Editorial: a aliança entre o vice-presidente da República Michel Temer e o deputado Eduardo Cunha no desenho do golpe no contexto da ordem democrática

Vice-presidente da República Michel Temer e deputado Eduardo Cunha, políticos do PMDB unidos na usurpação da República.

Vice-presidente da República Michel Temer e deputado Eduardo Cunha, políticos do PMDB unidos na usurpação da República.

O filósofo romano Marco Túlio Cícero (106 a.C. – 43 a.C.) ensina que a liberdade apenas pode existir verdadeiramente onde o povo exerce a soberania através do sufrágio; não pode existir essa liberdade, que é de todos os bens o mais doce, quando não é igual para todos. O tópico frasal objetiva introduzir no debate político o conceito de usurpação do sufrágio pela conservador e reacionária burguesia brasileira. Observando que o debate nacional sobre a mudança no comando do poder central foi intensificado com o prosseguimento do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, por decisão do presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB/RJ).

De forma livre e soberana o povo brasileiro foi às urnas escolher pelo sufrágio, em 2014, o supremo mandatário da Nação. Reeleita Dilma Rousseff (PT), a conjugação de ataques ao quarto governo consecutivo do Partido dos Trabalhadores (PT), na presidência da República, foi intensificado. Os corruptos, aliados da direita reacionária e golpista, conjugada com a mídia conservadora, introduziram, através do conceito teórico da agenda-setting, uma pauta de ilegitimidade do governo recém reeleito.

Atingida pela ‘tempestade perfeita’ – grave crise econômica interna, aliada a desaceleração econômica global, depreciação da cotação internacional dos commodities, desvelamento de elevado grau de corrupção no país, formação de bloco com significativo número de oposicionistas conservadores na Câmara Federal, acentuada perda de popularidade, além do desgaste político ao observar correligionários e aliados presos – o governo Rousseff enfrenta o desafio de tentar manter a governabilidade e o mandato popular.

Os recentes episódios políticos – silêncio do vice-presidente Michel Temer (PMDB) com relação ao processo de impeachment; conjugado com a aliança com as lideranças PSDB, derrotadas no pleito de 2014; e com os correligionários conspiradores que respondem por crime no âmbito do caso Lava Jato, além da recente renúncia do ministro fiel-aliado-correligionário Eliseu Padilha – evidenciam os elementos necessários a identificar um processo conspiratório cuja finalidade é usurpar o sufrágio do povo brasileiro, estabelecendo um governo de centro-direita, apoiado nas forças conservadoras da sociedade.

Usurpação

“Todo povo livre escolhe seus magistrados e, se é cuidadoso de sua sorte futura, elege-os dentre os melhores cidadãos; porque da sabedoria dos chefes depende a salvação dos povos”, afirma Cícero.

O povo livre escolheu a presidente Dilma Rousseff. Mas, quem elegeu Eduardo Cunha presidente de um Poder? Não obste dizer, à revelia do apoio do Planalto, foram os conservadores e derrotados do pleito de 2015. Sintomaticamente, Eduardo Cunha é filiado ao mesmo partido de Michel Temer. Observa-se que a falta de apoio ao governo não é sem propósito específico. Acusado de corrupção no caso Lava Jato, com milhões de euros em contas na Suíça, o presidente da Câmara Federal sabe que terá que derrubar a presidente da República, com a finalidade de postergar ou evitar a perda de mandato, além da possível condenação no Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção.

Observa-se que não está em jogo apenas os interesses pessoais dos denunciados por corrupção envolvidos no caso Lava Jato. A retomada do poder central pela burguesia conservadora, em detrimento dos interesses da sempre desigual população brasileira, converge. Nesse sentido, o capital financeiro sinaliza, através da bolsa de valores, o desejo de mudança do controle do poder central. Esse aspecto reafirma a aliança conservadora firmada com objetivo de derrubar o governo, dentro de uma pseudo ordem democrática.

Sob intenso ataque, as conquistas sociais alcançadas pela população brasileira, através de políticas públicas, são desconstruídas pelos reacionários. A economia de mercado e o liberalismo econômico apoiam, como apoiaram no golpe Militar-Civil de 1964, uma mudança que atenda aos próprios interesses.

Perversa união

O que tem em comum: Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Aécio Neves, Aroldo Cedraz, e Augusto Nardes? Esses personagens estão envolvidos no interesse comum, Poder. Todos aspiram a manutenção do poder. Poder que está sendo desconstituído por investigações no âmbito dos casos Lava Jato e Zelotes.

Observa-se que, após abertura do processo de impeachment, o vice-presidente da República Michel Temer manteve-se em silêncio, distante do apoio a presidente Dilma Rousseff. Os relatos publicados na mídia indicam que o vice-presidente se reúne com oposicionistas e setores contrários aos interesses do governo.

Em 1964, resultado da aliança conservadora, o golpe rompeu a ordem democrática. Em 2016, observa-se que está em curso um realinhamento conservador com a finalidade de promover um “golpe” dentro da ordem democrática.

A lição de Cícero

A população brasileira deve estar alerta, perscrutar sob a aparente realidade que jogos de interesses estão em curso, observar como determinadas conquistas estão sendo retiradas, e como pseudos discursos democráticos dissimulam interesses contrários a construção de uma sociedade livre, democrática e paritária.

Na obra ‘Da República’, escrita no século 51 a.C., Cícero alerta:

– Se o povo, por si mesmo, expulsa ou mata o tirano, demonstra um pouco de moderação enquanto conserva o juízo sereno e, satisfeito pela obra, deseja conservar a ordem política que ele mesmo acaba de estabelecer. Mas, se, por desgraça, fere um rei justo ou o despoja do trono, ou chega a derramar o sangue dos grandes, e prostitui o Estado ao furor dos seus caprichos, sabe que não há incêndios nem tempestades mais difíceis de apaziguar do que a insolência e o furor dessa desenfreada multidão. (CÍCERO, 2002, p. 57)

*Marco Túlio Cícero nasceu em Arpino, próximo de Roma, em 106 a.C. e morreu assassinado pelo centurião Herênio a mando de seu inimigo político Marco Antônio. Político influente, jurista, orador, filósofo, sua obra – vasta e diversificada – é uma das mais importantes da literatura latina e influentes na cultura ocidental. Escreveu 10 tratados filósofos, entre os quais Da República, De Natura e De Legibus, Saber Envelhecer, e As Catilinárias, além de quase 1.000 cartas, dezenas de orações e tratados de retórica.

*CÍCERO, Marco Túlio Cícero. Da República (51 a.C.). São Paulo: Jahr, 2002.

Leia +

UNE emite nota em defesa do mandato da presidente Dilma Rousseff, afirmando que tentativa de impeachment é resultado de “flagrante chantagem política por parte de Eduardo Cunha”

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.