercícios espirituais.

George Carvalho migrou para o Nepal já há vários anos e lá se pós-graduou em budismo-tibetano e línguas orientais, nos mosteiros-escolas do bairro de Boudhanath, no Vale de Kathmandu. Boudha (diminutivo), significa ‘bairro dos budistas’ e ali reside um grande contingente de tibetanos, vítimas da diáspora provocada pela violenta ocupação chinesa do seu torrão natal.

Boudha é a pátria espiritual de George carvalho. Quando para lá retornou após o grande terremoto que derrubou total ou parcialmente 2/3 das edificações do Vale de Kathmandu, ele percebeu que seu modesto apartamento alugado estava incólume. Decidiu permanecer naquele semidestruído país.

— Voltar para onde? Perguntou ele, identificado ao lugar.

Nas suas práticas espirituais, George já viveu solitariamente nestas cavernas da fronteira entre Nepal e Tibet várias semanas e meses. Nestes longos períodos ele fica incomunicável e perdemos totalmente o seu contato.

Lembro que George estava se preparando para um retiro que duraria um ano inteiro e, quando se deparava com os pés de urtiga das quais se alimentava Milarepa, olhava com veneração, as colhia e levava à boca, reverentemente. Desconfio que este longo retiro já começou…

Rogo aos aventureiros viajantes no Himalaia que, se o encontrarem, não o confundam com um bhuta. Dele se aproximem e entabulem uma conversa. Se não estiver em voto de silêncio, o enigmático sergipano-tibetano os responderá.

Vocês conhecerão um simpático e terno rapaz que optou pelo estudo disciplinado, pela devoção, meditação e sacrifício em benefício e preparação de seu espírito, seguindo a senda aberta por aquele que atingiu a iluminação: Jetsun Milarepa (1.052 – 1.135, aproximadamente).

“Quem meditar nessas cavernas encontrará em abundância todos os requisitos da vida (isto é, lenha, água, raízes e ervas) e será́ inspirado pela graça dos Mestres anteriores da Sucessão Apostólica. Portanto, procurai-as, para nelas meditar” (Milarepa).

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.