Kali, a bebedora de sangue. Jay Jay Ma!

Cecília Maringoni no Vale de Katmandu, Nepal.

Cecília Maringoni no Vale de Katmandu, Nepal.

O surpreendente é que ali naquele espaço sacro se praticam publicamente sacrifícios de animais: cabritos, galinhas, pombos… mamíferos, ovíparos… toda sorte de animais que não são considerados sagrados.

No nosso périplo espiritual pelo Vale de Katmandu (Nepal), eu e minha consorte, a muito amada Cecília, visitamos um templo de adoração à Deusa Kali, do panteão hinduísta. O surpreendente é que ali naquele espaço sacro se praticam publicamente sacrifícios de animais: cabritos, galinhas, pombos… mamíferos, ovíparos… toda sorte de animais que não são considerados sagrados.

O chão do local é permanentemente vermelho e molhado, sangue e água escorrendo, resultado dos sacrifícios ali realizados. Uma providencial mangueira de água está sempre aberta, jorrando o precioso líquido, para lavar o sangue derramado, que escorre em profusão pelas canaletas laterais do pátio retangular.

Ao fundo, a imagem terrível de Kali, a bebedora de sangue.

Kali é representada como uma mulher preta com quatro braços: Em uma mão ela porta uma espada, em outra a cabeça do demônio que ela matou. Com as outras duas ela encoraja seus adoradores. Seus brincos são dois cadáveres e ela veste um colar de crânios; e traja apenas um cinto feito de mãos de homens mortos, e sua língua fica para fora da boca. Seus olhos são vermelhos, e seu rosto e seios estão lambuzados de sangue. Ela fica ereta, com um pé apoiado na coxa e outro no peito de seu marido (Shiva).

Ó Kali! Por que Tu perambulas nua?

Tu não tens vergonha, Mãe!

Vestes e ornamentos Tu não tens nenhum;

no entanto Tu te gabas em ser a filha do Rei.

Ó Mãe! É um mérito de Tua família que Tu

Coloques teus pés em Teu marido?

Tu estás nua; Teu marido está nu; ambos vagam pelos solos de cremação.

Ó Mãe! Estamos todos com vergonha de você; coloque tua veste.

Tu jogaste fora Teu colar de joias, Mãe,

E vestes um colar de cabeças humanas.

Prasada diz: “Mãe! Tua beleza cruel assustou

Teu consorte nu.

(Rama Prasada)

A Deusa Kali  é uma  emanação  da testa de Durga, a caçadora de demônios. Ela é esposa de Shiva porque faz parte da Trindade (Tridevi) feminina hindu: Parvati, Durga e Kali.

O mito sobre esta poderosa divindade é assim: Shiva pediu a sua mulher Parvati que destruísse o demônio Daruka. Depois disso, ela entra no corpo de Shiva e Dele emergiu como Kali, guerreira de aparência feroz.

O demônio Daruka era invencível, não poderia ser derrotado, pois de seu sangue derramado brotavam outros demônios. Devido a isso, ao decepar os demônios, Kali passou a lamber o seu sangue, o que evitou sua proliferação e, enfim, possibilitou a vitória de Kali ao termino da encarniçada luta.

Kali, a bebedora de sangue. Jay Jay Ma!

Causa indignação e protestos de alguns a existência de cultos sacrificiais, considerando-os bárbaros. Em nome da defesa dos animais, de um pretenso humanismo e pacifismo, combatem esses ancestrais ritos.

Em defesa dos cultos afro-brasileiros que realizam ritos sacrificiais, a grande sacerdotisa baiana, Mãe Stella de Oxóssi, argumenta:

— Animais serem sacrificados (é) uma prática que existe desde quando o homem precisa alimentar-se. Sempre foram realizados por muitas religiões, mas que aos poucos foram deixando de existir em algumas. A pergunta é, então, por que o candomblé ainda faz o que, para muitos, é considerado uma barbaridade?

Mãe Stella continua:

— A resposta é simples: essa religião (o candomblé) tem uma profunda relação com o planeta Terra… Essa ligação com a terra não poderia excluir a necessidade que o homem tem de se alimentar para sobreviver. Oferecemos aos deuses tudo aquilo que nos mantém vivos e alegres: alimentos, flores, perfumes, água limpa e fresca. Tranquilizo os leitores dizendo que no dia em que os homens deixarem de ter na mesa galinha, galo, carneiro, porco, boi… naturalmente esses animais deixarão de ser ofertados aos deuses.

Sei que esses argumentos ou outros não demoverão alguns do seu modo de pensar e condenar os sacrifícios ritualísticos de animais. Inconscientemente essas pessoas se manifestam de maneira etnocêntrica, racista, discriminatória e intolerante. Estou exagerando?

Exagero ou não, atentar para um detalhe menor das práticas religiosas se deixa de compreender a rica cosmologia destas tradições.

O mestre espiritual indiano Ramakrishna Paramahansa cultuava a Deusa Kali em seu terrível aspecto de bebedora de sangue. Até que um dia Ela se revelou ao santo extático como a própria Mãe Divina — a doce e amorosa mãe de todos nós.

… é Kali, minha Divina Mãe, de compleição negra?

Ela parece ser negra porque é vista à distância;

mas quando finalmente conhecida Ela não mais o é.

O céu parece ser azul à distância, mas olhe de perto

e descobrirás que não tem cor alguma.

A água do oceano parece azul à distância,

mas quando chegas perto e a coloca em suas mãos,

descobrirás que é incolor.

 (Ramakrishna Paramahansa)

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.