Senhor Buda em Sarnath: as Quatro Nobres Verdades

Juarez Ciça Denny SarnathQuando chegou às margens do sagrado Rio Ganges, na Cidade Santa de Varanasi, o Senhor Buda não levava moedas para atravessá-lo no barco de passageiros. Resolveu então cruzar o Ganges pelos ares, voando.

Após atingir a sua iluminação, sentado sob a Árvore Bodhi, o príncipe Sidarta Gautama peregrinou em direção a Sarnath — lugar de refúgio de ascetas.

Lá se encontravam os cinco companheiros de jornada que o acompanhavam e o tinham deixado, quando Ele resolveu abandonar a vida anterior, de extremos sacrifícios e austeridades que, contudo, não o levava a lugar algum.

Gautama havia abdicado das práticas ascéticas dolorosas, que não proporcionavam a sua evolução espiritual, apesar dos excessivos sofrimentos. Quando partiu em busca do pleno entendimento da existência, estes companheiros não o entenderam e, então, se separaram.

Porém, o Senhor Buda, com infinito amor e compaixão, foi ao encontro destes, que estavam recolhidos em Sarnath, para levar-lhes a Boa Nova: o caminho da iluminação. Acreditava que eles estavam prontos a aprender e disseminar a nova doutrina. Corria o ano de 583 a.C.

Naquele lugar, falando para os seus antigos companheiros, Gautama Ia começar a sua missão espiritual, através das pessoas que lhe eram mais próximas, e se tornariam multiplicadores da Verdade.

Quando chegou às margens do sagrado Rio Ganges, na Cidade Santa de Varanasi, o Senhor Buda não levava moedas para atravessá-lo no barco de passageiros. Resolveu então cruzar o Ganges pelos ares, voando.

É dito que quando o rei Bimbisara soube deste prodígio, daquele dia em diante mandou abolir a cobrança de pedágio para todos os sadhus (ascetas) que por ali passassem.

Eu e minha consorte, a muito amada Cecília, para Sarnath também nos dirigimos, seguindo os passos do Tathágata, que ali começaria a sua missão de mestre ensinador.

A cidade sagrada de Sarnath está situada a 10 km de Varanasi, no estado de Uttar Pradesh, Índia. Local de peregrinação de budistas e de todos os buscadores da Verdade, pois foi neste sítio que o Senhor Buda deu o seu primeiro ensinamento, fazendo girar a roda do Dharma, no caminho da libertação.

Sarnath é um importante complexo religioso, com templos, estupas, estátuas, lagos, jardins e verdes gramados, onde impera a flor de lótus, um dos símbolos da doutrina do Buda.

Foi neste lugar que surgiu a imagem iconográfica de Buda, meditativo, sentado em posição de lótus. Os traços fisionômicos do “Buda de Sarnath” e os demais elementos figurativos se tornaram modelo imagético para o budismo de todas as nações.

Quando reuniu novamente os seus desconfiados companheiros, Buda proferiu o seu primeiro discurso. Nele expos a sua Doutrina: o caminho do meio, isto é, nem seguir na busca desenfreada dos prazeres sensoriais, nem abraçar o caminho da mortificação do corpo, que o próprio Buda e seus amigos experimentaram por longos e penosos 16 anos, inutilmente.

Buda recomenda abdicar desses extremos e seguir o caminho do meio, o qual propicia a qualquer um ver e compreender que este é o caminho que leva ao conhecimento (sabedoria) e ao nirvana (bem-aventurança).

Este discurso é conhecido como as Quatro Nobres Verdades, o resumo de toda a doutrina budista.

Pelos seus 45 anos restantes o Senhor Buda ensinou o caminho para atingir o nirvana, isto é, a senda para alcançar a felicidade e a paz. Existem 84.000 categorias de ensinamentos (sutras) do Buda Histórico.

As Quatro Nobres Verdades

As Quatro Nobres Verdades desdobram-se no Nobre Caminho Óctuplo — que é o conjunto de oito práticas que correspondem a quarta Nobre Verdade do Budismo.

A primeira Nobre Verdade é a do sofrimento. Doença, morte, tristeza, lamentação, dor, pesar e desespero são sofrimentos. E todos sofrem. Não ter o que se deseja é sofrimento, separação do que se deseja é sofrimento, saudade é sofrimento. E todo esse sofrimento está na nossa própria mente. Nós produzimos o nosso sofrimento.

A segunda Nobre Verdade é a causa do sofrimento. Qual é a causa do sofrimento? É o desejo, o apego, a cobiça e o ódio. Mas aonde o desejo surge? Onde estão suas raízes? As raízes do desejo e do apego estão nos sentidos humanos — visão, audição, olfato, paladar, tato — e na mente. Se agradável for a sensação de algo que experimente, a pessoa o aprova e esta sensação condiciona o desejo. O desejo gera o apego. Dessa maneira surge o sofrimento. Sofre-se ao desejar e ao se apegar. O desejo é irrealizável, pois senão deixaria de ser desejo; o apego provoca dor e sofrimento ao se perder o objeto do apego. E um dia isso vai ocorrer.

A terceira Nobre Verdade é a extinção da causa do sofrimento. A completa erradicação e desaparecimento do desejo, apego, cobiça e ódio faz cessar o sofrimento. O individuo deve se libertar da ilusão do “eu” (ego) e do “meu” (posse). É com a extinção da ignorância que o desejo também é extinto. E pela cessação do desejo cessa-se o apego. Para atingir a sabedoria e fazer cessar a ignorância o Buda nos transmite a quarta Nobre Verdade.

A quarta Nobre Verdade é a senda que leva à extinção do sofrimento. Existem dois caminhos extremos e o caminho do meio. O caminho do Buda é o caminho do meio.

Há o caminho dos prazeres sensuais, hedônicos, vulgares e mundanos que apenas alimentam o desejo e o apego — que são as causas do sofrimento humano.

E há o caminho da mortificação do corpo, que o próprio Buda experimentou por longos e penosos anos antes do seu despertar. Esse caminho é doloroso e também sem expectativa alguma que traga a felicidade e a paz.

O caminho do meio é formado por uma série de oito ensinamentos, denominados de “Nobre Caminho Óctuplo”. Praticando o nobre caminho óctuplo o sofrimento e suas causas são eliminadas.

O Nobre Caminho Óctuplo”

Eis as palavras de Buda, proferidas em Sarnath (Índia) aos seus discípulos: “

“Aqui tendes, ó monges, a Nobre Verdade sobre o caminho que conduz ao fim do sofrimento. É o caminho Óctuplo, ou seja, o entendimento correto, o pensamento correto, a palavra correta, a ação correta, o modo de existência correta, o esforço correto, a atenção correta e a concentração correta”.

Seremos mais uma vez obrigados a fazer um resumo dos ensinos de Buda. O primeiro dos oito nobres caminhos ensinados por Ele é o da correta compreensão ou entendimento. Significa compreender as quatros nobres verdades já enunciadas.

O segundo dos nobres caminhos é o de pensar corretamente, ter pensamentos corretos. Ter boa vontade, benevolência e amor.

O terceiro dos nobres caminhos é de executar os dois primeiros através do uso correto da palavra. Palavra correta: não mentir, caluniar ou ofender o próximo.

O quarto nobre caminho, agir corretamente, é um conjunto de preceitos éticos e morais para uma vida reta: significa não matar, não roubar ou ser infiel.

O quinto nobre caminho é o da pessoa ter meio de vida correto. Constitui-se de tirar o sustento material de atividade honesta, nunca prejudicando e explorando o semelhante.

O sexto é de fazer o esforço correto para evitar e superar o mal; o esforço de fazer surgir o bem, manter e desenvolver o bem. Para quem tem dúvidas filosóficas sobre o que é o bem, o bem é o que proporciona a paz, a harmonia, a evolução e o progresso.

Ter atenção correta sobre o corpo, sensações e a consciência é o sétimo nobre caminho. Deve-se manter o corpo e a mente sadios. Abster-se de abusos alimentares e substâncias prejudiciais à saúde.

O oitavo nobre caminho é a concentração correta. A luxúria, raiva, ira, ódio, preguiça, dúvidas e preocupações são obstáculos para o desenvolvimento da concentração. A concentração correta deve ser alcançada com a mente limpa através da meditação.

A conduta humana regida por esses oito princípios levará o caminhante a uma vida moderada, de equilíbrio, conforto e bem-estar. Não passará pelo sofrimento de arcar com as consequências negativas do uso incorreto da palavra ou da ação moralmente condenável.

O discípulo que obter êxito nessas oito vias para a libertação, fazer cessar o desejo e o apego, terá o seu carma extinto, isto é, ações humanas que inevitavelmente geram implicações. Já aquele indivíduo aprisionado a esse círculo vicioso, da lei da causa e efeito, estará preso à roda de sansara, quer dizer, nascimento e morte, desencarne e reencarnação, sem alcançar a paz e a felicidade, o despertar, a iluminação.

O discípulo que trilha o caminho do meio dissolve o seu carma e rompe os ciclos reencarnatórios. Dessa maneira poderá alcançar a bem-aventurança e o bem-estar supremo — o nirvana prometido por aquele já Desperto, o Senhor Buda.

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.