Fraude da Volkswagen e o capitalismo sociopata | Por Luiz Flávio Gomes

 Luiz Flávio Gomes é jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil.

Luiz Flávio Gomes é jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil.

De repente a explosão, como se fosse uma bomba de Hiroshima: é o Dieselgate da Volkswagen (trapaças nos testes de emissão de poluentes nos seus carros a diesel; os testes fraudulentos dos laboratórios não tinham nada a ver com as análises das ruas). Ou seja: vendia-se gato por lebre. Mais de 11 milhões de carros adulterados (500 mil somente nos EUA), por meio de um software sofisticadíssimo (típico dos grandes golpes corporativos). Ela será processada e punida em muitos países. Somente nos EUA calcula-se que pode ser multada em mais de 18 bilhões de dólares. Graves danos para a saúde pública (e ao meio ambiente), que foram descobertos por acaso, quando se faziam testes nas ruas (caso típico de serendipidade). Como em todo incomensurável escândalo corporativo, pedido de desculpas e demissão do presidente da companhia (que não teria conhecimento do fato).

Mas o Dieselgate não é o único caso de conduta antissocial e criminosa da Volkswagen: na Espanha (setembro/15) ela se livrou uma pesada multa por ter confessado e denunciado um cartel formado com várias outras companhias do ramo para enganar o consumidor (violando-se as regras do mercado fundado na concorrência) (veja Miguel Ángel Noceda, El País: 24/9/15). A Das Auto se descarrilhou e está chafurdada num tipo de capitalismo nefasto, que deveria ser corrigido o mais pronto possível.

Caiu a máscara da “simpatia superficial” (superficial charm) da Volkswagen pelo público, pelo meio ambiente, pelas regras do jogo do mercado. Mesmo sendo a maior fabricante de veículos do mundo (mais de 10 milhões por ano), com faturamento quase incontabilizável, sucumbiu à idolatria do dinheiro (ganância desmesurada), que demarca um tipo de capitalismo que poderíamos chamar de sociopata (sociopatas são os psicopatas não violentos[1]), posto que muito pouco parecido com o (louvável) capitalismo distributivo. Esse capitalismo sociopata também pode se exprimir pela forma de carteis (tal como os ocorridos na Petrobras, Metro de São Paulo etc.).

A Volkswagen, como líder do mercado mundial automobilístico, não tinha nenhuma necessidade de promover falcatruas para engordar seus ganhos (até porque já contava com tecnologia de ponta mais que suficiente para manter sua posição de liderança). Assumiu mais riscos do que todo empreendimento exige, sendo incalculáveis agora os danos materiais (já se falava em 26 bilhões de euros logo após o escândalo) assim como para sua imagem (e do próprio e respeitado capitalismo “renano” – Made in Germany, que já tinha sofrido forte abalo com as falcatruas licitatórias da Siemens).

Trasladando para as corporações as características dos sociopatas (fazendo-se os ajustes devidos – mutatis mutandis[2]), não há como deixar de reconhecer que muitas delas, no mundo narcisista do capitalismo sociopata, padecem de gravíssimos “distúrbios comportamentais antissociais”, cujo padrão generalizado (conforme a American Psychiatric Association) “reside na desconsideração dos outros assim como no desrespeito aos direitos alheios”. Por força de um rebuscado planejamento de marketing, desenvolvem uma “capacidade inigualável para atrair e seduzir as pessoas à sua volta, pela fala fácil (propagandas sedutoras), por um falso interesse pelos outros, pela facilidade de convencimento, enfim, pelo uso da sedução no exclusivo interesse próprio, sem qualquer preocupação genuína pelo outro” (Kari Nars, citado).

A Volkswagen caiu na armadilha da fraude verde (veja David Trueba, El País: 25/9/15), que é a “destinada a apaciguar la conciencia ecológica de los ciudadanos con promesas, avances y medidas más cosméticas que reales. De lo que estamos hablando es el esfuerzo de industrias muy contaminantes por presumir publicitariamente de una conciencia ecológica de la que carecen. La propaganda pseudoecológica tiene que frenarse como se intentó frenar la escalada del producto bio en la alimentación. Los baremos tienen que ser ciertos y los lemas ambientales solo pueden permitirse tras un esfuerzo sincero y un control riguroso”.

Muitas das corporações que se dobram (predominantemente) aos encantos da idolatria do dinheiro possuem não apenas “uma inteligência coletiva” acima da média (que o diga o software empregado pela Volkswagen para burlar os testes de laboratórios nos EUA), senão também o propósito monopolizador da defesa intransigente do motivo monetário. Friedman (um dos expoentes máximos da famosa Escola de Chicago) afirma que “poucas tendências poderiam minar tão completamente os próprios fundamentos da nossa sociedade livre quanto a aceitação, por parte dos dirigentes de empresa, de uma responsabilidade social outra que não a de fazer tanto dinheiro quanto for possível para os seus acionistas”.[3]

As corporações sociopatas ainda se notabilizam (no mundo do capitalismo respectivo) (a) pela forte autoestima, egocentrismo e egoísmo, (b) tendência a nada revelar sobre sua vida desconhecida do público, (c) pela mentira patológica e desonestidade. (d) desrespeito às leis e aos costumes (às regras do jogo do mercado), (e) narcisismo e falta de solidariedade (apatia ou desconsideração dos interesses dos outros), (f) ausência de remorso ou sentimento de culpa, (g) comportamento antissocial, (h) sentimentos superficiais, (i) ganhos parasitários, (j) sentimento falso de que são vítimas (não delinquentes), o que lhes incentiva a usar outras pessoas para alcançar seus interesses escusos, (k) incapazes de assumirem (ao menos com sinceridade) suas responsabilidades pelas ações, (l) impulsividade, (m) ambição desmedida e tenacidade etc.

A megafraude da Volkswagen vai muito além dos prejuízos imensos que ela enfrentará por gerações, posto que coloca em xeque também as agências públicas reguladoras e controladoras do mundo do mercado (que deveria ser sempre competitivo). Do ponto de vista do cidadão, não há como não reconhecer nisso a famosa “síndrome da orfandade”, descrita por Jesús Mota (El País: 25/9/15) da seguinte maneira: “El ciudadano —sea en su calidad de cliente, consumidor o contribuyente— confía en que existe un sistema de supervisión eficaz para impedir desastres como el de las hipotecas basura, las pirámides de Madoff, las preferentes de Bankia, la cleptocracia rumasina o la contaminación de los diésel de VW; pero un buen día o un buen lustro descubre que tales ángeles de la guarda no existen. Nadie va a impedir que le coloquen un infraproducto financiero o un coche contaminante. Y se siente huérfano. Quizá la estafa se descubra después. Pero la cuestión no es esa, sino la de por qué los caros sistemas de regulación o inspección previa, organizados con dinero del contribuyente para evitar engaños y fraudes, pocas veces funcionan (o lo hacen por puro azar)”.

*Por Luiz Flávio Gomes é jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil.

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