Kumari, a deusa viva do Nepal

Juarez Duarte Bomfim durante visita ao Nepal.

Juarez Duarte Bomfim durante visita ao Nepal.

Miramos o alto, na altura da janela central do primeiro andar. Uma bela menina, aparentando nove anos de idade, olhava atentamente para nós, pobres mortais, lá embaixo. Cada pessoa presente foi digna de receber um olhar da deusa viva. Eu e George também fomos merecedores da sua divina contemplação.

O Centro Histórico de Kathmandu (Nepal), denominado de Durbar Square, concentra um número significativo de palácios, templos e outros monumentos artísticos e arquitetônicos que, pela sua importância, foram declarados patrimônio cultural da humanidade pela Unesco.

A Durbar Square foi seriamente afetada pelo grande terremoto de abril deste ano, destruindo total ou parcialmente suas edificações. Porém, em novembro de 2014, antes da catástrofe, pudemos apreciar a sua imponente arquitetura.

Do passeio por esta grande praça e seu entorno, que nos transporta a séculos passados, me chamou a atenção a Casa da Deusa Kumari — um palacete incrustado em plena Durbar Square.

A Kumari é uma menina considerada deusa, o aspecto vivo de Durga, esposa de Shiva. Durga compõe a Trindade (Tridevi) feminina hindu: Parvati, Durga e Kali.

A Kumari é uma menina pré-púbere, selecionada no clã Sakya (supostamente uma parente distante do Buda Shakyamuni) e pertencente à comunidade Nepalesa dos neuari. Os neuari são predominantes no Vale de Kathmandu, onde sua cultura e tradições são hegemônicas.

A Kumari é venerada e idolatrada por alguns hinduístas do país e por budistas nepaleses, mas não por budistas tibetanos.

O título de Kumari é temporário; quando menstrua pela primeira vez a Kumari precisa renunciar formalmente ao título, mediante cerimônias próprias que abrem caminho para a escolha de sua sucessora.

Como também não deve se acidentar e perder sangue, a Kumari é cercada de exagerados cuidados durante a condição de deidade. Uma Kumari anterior a atual, teve que aprender coisas simples como caminhar, após a perda do “mandato” de deusa viva.

Existe a crença de que casar com uma (ex)Kumari dá azar. Talvez por isso, raramente contraem matrimônio.

A eleição da nova Kumari exige complexos ritos mágico-religiosos e testes de confirmação. Esses testes eliminam candidatas, até só restar uma. Me foi descrito um desses testes: colocam as criancinhas entre um a dois anos de idade num quarto escuro, e ali elas são atemorizadas por pessoas disfarçadas de demônios, que gritam e as ameaçam. É dito que a verdadeira Kumari não se assusta nem se abala com tal assédio. Já as outras crianças…

Além da Kumari de Kathmandu, também existem deusas Kumari nas comunidades de Bakthapur e Patan.

Vivem isoladas do mundo, e são raras as suas aparições. Quando eu e o amigo George Carvalho — budista sergipano-tibetano — visitamos o pátio de sua residência, tivemos a felicidade da graça de sua divina visão.

Foi assim: grupos de turistas e residentes locais visitavam, na oportunidade, o lugar. Alguns estrangeiros ouviam atentamente as explicações dos guias turísticos. Estávamos em um pátio interno, quadrangular. Ligeiro frisson acometeu aquele numeroso grupo de pessoas. Ouvíamos vozes nervosas:

No photo! No photo!

Miramos o alto, na altura da janela central do primeiro andar. Uma bela menina, aparentando nove anos de idade, olhava atentamente para nós, pobres mortais, lá embaixo. Cada pessoa presente foi digna de receber um olhar da deusa viva. Eu e George também fomos merecedores da sua divina contemplação.

Estar diante de um ser divino é considerado uma benção e merecimento de muitas vidas. Só de vê-lo recebe-se o seu darshan (benção) que, entre outros benefícios, proporciona aceleramento kármico (evolução espiritual), no sentido de sair da roda de samsara, dos ciclos de nascimento e morte, no caminho da iluminação.

Após alguns poucos e longos minutos (segundos?), a deidade se retirou e a janela foi cerrada.

Todavia, naquela ensolarada manhã nepalesa, eu vi e também fui visto pela deusa menina, a Kumari de Kathmandu.

Namastê.

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.