Diários escandalosos | Luiz Holanda

Artigo aborda livro de memórias do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Artigo aborda livro de memórias do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, apelidado, ironicamente, de “o príncipe dos sociólogos”, resolveu imitar Getúlio Vargas escrevendo alguns diários abrangendo seus oito anos de governo. Que se saiba, Getúlio só escreveu um, enquanto FHC deverá escrever vários. Nos diários escritos, nenhum deles contribui para esclarecer os fatos que registram, a não ser, talvez, em satisfazer o ego dos seus autores.

O primeiro dos atribuídos a FHC em nenhum momento detalha os fatos publicados pela imprensa relacionados à corrupção em seu governo, por muitos considerada igual ou pior à do desgoverno do PT. Nos oito anos de reinado tucano, o que não faltaram foi escândalos, sempre acobertados e mantidos impunes. Logo no início vieram as denúncias de corrupção e tráfico de influências no contrato de 1,4 bilhões de dólares para a criação do sistema de vigilância da Amazônia (SIVAM), que terminou por derrubar um ministro e dois assessores do corrupto governo desse sociólogo.

Logo em seguida (agosto de 1996) veio a crise dos bancos Econômico (BA), Mercantil (PE) e comercial (SP), que impôs a criação do famoso PROER, um sistema de corrupção conhecido como o Programa de Estímulo à Reestruturação do Sistema Financeiro, que só ao Banco Econômico doou R$ 9,6 bilhões, e cuja CPI terminou por justificar o “socorro” sem publicar a famosa pasta rosa, contendo os nomes de 25 deputados subornados pelo Econômico, segundo a imprensa da época.

No ano seguinte estourou o escândalo dos precatórios, referentes ao pagamento de títulos no Departamento de estradas de Rodagem (DNER). Os beneficiados pela corrupção pagavam apenas 25% do valor dos precatórios, o que permitiu um prejuízo à nação da ordem de R$ 3 bilhões. A sujeira terminou por extinguir o DNER, mas o governo conseguiu impedir a criação de uma CPI para apurar o fato.

Em 1997 vieram as eleições, quando estourou o escândalo da compra de votos para a reeleição do sociólogo, um dos maiores esquemas de corrupção até então existente no país. Gravações telefônicas divulgadas na época colocaram sob forte suspeita a emenda constitucional aprovando a reeleição. A imprensa divulgou que foram pagos R$ 200 mil a cada deputado para votar a favor da emenda, citando, inclusive, os nomes de dois deles: Ronivon Santiago e João Maia, ambos do PFL do Acre. Esses deputados renunciaram aos mandatos e foram expulsos do partido.

Logo em seguida surgiu o escândalo que ficou conhecido como “privataria tucana”. Segundo a imprensa, durante a privatização do sistema Telebrás grampos no BNDES flagraram conversas entre o ministro das Comunicações, Luís Carlos Mendonça de Barros e um dos dirigentes do banco Opportunity, André Lara Rezende, envolvendo a Previ. Na época surgiu a notícia de uma negociata de cerca de R$ 24 bilhões.

Até hoje não se sabe que explicações foram dadas para justificar esses escândalos e outros mais, seja porque as CPIs foram abafadas ou impedidas de funcionarem, seja porque tudo neste país termina em pizza, por maior que seja o escândalo. O Brasil espera que o sociólogo explique, nos volumes subsequentes dos seus “Diários”, o que realmente aconteceu com esses fatos amplamente divulgados. Só não pode dizer que seu governo foi honesto. Isso não.

*Luiz Holanda é advogado, professor universitário e conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/Ba.

Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia.