Grande Hotel Caldas do Cipó: o que foi sem nunca ter sido

Grande Hotel Caldas do Cipó, com Cecília e Bárbara Maringoni (no primeiro plano).

Grande Hotel Caldas do Cipó, com Cecília e Bárbara Maringoni (no primeiro plano).

Os cipoenses choravam copiosamente diante do edifício em chamas, a quem se apegaram nessas seis décadas como a uma joia de família. Providencial carro de bombeiros foi trazido da Cidade de Paulo Afonso, para domar o fogo e a tristeza da população.

Na trama novelística “Roque Santeiro”, do genial dramaturgo baiano Dias Gomes, se destaca a personagem “viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido”, isto é, fingia ser viúva do “finado” herói televisivo, que também não tinha morrido…

Será que o epíteto se aplica ao Grande Hotel da pequenina Cidade de Cipó, balneário termal do semiárido baiano?

Em Cipó — que revisitamos há poucos dias — tudo é nostalgia, desencanto. Lembrança de um passado de glamour e glória, que já foi e não mais voltará. A história do balneário parece estar relacionada aos jogos de azar, proibidos no Brasil desde 1946 pelo governo do general Eurico Dutra. Porém… não. Não está.

Diz a lenda que Cipó teve o seu apogeu como lugar requisitado entre os anos 1930 e 1940. O cassino da cidade atraía os usineiros ricos de Alagoas e de Pernambuco; famílias inteiras vinham de todos os cantos do País para banhar-se nas águas sulfurosas radiativas, com propriedades terapêuticas.

Todavia, o destino do lugar e a identidade de seus habitantes estão irremediavelmente associados a uma grande e imponente construção civil, um monumental edifício onde se instalou o “Grande Hotel Caldas do Cipó”, inaugurado pelo presidente da República Getúlio Vargas, em 24 de junho de 1952, véspera da noite de São João — festejo mais concorrido de todo o Nordeste brasileiro.

Foi assim: centenas de cavaleiros, vestidos como boiadeiros nordestinos foram recepcionar o DC-3 presidencial que trazia a bordo Getúlio Vargas e o governador da Bahia, Régis Pacheco.

O cortejo era de 600 autênticos vaqueiros “encourados”, paramentados de chapéu, guarda-peito, jaleco, gibão, calças, polainas de couro de veado-mateiro, que receberam Getúlio. Ao lado do avião e sob o sol escaldante do sertão baiano, condecoraram o mandatário com a “Ordem do Vaqueiro”.  Paramentaram o carismático presidente ali mesmo, com o gibão e o chapéu de couro de boiadeiro sertanejo.

A caricata cena foi divulgada para o país inteiro pela revista O Cruzeiro — que era uma mistura de TV Globo e Revista Veja.

Cipó viveu seus dias de glória, o São João foi animado não apenas pelas fogueiras e forró doméstico. O balneário teve direito a fogos de artificio, baile e jantar para a elite política e econômica convidada.

Na atualidade, Cipó mais parece uma cidade fantasma. Os prédios abandonados e arruinados dão ao lugar um aspecto lúgubre, parece um sítio em que o tempo se esqueceu de passar.

O símbolo principal da intrigante cidadezinha é o tal edifício: enorme, majestoso, em estilo art déco e neocolonial. Pela sua importância arquitetônica regional foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac) como “Patrimônio da Bahia”, em 2008.

A ciência do urbanismo designa como “imagem da cidade” um conjunto de símbolos que nela se destaca, e são determinantes para compreender a maneira como os habitantes e visitantes a percebem. A imagem da cidade é fundamental para a construção da identidade local, isto é, como um povo se vê e é visto.

A imagem de uma urbe pode estar vinculada a edificações construídas ou monumentos naturais. No caso de grandes cidades são muitas, várias.

Corcovado, Cristo Redentor, Pão de Açúcar, arcos da Lapa, Praia de Copacabana no Rio de janeiro são imagens construtivas da identidade local.

Elevador Lacerda, Farol da Barra, Pelourinho, Mercado Modelo e Forte de São Marcelo são constitutivos da ideia de baianidade. Exemplos de outras cidades são muitos.

No pequenino Cipó, é em torno da edificação do Grande Hotel que se construiu a identidade urbana. O imaginário local gira em torno dele.

Desde muito jovem a imagem deste grandioso prédio me intriga. Obviamente que se a edificação estivesse localizada na Cidade de São Paulo, Recife ou Habana Vieja seria algo comum à cena urbana. Mas… no sertão da Bahia?

Era intrigante porque num raio de centenas de quilômetros não se destaca nenhum relevo natural ou construído. Quase tudo é de baixo relevo, pequena escala. Não há montanhas, arranha-céus… nem sequer arvores gigantes como na Amazônia.

Desejava conhecer tal lugar e, no ano de 1990, eu e minha consorte, a muito amada Cecília, para o sertão viajamos. Levávamos a tiracolo o cãozinho poodle Toy — a filha Barbara ainda não tinha nascido.

Tivemos a oportunidade de nos hospedar no lendário hotel. Isso porque na década de 1980 ele havia sido reinaugurado, numa tentativa de alavancar o turismo.

Porém, não houve nenhum êxito. Essa inglória tentativa somou-se ao passado de insucessos.

Vivendo da parca renda de servidor público, só nos foi dada a oportunidade de nos hospedar em hotel aparentemente de luxo porque a decadência do estabelecimento permitia. Preços econômicos buscavam captar clientes.

Ostentava ainda um piano de cauda e o mobiliário original. Um ascensor antigo passava mais tempo quebrado que em funcionamento, devido a dificuldade de peças de reposição. Tudo cheirava a mofo e as instalações hidráulicas e elétricas deixavam a desejar.

A glória do Grande Hotel Caldas de Cipó duraria pouco. Sem o jogo o estabelecimento não iria adiante: Getúlio havia inaugurado um dos maiores “elefantes brancos” da história nacional, dizem os críticos. O hotel funcionou a pleno vapor, mesmo, só durante um ano, enquanto era atraente novidade.

A cidade dista 242 quilômetros de Salvador, capital da Bahia, em zona ainda hoje pouco densificada. As vias terrestres eram precaríssimas nos anos 1950, o que dificultava em muito a acessibilidade. Os aviões rareavam.

Final do século XX. O Grande hotel fecha as suas portas. Começa a depredação: a retirada não autorizada de lustres, mobiliário e até de vasos sanitários.

O “tiro de misericórdia” aconteceu mais recentemente: em 2009, um funcionário da prefeitura, ao tentar atear fogo a uma colmeia de abelhas nos andares superiores, incendiou parte do telhado do hotel.

É dito que os cipoenses choravam copiosamente diante do edifício em chamas, a quem se apegaram nessas seis décadas como a uma joia de família. Providencial carro de bombeiros foi trazido da Cidade de Paulo Afonso, para domar o fogo e a tristeza da população.

Atualmente, só os andares térreos são ocupados, por órgãos da prefeitura. Os demais cinco andares foram lacrados.

Uma inspirada jornalista escreveu: “dos dias de fausto, ficou nos habitantes da cidade um curioso sentimento de que tudo aconteceu ontem, como se a água termal tivesse um efeito mágico sobre a memória”.

Essa pequena comunidade de 15 mil habitantes vincula o seu destino e a redenção do lugar a este suntuoso monumento de concreto, eternamente crédula de que o velho hotel voltará um dia aos tempos áureos.

 

Fontes:

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/noticias-de-lugar-nenhum

http://www.bahianoticias.com.br/noticia/181569-governo-investira-r-105-mil-na-requalificacao-do-balneario-de-cipo.html

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.