Viagem ao místico e mágico país dos budas: Nepal

Juarez Duarte Bomfim e Cecília Maringoni no Vale de Katmandu, Nepal.

Juarez Duarte Bomfim e Cecília Maringoni no Vale de Katmandu, Nepal.

Tudo no Nepal é cercado de mistério e enigma. O transcendental convive com o real, criando uma realidade mista, de tênue fronteira.

O Nepal é um distante e enigmático país asiático, circundado por duas superpotências econômica e militar — China e Índia. Este que vos escreve pouco sabia deste longínquo rincão do globo terrestre, cuja capital chama-se Kathmandu, que designa também o Vale de maior concentração urbana da nação: Vale de Kathmandu.

Visitei este encantador pais em novembro de 2014. Neste périplo estava minha consorte, a muito amada Cecília, a Querida Amiga Denny e, como anfitrião e cicerone, o Amigo George Carvalho, sergipano-nepalês-tibetano de religiosidade budista, residente naquele país.

Poucos meses depois, recebemos a triste notícia que, em 25 de abril um forte terremoto devastou aquele sofrido país, matou milhares de nepaleses e destruiu total ou parcialmente 2/3 das suas edificações — entre as quais os 7 sítios arquitetônicos do Vale de Kathmandu, joias da arquitetura mundial, declarados Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.

A região mais atingida foi justamente a mais urbanizada e densificada: o Vale de Kathmandu.

A geografia deste populoso Vale, e sua morfologia, tem origem mítica, e como quase tudo no Nepal, é cercado de mistério e enigma. O transcendental convive com o real, criando uma realidade mista, de tênue fronteira.

Em tempos imemoriais, toda a área do Vale de Kathmandu era coberta por um enorme lago, no qual nasceu uma flor de lótus.  Um Buda de nome Manjushree rasgou a garganta leste que circundava o grande lago, a água esvaiu-se e, quando o lago desapareceu, o lótus transformou-se na colina de Swayambhu, que significa “se elevou sozinha”. Estudos geológicos modernos confirmam que outrora o vale foi realmente coberto por um lago.

Essa colina é venerada como uma estupa natural, e sobre a qual foi construída outra estupa.

Estupa é um monumento religioso que vem da tradição budista tibetana. De formato cônico, ovalado, representa a mente de todos os budas. Também é templo, altar ou urna funerária (relicário).

Sobre a colina de Swayambhu foi edificado, pela mão do homem, um complexo religioso, além da grande estupa. É=Este é um importante lugar de peregrinação, denominado Swayambhunath, sagrado para budistas e hinduistas.

Para se chegar ao alto da colina de Swayambhunath, onde estão as edificações mais significativas, se sobem 365 degraus. Nas margens da escadaria encontram-se grandes imagens de budas e também de deuses hindus, deidades que partilham o mesmo espaço sagrado.

Numerosa colônia de macacos povoa a montanha. Dai que o lugar é usualmente chamado de Monkey Temple por guias despreparados e turistas desavisados. Isso desperta a ira santa de alguns religiosos, que consideram uma banalização e vulgarização do sítio.

Templo dos macacos ou não, ali eles reinam, e cobram pedágio. Uma senhora com criança, à nossa frente, foi destituída de seu saco transparente, repleto de suculentas frutas, pelos gulosos macacos. Depois do ocorrido, seguramos cuidadosamente nossas turísticas e indefesas mochilas.

Lá em cima se descortina uma visão de 360 graus do Vale de Kathmandu. Nesta época do ano, de tempo seco, uma permanente névoa de poluição atmosférica encobre a paisagem.

A estupa é um dos lugares apropriados para praticar a Kora. Kora é uma peregrinação do budismo tibetano, em que o devoto deve dar 108 voltas em torno do monumento, o circundando em contrição, recitando mantras, nos dias sagrados do calendário budista.

O mantra  mais frequente é o: Om mani padme hum.

Este poderoso mantra não tem uma definição estrita. Enuncio a minha própria definição: do lodo nasce a pureza do lótus, isto é, o nosso desafio aqui no mundo Terra, vencer a sujeira do pecado.

108 são as contas do japa (rosário) nepalês. A circundação pode ser numa lenta ou rápida caminhada, ou ainda em sacrificosos movimentos de prostração. Caminhando deve-se cumprir a prática em 2 dias. Prostrando-se… Quem sabe?

Se o devoto optar por circundar a colina de Swayambhunath, reduz-se o número de voltas para nove. Este exercício espiritual traz muitos benefícios físicos, mentais e emocionais ao praticante, pois entra-se numa frequência vibracional onde se percebe o sagrado operando sobre o seu aparelho (corpo físico), enlevando o devoto na mais pura energia de paz e de amor.

Ah… o número mínimo de voltas em torno da estupa (a Kora) são três.

Experiência única e enriquecedora é praticar a kora. Imperdível. Om mani padme hum. Segundo Cecília, minha senhora, este mantra permeia o Nepal, é sua “trilha sonora”.

O complexo religioso de Swayambhunath é uma das joias espirituais deste surpreendente país — Nepal — e seu povo, que se esforçam para, qual fênix, renascer dos escombros, da devastação e das cinzas provocados pelo implacável terremoto de 2015.

Que o Senhor Buda e o Senhor Shiva os guardem e protejam.

Om mani padme hum.

Om namah Shivaya.

Amém.

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.