Porque se deve morrer em Varanasi, Índia

Juarez em VaranasiAcredita-se que todo aquele que morra em Varanasi será liberado da roda de samsara, isto é, dos ciclos de nascimento e morte, encarnação e desencarne. Não só os varanases são dignos desse privilégio: idosos e moribundos de todas as partes da Índia para lá se dirigem, esperando a hora da morte.

A história de Varanasi, Cidade Sagrada às margens do Rio Ganges, está associada diretamente a este mítico rio, que nasceu nos céus e desceu à Terra, por vontade dos deuses e a pedido dos homens.

A deusa Ganga Ma (Mãe Ganges) assumiu a forma de um rio e desejou derramar-se desde as regiões celestiais sobre o planeta, e para evitar o desastre que o impacto de suas águas causaria à Mãe Terra, o Deus Shiva a acolheu em seus cabelos e assim o rio, ou seja, a deusa, escorreu suavemente por sua cabeleira, evitando que a Terra e a humanidade fossem danificadas.

Após todos esses acontecimentos, a Sagrada Família de Shiva-Parvati-Ganesha procurou um lugar na Terra para morar. Após intensa pesquisa, o local escolhido foi onde se encontra a Cidade de Varanasi — também chamada de Benares e Kashi — no estado de Uttar Pradesh, Índia. Shiva é o seu fundador. A cidade mais antiga do mundo surgiu na Treta Yuga (Era de Prata) e nesse período viveu seu apogeu e esplendor.

Na sua primeira visita a Varanasi, Sri Ramakrishna Paramahansa chegou à Cidade de Shiva de barco, pelo Ganges. Viu que ela era feita de ouro, como as escrituras declaram. Cidade astral plasmada na Terra, pela intensa devoção e piedade dos devotos. Ficou bastante emocionado. Durante sua estada, tratava qualquer grão de terra com o maior respeito.

A história de Rama, Krishna, Buda, Babaji… muitos rishis (sábios), santos, sadhus (renunciantes) está associada a esta mitológica cidade. Ou melhor: “Varanasi é mais antiga que a história, mais antiga que as tradições, mais velha inclusive que as lendas. Parece ser duas vezes mais antiga que todas as cidades do mundo juntas”.

Na peregrinação espiritual que fizemos pela Índia — pátria espiritual da humanidade — eu e minha consorte, a muito amada Cecília, tivemos a felicidade de visitar a mais sagrada das cidades sagradas da antiga Bharata: Varanasi-Benares-Kashi.

Varanasi e o Rio Ganges estão totalmente intrincados. Como se fossem um só organismo. O Ganges é o todo, Varanasi é a parte. A vida religiosa dos buscadores espirituais que acorrem ao lugar se desenrola nos mais de cinco mil templos e nos ghats (escadarias de acesso ao rio), onde as devoções são realizadas. Principalmente o purificador banho nas águas do sagrado rio.

Os banhos no Rio Ganges são purificadores de pecados. Os débitos cármicos são resgatados e se acelera a evolução espiritual dos devotos. As suspeitas e evidências de poluição daquelas águas não intimidam os banhistas, que entre restos de cadáveres, porcos, cachorros, búfalos e lixo fazem inclusive abluções e bochechos, e bebem da sagrada água.

Acredita-se também que todo aquele que morra em Varanasi será liberado da roda de samsara, isto é, dos ciclos de nascimento e morte, encarnação e desencarne. Não só os varanases são dignos desse privilégio: idosos e moribundos de todas as partes da Índia para lá se dirigem, esperando a hora da morte. Ficam jogados pelas ruas ou são recolhidos em precários abrigos caritativos, até o momento final.

Os grandes crematórios são destaques nas margens do Rio Ganges, e funcionam diuturnamente. Quanto mais volumosa e alta a pira de fogo, maior o prestígio social do falecido sendo incinerado. Todo o processo de cremação é ritualizado. Envolve sacerdotes e familiares do morto, e não é permitida a participação de mulheres. Diz-se que a mulher simboliza o parto, a vida — e não a morte.

Testificando a crença comum de que qualquer um que morra em Varanasi será redimido dos pecados, quando Ramakrishna Paramahansa visitou o ghat de Manikarnika, o maior crematório da cidade, com o olho espiritual aberto, o grande yogue viu Shiva com o corpo coberto de cinzas, o cabelo dourado emaranhado, aproximando-se serenamente de cada pira funerária e soprando nos ouvidos dos cadáveres o mantra de liberação:

Asato ma sad gamaya

tamaso ma jyotir gamaya

mrityor ma amritam gamaya

Senhor, do irreal nos conduza ao real

Das trevas para a luz

Da morte à imortalidade

Depois disso, Ramakrishna viu a própria Mãe Divina (Ganga Ma) vir remover os grilhões dos mortos, libertando-os do degredo terrenal, por sua infinita compaixão e misericórdia.

Om namah Shivaya

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.