Caldas do Jorro, paraíso das águas calientes

Balneário de Caldas do Jorro.

Balneário de Caldas do Jorro.

A população local e os visitantes estabeleceram uma prosaica rotina. Fazem uma dilatada siesta que perdura até o entardecer. Após constatarem que sobreviveram ao abrasante calor das primeiras horas da tarde, vão à fila do banho, nas duchas da praça principal do balneário.

Há exatos 25 anos, a professora Maura Ribeiro reuniu parte da sua família e viajou ao sertão da Bahia, em visita a parentes que não via há anos. Ela, sua mãe e seus três filhos viajaram à Cansanção num ano de seca inclemente.

Logo se depararam com um terrível quadro de extremo racionamento de água. Um certo constrangimento se abateu sobre ela e a mãe, as crianças eram ainda pequenas. Elas se sentiram intrusas e invasivas, consumindo o vital recurso para a existência daqueles parentes e de todos os seres sensientes do Planeta: a preciosa água, fonte da vida.

Maura abreviou o tempo de visita. Do planejado para ser uma semana, no terceiro dia se despediram dos tios, sobrinhos e primos. Como tinham ainda alguns dias do período previsto, atendendo ao apelo da mãe, foram conhecer Caldas do Jorro.

Ao saltarem do ônibus intermunicipal, a surpresa: jorrava água na praça da cidade, de muitas duchas públicas. Os meninos, que não se banhavam há vários dias, correram para baixo dos chuveiros, de roupa e tudo.

A professora não teve dúvida. Foi logo apressar uma pousada econômica e ali permaneceram, se banhando na água fervente, que miraculosamente brotava das entranhas da Terra.

Maura Ribeiro recorda esses dias de um passado já distante, como se fosse ontem. De lá para cá as crianças se tornaram adultas, nasceram os netos e são esses que se esbaldam na atualidade embaixo das bicas d’água, pois ela adquiriu confortável casa de veraneio em Caldas do Jorro, e sonha, quando um dia a velhice chegar, se mudar definitivamente para o paraíso das águas fervidas que é Caldas do Jorro, distrito de Tucano, no semiárido baiano.

Sim, este é o paraíso da professora Maura, pois ela é uma entusiasta do lugar. O termo “casa de veraneio” é apenas uma convenção, pois, se possível, prefira visitar o balneário nos meses de inverno, de temperatura menos tórrida.

Esse que vos escreve, do alto das suas quase seis décadas de existência, imaginava já ter visto tudo — ou quase tudo — neste plano terrenal. Porém, qual não foi meu espanto ao assistir a um trivial aparelho de ventilador em funcionamento, espalhar vento quente, aumentando ainda mais o insuportável calor.

Ventilador? É preciso rebatizar tal aparelho elétrico de “aquecedor”.

Faz justamente 25 anos que eu e minha consorte, a muito amada Cecília, visitamos e conhecemos Caldas do Jorro pela primeira vez.  Ao aprazível lugar retornamos neste calorento novembro, e ouvimos essa história e tantas outras, despretensiosos depoimentos de novos amigos que ali escolheram residir, e são aficionados do balneário termal.

A população local e os visitantes estabeleceram uma prosaica rotina. Fazem uma dilatada siesta que perdura até o entardecer. Após constatarem que sobreviveram ao abrasante calor das primeiras horas da tarde, vão à fila do banho, nas duchas da praça principal do balneário.

Ponto de encontro, lugar de construção de sociabilidades, a fila do banho é onde tudo acontece: amizades, namoros, negócios… inclusive ali se decidem as concorridas eleições municipais.

Cenas cômicas e insólitas se produzem. As placas de restrição a algumas atitudes são usualmente desobedecidas, como a proibição de levar sabonetes, shampoo e condicionadores.

Sentindo-se na privacidade do lar, vetustos senhores, sem-cerimônia, enfiam a mão por dentro do calção e esfregam as partes pudendas. A numerosa fila de espera assiste a tudo placidamente.

Porém, tal ato não ocorre impunemente… Recatadas senhoras sentadas nos bancos da praça se revoltam com o irreverente comportamento destes que massageiam o saco escrotal publicamente, e bradam:

— Se respeita não, sô?! Tá no banheiro de casa?!

Há um outro tipo de espectador: homens adultos ociosos que observam atentamente o banho alheio, são voyeurs, termo da língua francesa, ou mirones, na língua espanhola. Desconheço palavra apropriada na língua portuguesa para tal oficio.

Com olhares especulativos e escrutinadores observam atentamente os molhados corpos femininos. Miradas concupiscentes são lançadas sobre as jovens banhistas em sumários trajes, que se enfileiram a espera do fervente jato d’água.

Cai a tarde. Hora de tomar o mingau de tapioca e comer o disputado pastel na praça.

A dinâmica atividade turística deste balneário termal tem algumas particularidades, que podem parecer paradoxais. Primeiro os aspectos positivos:

1. Existe uma oferta hoteleira numerosa e diversificada, para todos os gostos e bolsos. E os investidores continuam atraídos ao negócio, pois observa-se a abertura de novas pousadas e hotéis, alguns já lendários, como aquele que hospedou a musa do Axé Music no São João passado;

2. Uma grande oferta de casas de veraneio para aluguel por temporada;

3. Uma boa infraestrutura urbana e oferta de bons estabelecimentos comerciais.

Agora, algumas questões preocupantes, que dificultam tornar mais atraente o turismo em Caldas do Jorro:

A. A oferta de duchas públicas para os banhos curativos e medicinais nas famosas águas calientes parece acanhada e pouca para a demanda atual. É inibidor de um futuro crescimento.

B. São apenas algumas poucas bicas públicas, um pequeno banheiro comum gratuito e, subutilizado, um grande banheiro privado, de preço bastante econômico, quase simbólico, Apesar de barato, o banho pago é pouco procurado pelos banhistas, insatisfeitos com a cobrança.

Ocioso, com baixa frequência, inclusive nos fins de semana, quando o Jorro é “invadido” por ônibus de excursionistas, a subutilização destes banheiros pagos dificulta investimentos e melhorias nas suas instalações já envelhecidas e não renovadas.

Assisti um seguinte diálogo na bilheteria do banho pago:

 — Quanto é o banho? Pergunta um senhor, ao lado da esposa, que estava visitando Caldas do Jorro. Aquele casal tinha investido parte da economia doméstica em viajar ao balneário, pagando passagens, alimentação, bebidas e outros custos.

— 2 reais. Responde a bilheteira.

Me chamou a atenção a cara de desolação e decepção deste senhor, que mais parecia um rictus de dor… Será que ouvi bem? Duzentos reais? Não, tinha certeza que ouvi apenas o mesmo transmitido a minha pessoa:

— São 2 reais, senhor.

Desapontado, ele se afastou com a sua senhora.

Nos fins de semana Caldas do Jorro é ocupado por populares, que ali chegam em velhos ônibus de excursão, fazem suas algazarras, se esbaldam nas duchas ferventes da praça, ouvem musica em alto volume, levam a sua alimentação para o improvisado picnic, assam churrasco de bode e, ao termino do dia, batem em retirada.

Uma pequena parte destes, dispostos a pagar o pequeno valor para uso das piscinas e parques, ocupam aqueles espaços.

Porém, a maioria fica mesmo é na praça, na fila do banho. A pequena escala de oferta de duchas públicas afugenta um público minimamente exigente.

Há alternativas: visitar o Jorro nos dias úteis, e assim conhecer um bucólico e burlesco lugar.

O que atrai as pessoas a Caldas do Jorro?

Não resta dúvida que são as águas curativas e medicinais. Vale a pena – e muito — como tratamento auxiliar de saúde, ou até como ultimo recurso a males crônicos.

Ah… o melhor do Jorro, ao lado do seu banho de 48 graus, é beber a água mineral que brota das profundezas do generoso aquífero e é oferecida gratuitamente nas concorridas filas, onde os moradores enchem os vasilhames para beberem daquele elixir — maravilhosa dádiva da natureza.

Eh água fina, faz velha virar menina!

Lembrei da frase estampada numa outra famosa fonte mineral aqui da Bahia.

Dizem que aquele que bebe da água do Jorro um dia voltará.

Fui, voltei e… voltarei.

Se Deus quiser.

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.