Clima de terror nos bastidores da Globo | Por Altamiro Borges

Artigo aborda mudanças na  Rede Globo de Televisão.

Artigo aborda mudanças na Rede Globo de Televisão.

O império global parece que está ruindo. A cada dia, uma notícia pior do que a outra. As audiências definham, vitimando telenovelas, telejornais, os enfadonhos programas de entretenimento e até as transmissões monopolistas do futebol. Com a retração do Ibope, a tendência é de queda do bilionário faturamento em anúncios publicitários – mesmo com a continuidade do “mensalão” pago às agências, o sinistro Bônus de Volume (BV). Para piorar, a previsão de que a televisão digital finalmente irá ao ar até 2018 amedronta os donos da poderosa TV Globo, que temem o aumento da concorrência.

Isto não significa que os três filhos de Roberto Marinho estejam mais miseráveis. Pelo contrário. No ranking mundial da Forbes, os herdeiros do trono seguem como as maiores fortunas do Brasil. Já para os funcionários da emissora, alguns mais realistas do que o rei, o cenário é de tensão. Na quinta-feira passada (19/11/2015), o site R7, pertencente à rival Record, informou que a TV Globo reduzirá os salários das suas “estrelas”: “Donos dos maiores salários da Globo, o primeiro time de autores da emissora, papas da dramaturgia como Aguinaldo Silva, Gilberto Braga, Manoel Carlos e João Emanuel Carneiro, pode perder as suas regalias”.

A apimentada reportagem aponta os motivos: “Enredos desgastados, erros e perdas de audiência da dramaturgia da Globo estão fazendo a direção da emissora rever os benefícios de alguns dramaturgos e, ao que tudo indica, o reinado inabalável dos ‘autores estrelas’ está chegando ao fim. Segundo fontes do canal, a intenção da Globo é investir cada vez mais em novos autores… Há os que defendam também uma equiparação de salários entre os dramaturgos da rede. Entre esse primeiro time de autores da Globo há quem receba mais de R$ 1 milhão por mês de salário. Entre outras estrelas do canal, somente Faustão e Galvão Bueno estão na casa desses salários milionários”.

Ainda de acordo com matéria, “autores mais novos, que conseguem muitas vezes mais sucesso em audiência do que os já consagrados, recebem entre 10% e 20% desse valor, entre R$ 100 mil e R$ 200 mil mensais. A diferença é gritante. Isso sem contar que esse ‘segundo time’ costuma dar menos trabalho à emissora. Faz menos exigências, não briga por elenco e não sai distribuindo farpas em entrevistas e redes sociais. Outra regalia que está sendo cortada é o excesso de colaboradores. Alguns autores que recrutam até oito colaboradores que os ajudam a escrever uma novela. A ideia agora é que cada dramaturgo trabalhe com equipes mais reduzidas. Colaboradores estão sendo dispensados”.

O clima de medo não atinge apenas as famosas telenovelas da TV Globo. No jornalismo, a situação é ainda pior. Cortes de salários e demissões também estão em curso. E eles não decorrem apenas das quedas de audiências dos telejornais. Diante da radicalização política no país, insuflada pela própria emissora, a famiglia Marinho parece que resolveu aumentar o controle e a censura na redação. Artigo de Daniel Castro, postado na semana passada no site Notícias da TV, revela a gravidade do quadro. Vale conferir a reportagem:

Globo tem clima de terror com demissões após férias e plantões

Uma das empresas mais estáveis para se trabalhar, a Globo está passando por uma fase atípica. Um clima de terror se instalou nos bastidores do jornalismo da emissora nas últimas semanas, consequência de uma série de demissões após plantões e férias. Na última sexta-feira (13/11/2015), a demissão de Sidney Rezende, um dos profissionais mais antigos da GloboNews, onde apresentava telejornais vespertinos, só ampliou a insegurança. Ele tinha contrato até fevereiro.

No jornalismo da Globo, a versão corrente é a de que Rezende foi dispensado do canal de notícias, após duas décadas e meia no grupo (ele foi fundador da rádio CBN, em 1991), por motivos políticos.

Rezende escreveu no Facebook e em seu site, na véspera da demissão, o texto “Chega de notícias ruins”, em que aponta “cinismo no jornalismo” e uma “má vontade dos colegas que se especializaram em economia e política”, que têm “obsessão em ver no governo o demônio, a materialização do mal, ou o porto da incompetência”.

Embora em seu site Rezende também publique notas positivas sobre Os Dez Mandamentos e A Fazenda, carros-chefes da programação da Record, na Globo não há dúvidas que o “desabafo” político teria sido crucial para a demissão do jornalista. “Agora está todo mundo com medo de se manifestar politicamente”, diz um experiente repórter da Globo. “A piada interna é de que isso é o terrorismo made in Globo”.

A Globo nega que haja qualquer relação entre a demissão de Rezende e o texto crítico da mídia. A direção de jornalismo da emissora diz que só tomou conhecimento do texto após a publicação de seu teor pelo blog do jornalista Maurício Stycer, do UOL, no último final de semana.

A demissão de Rezende também aumentou a tensão na GloboNews. Foi o segundo apresentador afastado em um mês. No começo de outubro, como o Notícias da TV informou em primeira mão, o jornalista Eduardo Grillo, que emprestou sua voz para a primeira narração do canal de notícias, em 1996, foi demitido ao voltar de férias. Ele ancorava o Jornal das Dez, o JN da GloboNews.

Outros dois funcionários importantes foram demitidos após cumprirem plantão, causando comoção na equipe, porque a chefia teria esperado os profissionais terminarem o trabalho do fim de semana para então abrir mão deles. Foram os casos de Fabio Watson, havia quase 30 anos na casa, e de Happy Carvalho, a mais experiente produtora do canal.

Uma fonte na Globo, aguçada observadora dos bastidores da emissora, afirma que os nervos estão à flor da pele porque as pessoas estão percebendo que alguma coisa anormal está acontecendo, mas não se sabe direito se os motivos são políticos, pessoais, ou por cortes de custos ou mudança de filosofia. Falta clareza, resume ela, o que aumenta a sensação de insegurança.

A Globo reafirma que Eduardo Grillo foi dispensado, a pedido, para “cuidar dos negócios da família”. E a emissora diz desconhecer demissões após plantões.

*Altamiro Borges é jornalist e membro do Comitê Central do PCdoB.

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