Alabê de Jerusalém no Sarau de Itapuã

Altay Alabê Veloso.

Altay Alabê Veloso.

2.000 anos depois, Alabê de Jerusalém baixou num terreiro de Umbanda — e na Casa da Música — para a sua história contar, e exige respeito para com o seu evangelho yorubá.

Ogundana (Alabê de Jerusalém) é um negro africano que nasceu no território de Ifé (Daomé) nos primeiros anos da Era Cristã. Ainda menino, sai de casa e segue em direção ao norte da África. Durante a peregrinação vai aprendendo os mistérios da cura pelas folhas, cipós e raízes. Aprimora a sua ciência nos oásis do deserto e, depois, com os médicos do Egito.

No percurso se torna Alabê, aquele que guarda os segredos dos orixás. Ao chegar ao reino da Núbia, já com 23 anos, encontra um centurião ferido, com o filho morto em seus braços.

Alabê cura o centurião dos seus ferimentos e sepulta o filho deste, pedindo a proteção dos orixás e egunguns. Fazem amizade e, agradecido, o centurião o convida a ir a Roma.

Por seus conhecimentos médicos, se torna esculápio do exército romano. Quando Pôncio Pilatos é designado governador na Judeia, ele vai para a Jerusalém e lá́ conhece Judite, uma mulher da Cesareia que era seguidora de Jesus Nazareno. Com ela contrai matrimônio.

Alabê se torna discípulo do Divino Mestre, e o acompanha durante todo o seu apostolado, até a morte infame na cruz.

Depois que Jesus é crucificado e morto, o casal foge para a Galileia e, após longos 20 anos de afetuosa convivência, sua amada Judite morre. Alabê migra mais uma vez, e vai acabar os seus dias solitário, no deserto.

2.000 anos depois, Alabê de Jerusalém baixou num terreiro de Umbanda para a sua história contar, e exige respeito para com o seu evangelho yorubá.

Já que você deu licença pra esse nego falar,

Não duvide da cabeça que tem coroa ou cocar.

Nenhuma auréola resiste ao tempo sem se apagar,

Se não tiver a serviço de Deus ou de um Orixá.

Preto-velho vem de longe, minha crença tem estrada.

Moço, exijo respeito, a sua voz é “macriada”!

Não seja tão leviano, respeite minha Aruanda!

Tem quase cinco mil anos de existência a minha banda!

Esse é o fio condutor do livro Ogundana e da opera negra Alabê de Jerusalém, de Altay Veloso. Peça literária concebida pelo autor e orientada pela sabedoria dos pretos-velhos, que a Altay vinham mediunicamente inspirar.

Um pouco dessa história o autor nos contou, em memorável noite do Sarau de Itapuã, na Casa da Musica — mais uma produção cultural de Amadeu Alves, que nos presenteou com está brilhante pedra fina.

Ah… e não faltou a canja artística de virtuosos músicos e cantores, a participação especial de Margareth Menezes e dos jorjamadianos personagens do bairro de Itapuã: dona Salvadora e seu Reginaldo.

Emocionou toda a plateia quando Altay Alabê Veloso cantou, em feitio de oração, a seguinte cena operística: no sétimo dia após a morte de Jesus, muitas mulheres iam ao Gólgota relembrar e louvar o Messias Crucificado. Uma dessas mulheres, inconsolável, chora pelo seu filho morto. Era a mãe de Judas Iscariotes que, ao encontrar Maria de Nazaré implora a Divina Mãe que perdoe o seu filho, traidor do seu melhor amigo, Jesus.

A Mãe de Piedade, Mãe da Compaixão, na sua infinita misericórdia conforta o coração daquela outra mãe, tão desesperada.

Ó Mãe da Consolação, nos momentos de amargura, confortai a nós também.

 

Veja e ouça a ópera Alabê de Jerusalém, de Altay Veloso:

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.