Em ‘Diários da Presidência: 1995-1996′, Fernando Henrique Cardoso revela disputas internas e externas com a finalidade de ocupar espaço no poder

Capa do livro 'Diários da Presidência: 1995 - 1996', de autoria do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Capa do livro ‘Diários da Presidência: 1995 – 1996’, de autoria do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Durante os dois mandatos como Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso manteve o hábito quase semanal de registrar, num gravador, o dia a dia do poder. Os relatos dos dois primeiros anos compreendem quase 90 horas de gravação, que foram decupadas a partir de 44 fitas cassete. O resultado é o livro ‘Diários da Presidência: 1995-1996′ (Volume 1).

Em pouco mais de 900 páginas, FHC relata hesitações do cotidiano e os julgamentos duros de amigos próximos, tece comentários sobre o governo, reclamações da imprensa e aponta intrigas a seu redor.

Lançado pela editora Companhia das Letras, o livro é o primeiro de uma série de quatro volumes bianuais. O primeiro volume apresenta textos escritos entre 1995 e 1996. A editora planeja concluir a publicação dos diários em meados de 2017.

Os registros vão muito além de uma visão privilegiada da intimidade do poder; são, na verdade, uma poderosa ferramenta para a compreensão do Brasil contemporâneo.

Os áudios foram transcritos pela antropóloga Danielle Ardaillon, curadora do acervo da Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso. Todos os textos foram revistos pelo autor e pela editora.

Confira trechos da obra

TERÇA-FEIRA, 28 DE NOVEMBRO DE 1995 […] Hoje veio a bancada do PFL de Minas tomar café da manhã comigo. Todos dizem que têm questões menores, que não querem conversar comigo, que eu designe quem tratará do assunto, e eles só querem umas nomeaçõezinhas, uns contratinhos, essas coisas, o beabá dessa política empobrecida. […] Mas discutimos os grandes temas. Levantaram as dúvidas gerais, dei uma quase aula sobre a situação do Brasil, foi agradável. Não vai mudar nada enquanto não se fizerem as nomeações que estão desejosos de ter. […]

SÁBADO, 9 DE DEZEMBRO […] Tive uma longa conversa com Serra. Aí sim, fomos mais a fundo a respeito da nossa relação. Ele voltou a dizer que eu acho que foi contra o Plano Real, que não foi contra o Real, que ele não acreditava [na possibilidade política de o pôr em prática], eu sei que é isso. Voltei a explicar a ele o porquê de o Malan ser o ministro da Fazenda, Serra concorda comigo que é porque dá a sensação de estabilização. Disse-lhe o que esperava de cada um e que não adianta tentar resolver questões que não têm solução, não posso mexer agora com o Banco Central. […]

DOMINGO, 24 DE MARÇO […] Agora no fim da noite, encontrei a Dorothea. Estava aflita pelas notícias de que o ministério dela podia ser barganhado com o PPB. Expliquei que não era assim, isso cria um ânimo ruim, desmoraliza as pessoas que estão trabalhando no ministério. É uma coisa lamentável, a gente tem que fazer frente a essas fofocas que saem na imprensa e que levam a situações desagradáveis, de que eu não gosto, de incerteza. […]

Dificuldade com TCU

SEGUNDA-FEIRA, 8 DE JULHO DE 1996. […]  Voltei ao Palácio da Alvorada e recebi muita gente. Primeiro tive uma conversa com o Sérgio Mota (então ministro das Comunicações) e o presidente do TCU [Tribunal de Contas da União], o Marcos Vilaça. O TCU está pondo dificuldades óbvias e corretas na aprovação de concessões na telefonia e na área de energia. O Vilaça disse com clareza que há três conselheiros (no TCU) muito antiquados, uns são estatistas, outros são exibicionistas, o que dificulta muito. Sugeriu que eu tivesse um jantar com todos na casa dele, explicar qual é o nosso propósito: evitar que o TCU, que está muito influenciado por sua tecnocracia, muito petista, e também por uma mentalidade burocrática antiquada, atrapalhe o avanço da privatização e das concessões”, relata FHC.

Debates pouco produtivos

FHC narra que, em jantar com Clóvis Carvalho e os irmãos Luiz Carlos Mendonça de Barros e José Roberto Mendonça de Barros (então secretário de Política Econômica) no Palácio do Alvorada, os quatro trataram da crise envolvendo o banco Bamerindus, que sofreria intervenção do Banco Central no ano seguinte no âmbito do Proer. Depois, FHC ouviu queixas sobre as críticas feitas por Gustavo Franco, que era diretor do BC e principal fiador da política baseada no câmbio fixo entre o real e o dólar, base do Plano Real.

“Queixas também porque o Gustavo Franco voltou a atacar a questão do gasto, por causa da negociação da Vale do Rio Doce. Ele não sabe o que o Mendonça está fazendo. Mendonça não pode abrir o jogo e deu a impressão, porque não abriu o jogo, de que iremos utilizar os recursos da Vale para fazer obra, para os Estados pagarem as dívidas. Já o Gustavo Franco estrilou, parece que o (Edmar) Bacha também. Quer dizer, um pouco essa disputa da PUC do Rio: para mostrar que é ortodoxa, quer segurar o câmbio e o déficit, e diz que os outros são gastadores. A coisa é um pouco infantil”, relata FHC.

Déficit fiscal

Dias depois, FHC relata o debate sobre o déficit fiscal do governo, que aumentava em 1996. “Tive uma longa reunião com a área econômica sobre um artigo que o André Lara Resende escreveu – eu não li -, parece que colocando em dúvida a possibilidade de controlarmos o déficit fiscal. Foi o grande tema de hoje. O debate na equipe econômica sempre toma uma conotação muito dramática. Mas na verdade, quando se olham os dados, [a situação] não é tão preocupante assim, embora tenhamos que cortar mais no físico, ou seja, dispensar gente, fechar órgãos, diminuir gastos, porque parece que do ponto de vista de aumento de receita chegamos ao limite, pelo menos é o que dizem nossos técnicos. Não dá para fazer o ajuste em cima só do orçamento”.

A crise fiscal, no entanto, pioraria ao longo de 96 e durante todo o ano de 1997. Em 1998, ano em que FHC buscou a inédita reeleição, o governo foi forçado a buscar recursos junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para fechar as contas, além de promover reformas na gestão da política econômica.

Sobre o autor da obra

Nasceu no Rio de Janeiro em 1931. Foi presidente do Brasil por dois mandatos consecutivos, de 1995 a 2003. Sociólogo graduado na Universidade de São Paulo, afirmou-se desde o final dos anos 1960 como um dos mais influentes intelectuais latino-americanos. A partir de sua carreira acadêmica e intelectual, teve importante papel na luta pela redemocratização do Brasil. Foi senador por São Paulo e participou da fundação do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) em 1988. Foi ainda ministro das Relações Exteriores e da Fazenda no governo Itamar Franco.  Ex-professor catedrático de Ciência Política e atual professor emérito da Universidade de São Paulo, foi diretor associado de Estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, e professor visitante no Collège de France e na Universidade de Paris-Nanterre. Ocupou a cátedra Simón Bolívar na Universidade de Cambridge e ensinou nas universidades Stanford e de Berkeley. Foi ainda nomeado Membro dos Conselhos Consultivos do Institute for Advanced Study, Princeton, e da Fundação Rockefeller, Nova York. É autor de diversos livros.

Ficha técnica da obra

Título: ‘Diários da Presidência: 1995-1996′ (Volume 1),

Autor: Fernando Henrique Cardoso

Editora: Companhia das Letras

*Com informações da Livraria Folha, Estadão e Companhia das Letras.

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Trecho do livro ‘Diários da Presidência: 1995 – 1996’ de autoria de Fernando Henrique Cardoso, disponibilizado pela Companhia das Letras

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