Editorial: O Golpe de Estado na pseudo ‘Ordem Democrática’ – a atuação do vice-presidente Michel Temer e a carta da conspiração com a finalidade de destituir a presidente Dilma Rousseff

Capa do Estadão – Temer ignora apelo de Dilma e tenta unir PMDB em torno do impeachment.

Capa do Estadão – Temer ignora apelo de Dilma e tenta unir PMDB em torno do impeachment.

Capa da revista Veja - A terrível máquina de retrocesso econômico de Dilma Rousseff.

Capa da revista Veja – A terrível máquina de retrocesso econômico de Dilma Rousseff.

A revista IstoÉ dedicou a edição completa a um discurso favorável ao processo de impecheament: Que País teremos? – Sob Dilma, revelam os indicadores, os próximos três anos tendem a ser de crise econômica e desarticulação política. A mudança de rumo é o caminho mais curto para a retomada da prosperidade.

A revista IstoÉ dedicou a edição completa a um discurso favorável ao processo de impecheament: Que País teremos? – Sob Dilma, revelam os indicadores, os próximos três anos tendem a ser de crise econômica e desarticulação política. A mudança de rumo é o caminho mais curto para a retomada da prosperidade.

A revista IstoÉ dedicou a edição completa a um discurso favorável ao processo de impecheament: O desembarque - Sob o comando de Michel Temer e com um programa de governo estruturado, o PMDB pode retomar o protagonismo exercido nos tempos de Ulysses Guimarães.

A revista IstoÉ dedicou a edição completa a um discurso favorável ao processo de impecheament: O desembarque – Sob o comando de Michel Temer e com um programa de governo estruturado, o PMDB pode retomar o protagonismo exercido nos tempos de Ulysses Guimarães.

A revista IstoÉ dedicou a edição completa a um discurso favorável ao processo de impecheament: A tropa do atraso que atrapalha o Brasil – Movidos por interesses particulares, Leonardo Picciani, Renan Calheiros e Luiz Fernando Pezão integram a ala do PMDB que quer manter o partido a reboque do Planalto.

A revista IstoÉ dedicou a edição completa a um discurso favorável ao processo de impecheament: A tropa do atraso que atrapalha o Brasil – Movidos por interesses particulares, Leonardo Picciani, Renan Calheiros e Luiz Fernando Pezão integram a ala do PMDB que quer manter o partido a reboque do Planalto.

Capa da revista Época: ‘O xadrez de Temer: o vice deixa de ser decorativo, empareda Dilma publicamente e busca apoio para assumir a presidência da República’.

Capa da revista Época: ‘O xadrez de Temer: o vice deixa de ser decorativo, empareda Dilma publicamente e busca apoio para assumir a presidência da República’.

Está em curso no país uma tentativa explicita de golpe, os conspiradores tentam usar pseudos instrumentos legais com a finalidade de dar uma falsa aparência de legalidade ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Esse editorial objetiva apresentar e analisar alguns aspectos da coalizão de forças econômicas, políticas e sociais cuja finalidade é a tomada do poder através da subversão do sufrágio, com a subsequente ruptura da vontade popular.

O editorial infere que os elementos do Golpe de Estado estão em curso a partir de uma pseudo ‘Ordem Democrática’. Eles foram instalados muito antes da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) ocorrida no dia 2 de dezembro de 2015, e é decorrente da conjunção de elementos econômicos, políticos, sociais e da ideologia conservadora.

Crise do petróleo

Um dos elementos que contribuem para que se desenvolva um ambiente socioeconômico favorável é a formação da ‘tempestade perfeita’. Um conceito sociológico que indica a conjunção de fatores para derrubada ou mudanças de governo. No epicentro da tempestade perfeita desenvolvesse uma crise global decorrente da mudança da cotação internacional do petróleo. Dados do Banco Mundial indicam que o barril do petróleo tipo Brent custava em agosto de 2014 – US$ 101,92; em agosto de 2015 – US$ 46,99; e 7 de dezembro de 2015 – US$ 46,69.

Publicada em 11 de dezembro de 2015 pelo Wall Street Journal, a matéria ‘Petróleo abaixo de US$ 40 agrava situação de países produtores’ informa que países “membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), como a Nigéria, têm obtido preços até menores por seu produto: uma média em torno de US$ 35,30”.

A substantiva queda de valor do barril de petróleo provoca um desajuste global na economia, afetado em diferentes níveis a dinâmica socioeconômica dos países produtores e importadores de petróleo. A brusca mudança de valor provoca, também, desajustes em planos de investimento das maiores companhias globais, a exemplo da Petrobras. Essas mudanças afetam a dinâmica macroeconômica interna do Brasil.

Desmobilização de forças produtivas

Ampliando o quadro de crise econômica decorrente da brusca queda do preço do barril de petróleo, em 17 de março de 2014 foi deflagrada a Operação Lava Jato. A operação envolveu o Ministério Público Federal (MPF), a Polícia Federal (PF), e a atuação do juiz Sérgio Moro, magistrado responsável pelo julgamento dos processos decorrentes da operação.

O que parecia ser um esquema de menor dimensão de lavagem de dinheiro, se transformou no caso Lava Jato afetou funcionário de empresas públicas, servidores federais, executivos, empresas, representantes de partidos, e políticos com e sem mandato. No âmbito da Lava Jato, algumas das principais construtoras do país, a exemplo da Odebrecht, UTC, OAS, Queiroz Galvão, dentre outras foram afetadas em decorrência de prisões dos executivos, devolução de recursos, e pagamento de elevadas multas para executivos, através de acordos de delações ou de simples condenações, e para as empresas, através de acordos de leniência.

Com o aprofundamento das investigações e condenações no âmbito da Lava Jato – em 26 de novembro de 2015 ocorreu a 21ª fase da Operação Lava Jato – as construtoras passaram por dificuldade financeira, redução da capacidade de endividamento e dificuldade na celebração de contratos com o Estado. Pela projeção econômica das empresas, e pela dimensão do caso Lava Jato, e envolvimento dos atores em um dos maiores escândalos de corrupção do mundo, a dinâmica do PIB nacional foi afetada negativamente. Segundo relatório da Consultoria GO Associados, divulgado em agosto de 2015, o caso Lava Jato provocou a retração do PIB em 2,5%, retirando R$ 142.6 bilhões da economia nacional. Os dados não são precisos, mas é um parâmetro para mensurar como a crise é agravada pela desmobilização de forças produtivas decorrentes do envolvimento com o caso.

Congresso conservador

Outro elemento que contribui para a tomada de poder pelos conservadores, no contexto de uma pseudo ordem democrática, é o modelo de governo coalizão, baseado na sustentação da governabilidade no âmbito do Congresso Nacional, com apoio de parlamentares filiados a uma diversidade de partidos. Esse modelo evoluiu para um ponto de exaustão. Observa-se que em 1ª de dezembro de 2015 o Tribunal Superior Eleitoral informava que existiam 35 partidos políticos com registro ativo no país, destes, 29 partidos têm representatividade no Congresso Nacional. O ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso afirmou que como esse modelo político/partidário é impossível governar o país.

O atual Congresso Nacional é resultado do avanço eleitoral, em 2014, das forças conservadoras. Observa-se que numericamente os deputados da aliança governista liderada pela presidente Dilma Rousseff formam ampla maioria. Mas, observa-se, também, que a identidade ideológica de vários deputados da base governista pouco ou nada tem em comum com o programa de governo de centro-esquerda que está em curso no país, desde a posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 1ª de janeiro de 2003.

União pelo golpe

Afetada pela dinâmica socioeconômica do país, classificada como crise fiscal, o governo Rousseff contou, desde as primeiras votações no início de 2015, com uma base eleitoral inconsistente, e uma oposição liderada pelo presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), com o apoio velado do vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB/SP). A união dos dois atores políticos foi classificada pelo ex-ministro Ciro Gomes (PDT) como uma sociedade cuja finalidade é a formação de uma conspiração política e econômica pela tomada do poder.

Observa-se que a presidente Dilma Rousseff, em uma tentativa de aprovar reformas econômicas necessárias a superação da crise fiscal, concedeu, em 7 de abril de 2014 (a publicação no DOU ocorreu no dia 10) poder a Michel Temer, nomeando-o articulador político do governo. Parte da dificuldade de relacionamento do Planalto com o Congresso Nacional era decorrente do posicionamento de parlamentares do PMDB contrários ao governo. Parlamentares liderados pela dupla Eduardo Cunha/Michel Temer.

Em 5 de agosto de 2015, Michel Temer convida jornalistas ao gabinete e declara:

– É preciso que alguém tenha capacidade de reunificar a todos, de reunir a todos, de fazer este apelo, e eu estou tomando a liberdade de fazer este pedido, porque, caso contrário, nós podemos entrar numa crise desagradável para o país.

Nesse momento, o presidente nacional do PMDB e vice-presidente da República tornava explicita a oposição a presidente Dilma Rousseff e se posicionava como um personagem capaz de retirar o país da crise na qual se encontrava. Crise agravada pela falta de apoio do “sócio”, Eduardo Cunha, e dos liderados de Michel Temer, notadamente, no PMDB. A conspiração pelo golpe tomava caráter oficial.

Em 11 de setembro de 2015, lideranças dos capitalistas das Federações das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Rio de Janeiro (Firjan) afirmam que governo abriu mão de governar, declarando:

– O País repudia com ênfase novos aumentos de impostos. Esta é a receita fácil de sempre, mas a sociedade não aguenta mais pagar a conta da incompetência do Estado. – Declaram em nota os capitalistas. Ao analisar a declaração, observa-se como os capitalistas assumiu a voz da nação, de todo o povo brasileiro, como se eles representassem o povo, ao invés dos interesses da classe burguesa. Observa-se, também, que aos apelos do PMDB de Cunha e Temer, juntava-se a voz crítica dos conservadores do capitalismo nacional.

Uma ideologia para embalar o golpe

Em 24 de setembro de 2015, um vídeo institucional é veiculado pelo PMDB. Como título ‘É hora de reunificar os sonhos!’, o PMDB apresentou programa partidário com a finalidade de demonstrar a união de partidários em uma possível saída para crise, sob a liderança do próprio PMDB. Os golpistas tentavam introjetar no subconsciente coletivo a ideia de alternativa de poder. Em uma das frases do programa, era repetida a fala de Temer aos jornalistas: “é preciso alguém para reunificar o País”.

Percebendo que uma conjunção de nefastos interesses se aglutinava com a finalidade de apeala do poder, em 2 de outubro de 2015, a presidente Dilma Rousseff promove ampla reforma ministerial, negociando diretamente com a bancada do PMDB, que não era liderada da dupla Cunha/Temer, nomes para ocupar o governo. O governo procedeu mudanças em 10 ministérios, inclusive na Casa Civil com nomeação do petista Jaques Wagner, político qualificado com boa interlocução junto ao Congresso.

Por algum tempo o governo passou a ter maior estabilidade nas votações no Congresso Nacional. Mas, em 29 de outubro de 2015, A Fundação Ulysses Guimarães, pertencente ao PMDB, enviou um documento aos correligionários denominado ‘Uma ponte para o futuro’. O texto apresenta diagnóstico da economia do país, afirmando que a “profunda recessão”, começou em 2014 e “deve continuar em 2016”. “Dadas as condições em que estamos vivendo, tudo parece se encaminhar para um longo período de estagnação, ou mesmo queda da renda per capita”.

O programa partidário criado por Moreira Franco, ex-ministro de Rousseff e aliado de Temer, é um documento que objetiva propor a retomada do crescimento da economia brasileira; apresenta dura critica aos “excessos” cometidos pelo governo federal nos últimos anos, excessos que ocasionaram um “desajuste fiscal” que chegou a um “ponto crítico”; além de propor uma “unificação nacional”, sob a liderança peemedebista.

Observa-se que ao analisar o documento ‘‘Uma ponte para o futuro’, conclui-se que ele objetiva reafirmar o PMDB, sob a liderança de Michel Temer, como alternativa ao governo petista da presidente Rousseff. Observa-se, também, que ‘Uma ponte para o futuro’ é um documento ideologicamente construído com a finalidade de criar um consentimento em torno de um projeto alternativo de poder. Poder que seria alcançado a partir de um pseudo ordem democrática, com uso de falsos argumentos jurídico/políticos no contexto de um processo de impeachment.

O PMDB na Lava Jato

Depois de atingir “estrelas” do petismo, o caso Lava Jato alcança o núcleo do poder do PMDB, Renan Calheiros, Eduardo Cunha e o próprio Michel Temer eram nomes citados em reportagens que indicavam o envolvimento em possíveis esquemas de corrupção revelados por delatores, nos quais os atores políticos eram protagonistas.

O triunvirato do PMDB, formada por Cunha, Renan e Temer estava sendo dissolvida pelo caso Lava Jato. Acusado por delatores de ter recebido recurso financeiros em contas de bancos suíços, recursos oriundos de esquema de corrupção na Petrobras, em 12 de março de 2015, em depoimento à CPI, Eduardo Cunha declarou que não possuía nenhuma conta bancária no exterior.

Reportagem divulgada pela Globo News, em 16 outubro de 2015, apresentava cópias de documentos – passaporte, com a assinatura e dados pessoais de Eduardo Cunha – confirmando a existência de contas bancárias do deputado, da esposa e da filha deles em contas na Suíça, cuja origem dos recursos era decorrente de esquemas de corrupção na Petrobras. Os documentos foram enviados pelas autoridades da Suíça à Procuradoria-Geral da República (PGR), e fazem parte de processos judiciais que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o deputado.

Em 3 de novembro de 2015 o Conselho de Ética da Câmara Federal instaurava processo contra Eduardo Cunha por quebra de decoro parlamentar. O argumento para instalação do processo era de que o deputado mentiu à nação e aos pares durante depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), com a finalidade de ocultar a participação no esquema de desvio de recursos na Petrobras, revelados pelo caso Lava Jato.

Ambivalência

De forma ambivalente, os governos Lula e Rousseff foram singulares em corrupção e no combate. Ao mesmo tempo em que operações da Polícia Federal em parceria com o MPF, e a Receita Federal eram intensificadas, personagens da República observam correligionários sendo detidos ou presos por participarem dos nefastos esquemas. Autoridades da República passaram a figurar em inquéritos polícias por possíveis práticas de corrupção, a exemplo dos ministros do Tribunal de Contas da União Augusto Nardes e Aroldo Cedraz, cujos nomes são associados as investigações da Operação Zelotes, deflagrada em 26 de março de 2015.

Durante os 13 anos de poder, os presidentes petistas acumularam significativo número de desafetos em diferentes postos da República. Em uma conjugação nefasta, cujo centro é o pensamento conservador, essas forças foram aglutinadas em torno da tomada do poder, através da tentativa de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A reação de uma organização criminosa

No epicentro do golpe, a união entre Michel Temer e Eduardo Cunha parecia desfazer-se. Envolvido no caso Lava Jato, Cunha passou a apreciar pedidos de impeachment contra Rousseff. Concomitantemente, no dia 2 de dezembro de 2015 a bancada do PT, na Comissão de Ética, responsável pelo julgamento de Eduardo Cunha declarou que votaria favorável a um pedido de cassação. No mesmo dia, Eduardo Cunha autorizou a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, a partir de um requerimento apresentado pelos juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior.

No meio político e em matérias jornalísticas, era levantada a suspeita de que Eduardo Cunha usava os pedidos de impeachment com a finalidade de obrigar o Planalto a manobrar para que a bancada do PT rejeitasse o pedido de cassação. Sobre esse episódio, em 3 de dezembro de 2015, o ministro Jaques Wagner declarou:

– Não sou obrigado a ser verdadeiro com alguém que usa seu próprio poder para paralisar um país e paralisar a vida do Congresso Nacional. Sempre é a ferramenta da ameaça, que é a prática do presidente da Câmara, sempre ameaçando para conquistar o que quer”, disse. “É como se diz na gíria do futebol: perdeu no campo e continua insistindo para ver se ganha no tapetão.

A Carta do Golpe

O dia 7 de dezembro de 2015 é uma das datas que entram para a história por demarcar um dos momentos mais escandalosos da República. Dentre os elementos que definiram os fatos do dia, destaca-se uma carta com o título ‘Verba volant, scripta manent (As palavras voam, os escritos se mantêm)’ envida por Michel Temer, do Palácio do jaburu, para a presidente Dilma Rousseff, no Palácio Planalto.

O documento “é vazado para a imprensa”. O conteúdo da carta, segundo Temer, não deveria ser público. O que levanta o seguinte questionamento: como um documento enviado por um vice-presidente para um presidente, no auge de uma crise de governabilidade, embalada por um processo de impeachment deflagrada e apoiada pelos correligionários do PMDB de Michel Temer, não deveria ser de conhecimento público?

Na carta, Michel Temer apresenta dura crítica a presidente, e a forma de governar, além de afirmar que sempre ocupou o segundo-plano no governo Rousseff. Mas, o que poucos observaram é que a carta era direcionada ao Congresso Nacional. Com o documento, Michel Temer rompia com o Planalto e sinalizava para os ex-colegas deputados, que estava disposto a assumir um papel mais ativo no processo de impecheament.

– Basta ressaltar que na última convenção apenas 59,9% votaram pela aliança. E só o fizeram, ouso registrar, por que era eu o candidato à reeleição à Vice. […] Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã.

Ao analisar o documento, observa-se que no contexto em que foi apresentado tinha a finalidade de ampliar uma oposição ao governo Rousseff e um consentimento à própria assunção ao poder. ‘Verba volant, scripta manent’ entra para a história como a ‘Carta da tentativa de Golpe’.

O poder de obliterar a ordem democrática

Em 7 de dezembro de 2015, o deputado Eduardo Cunha manobra e suspende a eleição da Comissão Especial do Impeachment, ampliando o prazo para inscrição da chapa até as 14 horas do dia subsequente. Observa-se que a manobra de Cunha foi decorrente do fato da maioria dos membros da Comissão Especial, indicados pelos líderes partidários, serem favoráveis a tese da rejeição do processo por falta de legalidade.

No mesmo dia, 7, homem de confiança de Michel Temer, Eliseu Padilha pede demissão do cargo de Ministro da Aviação Civil. A atitude é avaliada como mais um elemento da conspiração golpistas, mas o ex-ministro refutou, afirmando:

– O PMDB tem uma composição múltipla. Uma parte do partido apoia e é fiel ao governo de forma incondicional, uma parte é neutra e uma parte faz oposição. O presidente Michel Temer tem que ser tradutor dessa vontade do partido, sob pena de perder o controle do partido. E esse é o momento que faz que ele tenha a posição que ele tem de refletir, de colher opiniões, para depois poder expressar.

Ao analisar a declaração de Eliseu Padilha, observa-se que os conceitos de composição múltipla, apoio e oposição, refletem de que lado o político perfilava.

Como se não bastassem elementos do pré-golpe, para conspurcar o processo de impecheament, Eduardo Cunha decreta que a votação para escolha da Comissão Especial deveria ser através do voto secreto dos deputados.

A cabine da traição

No dia 8 de dezembro de 2015, duas chapas se inscrevem, a dos apoiadores do Planalto e a dos apoiadores do Jaburu. Na cabine das traições do voto secreto, a chapa 1, formada por deputados indicados pelos líderes da base governista, obteve 199 votos. Enquanto a chapa 2 – Unindo o Brasil – formada na maioria por deputados da oposição e dissidentes da base aliada obtém 272 votos favoráveis.

A chapa 2 – Unindo o Brasil – sai vitoriosa do pleito, sendo eleita para conduzir a Comissão Especial do Impeachment, e a celebre frase é relembrada: “Há uma maioria de 300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses.”. A Frase sobre o Congresso Nacional, foi declarada em setembro de 1993 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Observa-se que um terço da comissão do impeachment é alvo de ações criminais.

A cizânia no PMDB foi exposta. Apoiadores do golpe de um lado, defensores da governabilidade do outro. Em 9 de dezembro de 2015 o PMDB promove a troca de líderes na Câmara Federal, Leonardo Picciani (RJ) é substituído por Leonardo Quintão (MG).

A reação dos progressistas

Diferentes vozes da sociedade perfilaram ao lado da presidente Dilma Rousseff, e contra o golpe na pseudo ordem democrática. Viva, na memória recente da nação, os imensos prejuízos sociais que 30 anos de ditadura Militar-Civil provocou.

Intelectuais, artistas, estudantes, professores universitários, reitores e vice-reitores de instituições federais de ensino, partidos e o movimento eclesiástico emitiram nota de apoio a presidente Rousseff, denunciado o golpe da direita reacionária-conservadora.

Em 8 de dezembro de 2015, contra o processo de impeachment, 16 governadores entregam a presidente Dilma Rousseff a ‘Carta pela Legalidade’. No documento, os governadores afirmam:

– A história brasileira ressente-se das diversas rupturas autoritárias e golpes de estado que impediram a consolidação da nossa democracia de forma mais duradoura. Tanto é assim que este é o período mais longo de normalidade institucional de nossa história, conquistado após a luta de amplos setores da sociedade. Nesse sentido, é dever de todos zelar pelo respeito à Constituição e ao Estado Democrático de Direito. […] O processo de impeachment, aberto na última quarta-feira, 02/12, carece desta fundamentação. Não está configurado qualquer ato da Presidenta da República que possa ser tipificado como crime de responsabilidade.

A interferência do STF

A violação ao rito do processo de impeachment, perpetrada pela dupla Cunha/Temer foi denunciada.  Ao analisará os fundamentos da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) proposta pelo PCdoB, no dia 3 de dezembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Edson Fachin suspendeu, na noite de 8 de dezembro, a instalação da Comissão Especial. Definindo para quarta-feira (16), em sessão do plenário do STF, a análise dos fundamentos da ADPF, decorrentes da arguição de ilegalidades e vícios no rito do processo de impeachment.

O alinhamento conservador

Após a palavra de ordem do presidente de honra do PSDB e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (FHC), foi dada a senha com a finalidade de mobilizar forças sociais favoráveis ao impeachment. No domingo (13/12/2015), diferente de outros protestos, populares saíram em pequenos grupos a favor do impeachment. A esperada reação das massas pelos conservadores não ocorreu. Mesmo em São Paulo, reduto político dos reacionários, a aglomeração de pessoas foi tímida, quando comparada a outros protestos.

O comitê conservador, formado pelo senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB; governador Geraldo Alckmin (SP); senador José Serra (SP) alinhava o discurso e apoio ao golpe perpetrado pela dupla Temer/Cunha. Expert em sociologia, FHC tinha plena ciência de que sem o apoio das massas, o movimento entraria para a história como uma tentativa golpista dos conservadores.

Mas, o poder é sempre o fim. Mesmo reconhecendo que faltava uma base social significativa de apoio ao impeachment, FHC fez o esperado discurso unificador. Um discurso voltado aos conservadores e a mídia golpista, apoiadora do golpe Civil-Militar de 1964. Era um apelo pela coesão dos reacionários e pela mobilização das massas a favor do golpe. Mais uma vez, o ex-ministro Ciro Gomes foi certeiro na escolha das palavras: “O PSDB perdeu o pudor e jogou sua história na lata do lixo. Está imitando o pior do PT”.

A mídia e o golpe

Em uma tentativa de sensibilizar as massas através do discurso reacionário, setores da mídia ligadas ao pensamento conservador promoveram discursos com a finalidade de dar legitimidade ao golpe. Nos dias 10, 11, 12 e 13 de dezembro a população recebeu, através de diferentes meios de comunicação, discursos ora objetivos, ora subjetivos de apoio ao processo de impeachment, consecutivamente, ao golpe perpetrado pela dupla Temer/Cunha.

A revista Veja produziu a capa com título ‘A terrível máquina de retrocesso econômico de Dilma Rousseff’; a revista Época coloca a imagem sorridente, triunfante, do vice-presidente Michel Temer, com a chamada ‘O xadrez de Temer: o vice deixa de ser decorativo, empareda Dilma publicamente e busca apoio para assumir a presidência da República’.

A revista IstoÉ dedicou a edição completa a um discurso favorável ao processo de impecheament:

– O desembarque – Sob o comando de Michel Temer e com um programa de governo estruturado, o PMDB pode retomar o protagonismo exercido nos tempos de Ulysses Guimarães.

– A tropa do atraso que atrapalha o Brasil – Movidos por interesses particulares, Leonardo Picciani, Renan Calheiros e Luiz Fernando Pezão integram a ala do PMDB que quer manter o partido a reboque do Planalto.

– Que País teremos? – Sob Dilma, revelam os indicadores, os próximos três anos tendem a ser de crise econômica e desarticulação política. A mudança de rumo é o caminho mais curto para a retomada da prosperidade.

– Delcídio mete medo – Conhecedor das entranhas da Petrobras, o senador detido há três semanas em uma saleta da Polícia Federal decidiu que vai fazer uma delação premiada e pode envolver Dilma no escândalo de Pasadena.

– O fantasma das contas eleitorais – Enquanto governo e oposição se digladiam no Congresso pelo avanço no processo de impeachment, o TSE acelera as investigações que podem levar à cassação dos mandatos de Dilma e Temer.

– Dá para acreditar neles? – Sem argumentos consistentes, aliados do Planalto tentam desqualificar o impeachment de Dilma. As mesmas lideranças procuraram tirar Itamar e FHC do poder e lutaram pelo afastamento de Collor.

– Os 7 pecados de Dilma na economia – Por que o colapso financeiro do Brasil é resultado direto dos equívocos da presidente.

–  O Brasil não pode virar a Venezuela – Nos últimos anos, Lula e Dilma flertaram com o bolivarianismo, mas o fracasso político e econômico dos governos de esquerda mostram que esse é o pior caminho a seguir.

– O fim do populismo regional se aproxima daqui – Sucessivas derrotas da esquerda latino-americana mostram que o vento de mudanças pode varrer o continente e provocar profundas transformações até no Brasil.

Mais sutis, mais não menos ideológicos, os jornais Folha de São Paulo e Estadão deram ampla cobertura a chamada para os protestos de domingo (13). Além e repercutirem o discurso golpista do vice-presidente. Uma forma sutil de congregar aliados dispersos no território nacional a favor de uma causa, o golpe.

Observa-se que a fragmentação midiática, aliada a um maior poder informacional das massas e a capacidade de discernir o que efetivamente está em jogo, fez com que a maioria da população não aderisse ao discurso fácil do pensamento único favorável ao golpe. O mesmo processo ocorreu nas eleições de 2006, 2010 e 2014 para presidência da República e, a cada novo processo eleitoral ou político o discurso do ódio, do desprezo pelas instituições é difundido com maior intensidade pela mídia golpista.

O que virá depois?

O cenário atual indica que, por contar com o apoio das massas e de setores organizados da sociedade, a presidente Dilma Rousseff deve manter-se no poder.

Um movimento de forças políticas e sociais ocorre com a finalidade de afastar o presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha. Ele é decorrente do uso da instituição com a finalidade de atender aos propósitos infames do golpe, obliterando a ordem vigente.

A relação da presidente Dilma Rousseff com o vice-presidente Michel Temer esgaçou definitivamente. O encontro, ocorrido no dia 10 de dezembro, que resultou na declaração da conjunta de que “uma relação extremamente profícua, tanto pessoal quanto institucionalmente” será mantida, não passa de discurso voltado a aplacar os ânimos das massas, de discurso com a finalidade de passar falsa aparência de normalidade institucional. A identificação de Temer com o golpe não passará despercebida pela história. A reportagem em destaque, no dia 12 de dezembro, na capa da página do jornal Estadão na internet, afirmava ‘Temer ignora apelo de Dilma e tenta unir PMDB em torno do impeachment’.

Após a carta ‘Verba volant, scripta manent’, Michel Temer usa a mídia conservadora em busca de um consenso que parece, no momento, inalcançável. Um consenso em torno de um processo de impecheament que permita a assunção ao poder. Não importa se dividindo o país, através de mais uma ruptura histórica. Não importa se violentando o sufrágio das massas e o conceito de democracia.

No momento, a tentativa de golpe na pseudo ordem democrática está arrefecida. Mas, os conservadores tentam construir novos cenários de crise, ou ampliar a própria crise com a finalidade de fragilizar a democracia e tomar o poder.

Vencendo o processo de impeachment, afastado Eduardo Cunha da presidência da Câmara Federal, Dilma Rousseff terá que lidar com três realidades extremamente desfavoráveis – a crise fiscal, agravada pela crise do petróleo; um Congresso Nacional formado por maioria conservador e hostil a ideologia da governante; e uma mídia atrelada ao pensamento único.

A crise global decorrente da brusca queda do preço do petróleo persiste. Os resultados sob a economia nacional devem ser intensificados. Esse é um cenário de incerteza, que provoca mudanças no quadro de correlação de forças políticas. Fazendo emergir a necessidade de uma saída nacionalista para a crise.

Vincit omnia veritas (A verdade vence todas as coisas).

Ex ore tuo te judico (Julgo-te pelas tuas próprias palavras).

*Carlos Augusto é cientista social e jornalista.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.