O imortal Padmasambhava do Nepal e Tibet

Juarez Duarte Bomfim em frente a uma das grutas em que o guru Rinpoche Padmasambhava meditava.

Juarez Duarte Bomfim em frente a uma das grutas em que o guru Rinpoche Padmasambhava meditava.

Visitamos uma dessas grutas que o Guru Rinpoche Padmasambhava meditava. Neste lugar sagrado, como prova inconteste dos seus poderes yóguicos, está cravada na rocha da montanha a sua mão.

No país dos budas — Nepal — o ser divino que mais surpreende e impressiona é o Guru  Rinpoche Padmasambhava, missionário que levou o budismo para o Tibet.

Tudo na vida deste grande mestre é mágico, prodigioso, misterioso. A começar do seu nascimento:  diz a lenda que, certo dia, numa ilha imersa em oceano de leite, crescia uma flor de lótus multicolorida e, quando esta se abriu, nela estava sentado um belo menino de apenas oito anos, bem ornamentado, segurando um diamante e um lótus em cada mão.

Padmasambhava significa “nascido do lótus”, pois assim se deu o seu mítico nascimento. A sua vinda foi prevista pelo Buda Sakyamuni, e o milagroso advento aconteceu alguns anos após o parinirvana do Grande Mestre.

Parinirvana significa a morte física de um mestre iluminado (buda), equivalente ao Mahasamadhi do hinduísmo.

Padmasambhava foi criado como um príncipe, mas abandonou o palácio em busca da Verdade. Teve muitos mestres que lhe revelaram os grandes mistérios. Entre outros instrutores, foi aluno de Ananda, discípulo direto do Buda Sakyamuni.

Após esta longa e frutífera iniciação, Padmasambhava tornou-se um poderoso yogue. Através das práticas yóguicas sua forma física se tornou capaz de transcender os limites de tempo e espaço, adquiriu a imortalidade e nada podia feri-lo sem que ele permitisse.

Devido a isto, apesar do seu advento ter se dado no século V a.C., há versões apontando o século VIII como o provável período que ele viveu aqui na Terra, e levou o budismo para o Tibet.

Foi assim: apos peregrinar pela China e o Turquestão, expandindo o budismo, O Guru Rinpoche decidiu que já era hora de levar a Doutrina para o Tibet, até então sob hegemonia religiosa da tradição Bön.

O missionário Shantarakshita encontrava forte resistência demoníaca para implantar o Dharma (Retidão) no Tibet. Determinadas a manter o budismo fora do país, as forças demoníacas jogavam relâmpagos e granizo destruindo as colheitas, infelicitando a vida da comunidade.

Shantarakshita convenceu então o rei a convidar Padmasambhava a visitar o país e converter o seu povo para a vida reta e virtuosa.

Feito o convite, o Guru Rinpoche empreende uma caminhada desde o Nepal em direção ao Tibet, subindo as montanhas do Himalaia. Porém, os demônios enviaram forte nevasca que cobriu os caminhos. Na fronteira tibetana seu avanço foi bloqueado pela intempérie, mandada pelos demônios tibetanos para impedi-lo de prosseguir.

A neve fez com as passagens ao Tibet ficassem inacessíveis, mas Padmasambhava superou os demônios, retirando-se para uma caverna e entrando em contemplação meditativa que lhe permitiu subjugá-los e colocá-los sob sua vontade.

Depois disto, viajou a pé por toda a extensão do Tibet, meditando em cavernas por todo o país, desafiando os demônios que encontrava para um combate pessoal e os convertendo ao budismo.

Nenhum foi capaz de se opor ao seu poder, e muitos se tornaram protetores da nova religião. Eles tomaram os votos solenes e eternos de nunca trabalhar contra o Dharma, e de fazer o máximo para garantir a sua propagação.

Ao longo dos séculos, essas cavernas (grutas) do Himalaia são locais privilegiados de moradia e práticas meditativas de santos, rishis (sábios)  sadhus (renunciantes), monges e aspirantes espirituais das grandes tradições religiosas do Oriente.

Na atualidade continuam a ser procuradas pelos mesmos buscadores do Dharma, que ali residem ou passam dias, meses ou anos nas suas práticas espirituais.

Eu e minha consorte, a muito amada Cecília, visitamos uma dessas grutas onde o Guru Rinpoche Padmasambhava meditava. Neste lugar sagrado, como prova inconteste dos seus poderes yóguicos, está cravada na rocha da montanha a sua mão — para quem quiser acreditar.

Na sua missão espiritual no Tibet, Nepal e Índia, Padmasambhava ensinou e transmitiu a Doutrina para muitos, realizou milagres e sacralizou a natureza abençoando cavernas, montanhas, rios e lagos como lugares sagrados.

Muitos buscadores que receberam seus ensinamentos tornaram-se seres realizados – alcançaram o estado búdico.

Padmasambhava é o autor do texto sagrado do Tibet mais conhecido no mundo. Um precioso legado deste povo para a humanidade.

Agora que o bardo da morte desponta diante de mim,

Eu vou parar de prender as coisas, de desejar e me apegar,

Vou entrar sem distrações na clara percepção dos ensinamentos,

E ejetar a minha consciência para a dimensão da percepção não nascida.

Quando eu deixar este corpo composto de carne e sangue,

Saberei ser ele apenas uma ilusão passageira.

(O livro tibetano dos mortos)

Alguns consideram que o Guru Rinpoche deixou o Tibet após vários anos de peregrinação. Na realidade o Padmasambhava que deixou o país foi apenas uma emanação criada pelo imortal mestre, pois ele tem o poder de multiplicar os seus corpos.

Por isso, o mestre encontra-se presente por toda a Cordilheira do Himalaia, entre Índia, Nepal e Tibet, nos abençoando e iluminando qual farol na escuridão.

Om mani padme hum.

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.