À direita, de novo | Por Márcio Pochmann

Marcio Pochmann é presidente da Fundação Perseu Abramo, economista e professor da Unica.

Marcio Pochmann é presidente da Fundação Perseu Abramo, economista e professor da Unica.

Após a unificação em torno do golpe de 1964 e sua longeva hegemonia durante a ditadura militar, a direita no Brasil se fragmentou suficientemente para perder importância relativa a partir da retomada do regime democrático na segunda metade da década de 1980. Apesar de silenciosa, a direita conseguiu manter-se minimamente ativa e aguerrida aos seus interesses para manter a transição política pelo alto do autoritarismo à democracia. Ou seja, sem a participação popular, como na derrota das eleições diretas em 1984, bem como na presença importante nos governos neoliberais de Collor (1990-92) e Cardoso (1995-2002).

Com a ascensão dos governos de composição petistas desde 2003, a direita reduziu-se consideravelmente. Juntando as agremiações partidárias do campo conservador, nota-se a sua redução de 42,1%, em 1998, para 33,2%, em 2006, no total da participação dos parlamentares brasileiros eleitos. Isto é, uma queda de 21,1% entre os anos de 1998 e 2006.

Mas a partir da reeleição do presidente Lula, em 2006, que a direita voltou a gradualmente se unificar e atuar organizadamente em várias frentes do espectro político nacional. O ressurgimento da direita no Brasil encontra-se cada vez mais disperso no interior dos meios religiosos, policiais e jurídicos, como exemplo do crescimento das pautas conservadoras da família, gênero e segurança pública.

Também se percebe a reorganização da direita através da atuação direta nos meios de comunicação, seja pela imprensa monopolizada em poucas famílias, seja pela internet e redes sociais. Nas ruas e manifestações, a direita voltou a se fazer presente, especialmente pela manipulação do ideário neoliberal no interior da classe média tradicional.

No sistema partidário, a ascensão da direita se apresenta ainda mais significativo a partir da segunda metade dos anos 2000. Se em 2006, a representação parlamentar nas agremiações partidárias conservadoras contava 33,2% do total dos parlamentares eleitos, em 2014 passou a ser de 43,5%, o que implicou crescimento de 37% na direita no legislativo federal.

Nos dias de hoje, a pauta econômica da direita brasileira requer mais do que reformas neoliberais de segunda geração, com a desconstitucionalização dos direitos sociais gravados na Constituição Federal de 1988. Defende a derrocada dos setores empresariais ainda descontaminados dos capitais estrangeiros, como na engenharia nacional.

Também constam do ânimo recente da direita, a recuperação dos valores conservadores e o esforço contínuo pela inviabilização das forças progressistas. Nesse sentido, há o traço continuado da trajetória direitista brasileira se colocar sempre em contraposição à possibilidade de construção de um país justo e democrático.

A direita tradicional não reivindica a defesa do passado e seus valores, como se verifica em outros países, até porque o passado no Brasil tem sido em geral, muito inferior ao presente. Por isso que os conservadores de hoje tampouco defendem, por exemplo, os anos de 1990, mas se apresentam contrários aos avanços que foram possíveis de ser construídos desde o ano de 2003.

Para maiores detalhes sobre os avanços recentes dos conservadores no Brasil, sugere-se a leitura do livro “Direita, volver!” de 2015 que foi organizado por Sebastião Cruz, André Kaysel e Gustavo Codas lançado pela Editora da Fundação Perseu Abramo. O livro encontra-se gratuitamente disponível no site da Fundação Perseu Abramo.

*Marcio Pochmann é presidente da Fundação Perseu Abramo, economista e professor da Unicamp.

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