Rogativo dos mortos, de Mestre Raimundo Irineu Serra

Artigo aborda a vida do Mestre Raimundo Irineu Serra.

Artigo aborda a vida do Mestre Raimundo Irineu Serra.

Este hino é uma rogativa para o irmão que se “mudou” as “doze horas da noite” e vai num crescendo até chegar as “nove horas do dia”. Por que para aí nesse horário?

São doze horas da noite

Meu irmão se mudou

O sono da eternidade

Deus do céu quem te chamou.

 

Uma hora da madrugada

Meu irmão se mudou

O sono da eternidade

Deus do céu quem te chamou.

 

Duas horas da madrugada

Meu irmão se mudou

O sono da eternidade

Deus do céu quem te chamou.

 

São três horas da madrugada

Meu irmão se mudou

O sono da eternidade

Deus do céu quem te chamou.

 

Quatro horas da madrugada

Meu irmão se mudou

O sono da eternidade

Deus do céu quem te chamou.

 

Cinco horas da manhã

Meu irmão se mudou

O sono da eternidade

Deus do céu quem te chamou.

 

São seis horas da manhã

Meu irmão se mudou

O sono da eternidade

Deus do céu quem te chamou.

 

São sete horas do dia

Meu irmão se mudou

O sono da eternidade

Deus do céu quem te chamou.

 

São oito horas do dia

Meu irmão se mudou

O sono da eternidade

Deus do céu quem te chamou.

 

São nove horas do dia

Meu irmão se mudou

O sono da eternidade

Deus do céu quem te chamou.

 

Tantos anos que viveste

No mundo da ilusão

Eu rogo a Deus do céu

Que te dê o santo perdão.

 

A divina estrela vem

Para ir te alumiar

Eu rogo a Deus do céu

Que te bote em bom lugar.

 

A Virgem Senhora vem

Para ir te acompanhar

Eu rogo à Virgem Mãe

Que te bote em bom lugar.

 

Este 14º hino do hinário O Cruzeiro Universal de Mestre Raimundo Irineu Serra — Rogativo dos mortos — começa para o irmão que se “mudou” as “doze horas da noite” e vai num crescendo até chegar as “nove horas do dia”. Por que para aí nesse horário? Testemunhas afirmam que foi às nove horas da manhã de 6 de julho de 1971 que o Mestre Irineu Serra fez a sua passagem para o mundo espiritual. Assim, este cântico — recebido ainda nos anos 1930 — pode ser visto como um prenúncio sobre o dia e hora do abandono consciente do seu corpo aqui no mundo Terra, para em espírito ir governar o seu Império lá do Astral.

Alquebrado pela idade e com a saúde debilitada, nos últimos dias do mês de junho de 1971 e Mestre Irineu já dava sinais do seu passamento.

— Eu não sinto dor. Eu não sinto fome. Eu não sinto nada. O que eu sinto é não ter para quem entregar o meu trabalho. E saudades de vocês. Eu sinto uma saudade tão grande de vocês que é isto que está me abatendo.

Alguns meses antes ele tinha recebido o hino “Pisei na Terra fria”, que é um cântico de despedida, no qual dizia:

O meu espírito eu entrego a Deus
E o meu corpo à sepultura.

As mulheres da comunidade o cercavam de cuidados, e viviam apreensivas quanto ao seu possível falecimento. Para confortá-las o Mestre Irineu brincava:

— Eu vou morrer nada. Eu só vou desencarnar no dia em que um padre bater à minha porta!

A vastidão da floresta amazônica e a escassez de padres nas matas e nos seringais, tornava a figura de um padre algo raro de se ver. Anos e anos se passavam até um padre aparecer nas comunidades ribeirinhas para as “desobrigas” — realizar batismos em crianças já crescidas, e casamentos em casais já de longa convivência marital. Daí que essa declaração do Mestre Irineu equivalia a dizer que ele demoraria a falecer. Porém, o velho mestre também afirmava:

— Nenhuma brincadeira minha cai no chão. Isto é, nada que ele falava era à toa, sem propósito.

É contado que, quando o Padre Manoel Pacífico bateu à sua porta, para uma visita, as mulheres da comunidade começaram a se lamentar e dizer:

— Valha-me Deus! O Padrinho Irineu vai morrer!…

A um grande mestre é dado o poder de saber a hora da sua passagem desta vida para o mundo espiritual. Jesus Cristo tinha todo o conhecimento da sua trajetória aqui na Terra, e isso, mais que facilitar a sua missão, aumentava o desafio rumo à vitória. Prevendo o sofrimento que o esperava com a vil crucificação, suou “grossas gotas de sangue” no Horto das Oliveiras.

— Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice, não se faça, contudo, a minha vontade, mas a tua.

Então vindo do Céu, apareceu-Lhe um anjo que O confortava.

No dia 30 de junho de 1971, a irmandade se reuniu para mais uma concentração. No final da função, Mestre Irineu perguntou:

— Quem foi que viu o meu enterro?

Os presentes disseram que não tinham visto nada, e ele disse que havia recebido um remédio e que ficaria bem.

— E que remédio é este, Mestre?

— É um remédio que tem em todo lugar, respondeu.

Seus discípulos compreenderam, depois, que o remédio é a própria (Mãe) Terra:

A matéria eu entrego a ela

E meu espírito, ao Divino.

Dona Percília Matos da Silva esteve com o seu padrinho e mestre na véspera do seu desencarne. Ele estava bem, sorridente e falante. Ela pensou: “ele está bom, graças a Deus!”

Ao se despedir, as últimas palavras que ouviu do Velho Juramidã foram:

— Seja feliz.

No dia seguinte, 6 de julho de 1971, em frente ao Palácio Rio Branco, no centro da capital do Acre, Percília e Pedro, seu marido, encontram a esposa do Seu Doca. Ela vinha amarela, com os cabelos assanhados. Foi logo dizendo:

— O Mestre, meu Deus! O Mestre morreu!

Depõe Percília: “só acreditei quando cheguei. Ele ainda estava na cama. O suor derramando como se estivesse trabalhando muito”.

A divina estrela vem

Para ir te alumiar

Eu rogo a Deus do céu

Que te bote em bom lugar.

A Virgem Senhora vem

Para ir te acompanhar

Eu rogo à Virgem Mãe

Que te bote em bom lugar.

Este  hino é um rogo, uma súplica ao Pai que está no céu para que, ao chamar o seu filho ao outro lado da vida, o irmão que se “mudou”, o ilumine com a divina estrela e o leve para um bom destino no mundo espiritual. Roga-se também a Virgem Senhora Mãe que o acompanhe nesta viagem — e o “bote em bom lugar”.

O apóstolo Paulo afirma que “a morte é o último inimigo a ser vencido”, e o rogativo é para que os nossos nomes e dos nossos irmãos sejam achados no Livro da Vida.Nosso mestre, Raimundo Irineu Serra Juramidã, adotou o lema do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento — Hei de Vencer — que hoje adorna as portas de entrada de muitas casas e centros daimistas. O que temos de vencer é o pecado e a morte, para alcançarmos as promessas de Nosso Senhor Jesus Cristo:

— Ao que vencer, farei dele uma coluna do templo do meu Deus; e nunca mais de lá sairá, isto é, estará livre da “roda de sansara”, do ciclo de nascimento e morte, encarnação e desencarne… livre das agruras de ter que, “se Deus lhe der licença”, voltar a este plano de expiação e resgate que é o Planeta Terra.

Eu, Juarez Duarte, que já tenho Bomfim no nome, o que mais rogo a Deus do céu é que me “bote em bom lugar”.

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O amigo que quiser conhecer o estudo de outros hinos do hinário O Cruzeiro Universal de Mestre Raimundo Irineu Serra acesse:

http://portalsantodaime.com.br/materia_especifica.php?idmateria=1

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.