Quem tem medo da esquerda tem medo da democracia | Por Ana Benavente

"Por mim, celebro o diálogo à esquerda. Rompeu-se um tabu. Viva a liberdade.". Ana Benavente é socióloga e socialista.

“Por mim, celebro o diálogo à esquerda. Rompeu-se um tabu. Viva a liberdade.”. Ana Benavente é socióloga e socialista.

1. Nas últimas semanas temos sido bombardeados, nos jornais e na TV, com comentários e “análises” que têm um ponto em comum. Traduzindo em linguagem simples, afirmam: “Onde já se viu?” Que a direita governe e nos massacre, que na Europa tenha deixado de haver distinção entre conservadores e socialistas, que as desigualdades aumentem a olhos vistos pouco aflige os comentadores. Agora que a esquerda ouse tentar um acordo para formar governo? Ai, isso não. Ou porque tal nunca aconteceu, ou porque daí podem vir todos os perigos. Os mais democratas aconselham: “Vejam lá no que se metem.”

Cresci com a convicção de que é preciso ousar lutar para ousar vencer. Aflige-me a resignação. Desde o 25 de Abril, sempre sofri por saber a esquerda maioritária na Assembleia da República sem que nunca, mas nunca, se ousasse dar passos para um entendimento que derrotasse a direita. Uma vez o PS até foi buscar um deputado dito “do queijo limiano”, lembram-se? O PS com a direita, tudo bem, não há problemas com a matriz ideológica, nem leitura detalhada dos programas. Agora o PS com a esquerda, ai que susto. E lá vão analisar cada palavra que escreveram, escrevem ou pronunciam os partidos de esquerda. Aves agoirentas que bem conhecem os seus interesses, do BPN ao BES.

2. Se votamos porque queremos construir uma “boa sociedade” no quadro democrático, europeu e mundial, se votamos contra a exploração, contra quem nos rouba e nos oprime, se votamos por mais justiça social e pela democracia, então só podemos estar felizes com o momento que vivemos.

Alguém duvida que a Europa tem de rever a sua lógica dominante e os seus procedimentos? Alguém duvida que governos europeus mais democráticos deverão ter influência nessas mudanças?

Entre nós, a dívida foi pretexto para nos castigar, marcando brutais retrocessos económicos e sociais.

Quem faz política hoje são as agências de rating e os “mercados”. O último Governo, com “pés de veludo” e mão de ferro, deu cabo do Estado social. Aumentou a pobreza, cortou salários e pensões, deliciou-se com a troika, desmantelou o mundo do trabalho – nunca houve tantos trabalhadores precários, contratos individuais, muitos deles abaixo do salário mínimo e desde os anos 60 que não se assistia a um tal êxodo de portugueses – piorou brutalmente o Serviço Nacional de Saúde e a escola pública (de que pouco se fala e que vive asfixiada, com as crianças pressionadas por exames que irão seleccionar os “eleitos” e os “excluídos”, selecção contra a qual tanto trabalhámos). Destruiu a educação de adultos e deu fortes machadas na ciência.

3. Os portugueses votaram e a coligação que governou nos últimos quatro anos tem menos votos que o PS, o PCP e o BE juntos. E agora? Habituados que estávamos a que esquerda se guerreasse sem dialogar, só se lê e se ouve estranheza e espanto! São capazes de se sentar a uma mesa de negociações e de tornar a maioria aritmética em maioria política, imaginem.

Quaisquer que sejam as fórmulas a encontrar. A direita quase que endoidece diante de tal realidade. Coisa que nunca se viu e, segundo eles, nunca se verá. E que vem aí outra reforma agrária. E que “aqui d’el-rei” que nos tiram o poder. Acordam os papões da nossa história. Falam do PREC e dos seus perigos. Querem-nos submissos, venerandos e obrigados.

4. Por mim, celebro o diálogo à esquerda. Rompeu-se um tabu. Viva a liberdade. Sempre estive muito mais perto do PCP e do BE do que do PSD ou do PP. Na acção, na vida, nas propostas e nas lutas.

E o que a direcção do PS perdeu antes e durante a campanha eleitoral ganha agora. Em ousadia e esperança. As dificuldades serão muitas, não duvido (e não o foram com a direita, que até teve, pelo meio, demissões irrevogáveis logo a seguir revogadas?). É a democracia. E o que eu gostaria era que os cidadãos tivessem um papel a desempenhar nestes novos caminhos. Ajudando a resolver o que for difícil. Para além de bater palmas, para além de nos manipularem pelo medo. Nós, que queremos mais e melhor democracia, estamos convosco. Contem com a nossa vontade e energia. Contem connosco. Todos.

*Ana Benavente é socióloga e socialista. | E-mail: benavente.ana@gmail.com.

*Publicado originalmente do Jornal Público Internet.

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