Assis, ayahuasca, San Francesco e Walter Menozzi

Ayahuasca WalterLançamento inédito, em língua italiana, de um enciclopédico livro intitulado Ayahuasca. La liana degli spiriti. Il sacramento magico-religioso dello sciamanismo amazzonico.

amico Walter Menozzi, italiano, bacharel em Economia e Finanças pela Universidade Bocconi de Milão (Itália) conheceu o Brasil em um intercâmbio universitário no ano de 1998, ouviu falar pela primeira vez do Santo Daime (ayahuasca) – e dele provou.

Vinho das almas, liana dos espíritos, cipó dos mortos. O Daime é o vinho do êxtase espiritual. E depois que provou do vinho do êxtase espiritual Walter soube que nenhuma outra experiência podia ser igual.

Na miração Deus fez com que Walter experimentasse um sagrado estado mental, imerso na paz curativa. A alegria divina o elevou em Espírito. Ao sobrevir o profundo êxtase de Deus os seus pensamentos se aquietaram, banidos pelo comando mágico da alma. Ao beber a bem-aventurança Divina, que é o Daime, experimentou uma embriaguez de alegria que nem todo álcool do mundo poderia lhe proporcionar.

A miração é o estado de comunhão com Deus, quando se transcende a consciência mundana e se percebe o seu ser como Espírito, feito à imagem do Divino. A consciência expandida levou Walter Menozzi ao despertar da sua destinação espiritual, e começar a compreender a Missão que lhe era reservada. O Daime lhe levou a viajar por outros planos e dimensões.

Ao entrar na vida corporal, por disposição Divina o Espírito perde, momentaneamente, a lembrança de suas existências anteriores e o compromisso espiritual assumido perante Deus. É como se um véu os ocultasse, para que o homem passe pelas provas terrestres — assim como o Nosso Senhor Jesus Cristo foi destinado a passar. Deus em Sua sabedoria quis assim.

Porém, na Santa Luz do Daime Walter compreendeu que a memória divina é eterna. E a memória divina residia nele como Uma parte do Todo que se individualiza através do Espírito. Ao retirar o véu que encobre a Verdade Walter ligou-se firmemente ao seu aspecto eterno, a sua essência — que é Deus. E assim começou o seu retorno à casa do Pai.

Walter Menozzi se tornou um adepto da Doutrina do Santo Daime (fardado), e aqui no Brasil residiu por alguns anos, inclusive na longínqua Vila Céu do Mapiá (Pauini-Amazonas), sede mundial de importante vertente da religião.

Este simpático e risonho italiano, humilde como São Francisco, fala um português fluente, com forte sotaque caboclo. É um dos responsáveis pela internacionalização da Doutrina, pois fundou no seu país um centro de pesquisa denominado Stella Azurra (em Reggio Emilia) e é dirigente da Igreja Daimista Regina della Pace (Assis-Itália).

Uma contribuição de Walter Menozzi ao estudo da ayahuasca é o lançamento inédito, em língua italiana, de um enciclopédico livro intitulado Ayahuasca. La liana degli spiriti. Il sacramento magico-religioso dello sciamanismo amazzonico. Tive a felicidade de ser presenteado com um exemplar autografado, e do livro tecerei algumas considerações.

Este economista de formação e profissão realizou um estudo pessoal de antropologia, etnobotânica e história das religiões para escrever um erudito e bem sistematizado livro. A disciplina e esforço de Walter o elevou à condição de referência no estudo da ayahuasca naquele divertido e alegre país, assim como um concorrido conferencista.

Eu e minha consorte, a muito amada Cecília, tínhamos o sonho de passar o 4 de Outubro — Dia de São Francisco – em Assis-Itália, terra do Venerado Santo. Comentei isto com o amigo Saturnino Brito, dirigente daimista acreano, e este me falou que a Comitiva Luiz Mendes estaria em Assis naquela ocasião (2014).

Pronto! Arrumamos as malas e naquela magnânima data estávamos bailando e cantando para Jesus Cristo e a Rainha da Floresta, em louvor ao Poverello de Assisi. Nossa ‘comitiva’ era um tanto quanto numerosa, composta do casal e mais as amigas Denny, Daniela, Margot e Sheila. Uma quase invasão baiana.

Naquela tarde-noite mágica de 4 de outubro de 2014, veneramos este santo maior da cristandade com um linda seleção de hinos. Momento memorável foi cantar em ‘portuliano’ o encantador refrão:

Viva San Francesco

Viva San Francesco

Viva San Francesco

O dono desta Casa hoje.

Na oportunidade, usei da palavra e proferi uma singela homenagem ao Mestre Conselheiro Luiz Mendes do Nascimento, com tradução simultânea ao italiano por Walter Menozzi, ao qual tributo aqui a minha gratidão pela ótima recepção e generosidade.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=TgxXvyvgZk4

Agora, vamos ao livro.

Ayahuasca. La liana degli spiriti trata de muitos assuntos, é um verdadeiro compêndio. Destacaremos, a seguir, um importante tema, que é a situação jurídica do Santo Daime no exterior, tratado no Capítulo 11, Storiografia del riconoscimento giuridico dell’a ayahuasca.

A internacionalização do Santo Daime

O sr. Sebastião Mota de Melo, Padrinho Sebastião, “explande” a Doutrina do Santo Daime (anos 1980) para o Sudeste brasileiro. Também nesta década o Daime ultrapassa a fronteira e chega ao exterior em cerimônias informais, com o uso da bebida e, posteriormente, em rituais mais estruturados. Atualmente, na Europa, há grupos daimistas em países como Espanha, Bélgica, Holanda, Alemanha, França, Portugal e Inglaterra. Na Itália o Santo Daime aporta em meados dos anos 1990, com a formação de dois centros (Assis e Gênova),

Segundo Assis (2013) o Santo Daime chega a Europa com forte identificação étnica, como religião da Amazônia. As plantas utilizadas no preparo da bebida são originárias da América Latina e podem ser encontradas quase que exclusivamente nesse ambiente. O fundador da Doutrina e a principal sede da vertente expansionista daimista são brasileiros. A partir de 1992 as comitivas — conjunto composto por cantoras, músicos e lideranças — ganham importância na “transnacionalização” do Daime.

Característica marcante da expansão é que os principais hinários são cantados em português, e o grupo de adeptos tem algum tipo de relação com o Brasil, valorizando seus costumes, sua língua e sua cultura, No caso europeu, o Brasil e os países sul-americanos mantém o monopólio da produção de Daime e da ayahuasca, pois o clima e a austeridade política e jurídica destes países são impedimentos para que a bebida seja produzida no continente.

O cenário europeu é bastante múltiplos e bem diferente do brasileiro em relação à situação legal do Daime. Embora os discursos de legitimação apresentados pelas igrejas daimistas europeias se pautem pela garantia da liberdade religiosa (amparada pela European Convention on Human Rights – ECHR), a situação legal do Santo Daime varia de um lugar para outro. Alguns países adotam uma postura bastante rígida quanto a essa denominação religiosa. Na Alemanha, por exemplo, o uso da ayahuasca é proibido, e já houve casos em que adeptos foram presos e intimidados pela polícia, o que coloca os grupos daimistas na clandestinidade, os torna menos organizados e dificulta a obtenção da bebida (Assis, 2013).

Já na Holanda, existe a liberdade dessa expressão religiosa, ainda que inconclusiva do ponto de vista jurídico, o que permite a divulgação livre dos encontros e a sua estruturação institucional. Processos jurídicos envolvendo a legalização dessa religião também ocorrem em outros países europeus.

Forte repressão, com a detenção massiva de adeptos já correu em países como Itália, França e Alemanha. Em 1994, uma das primeiras investidas das autoridades contra daimistas no exterior foi feita na Alemanha, como já expresso, seguida de uma matéria sensacionalista sobre o grupo no Der Spiegel. No mesmo ano, dois líderes do Santo Daime da Holanda foram presos e enquadrados pela violação da lei holandesa sobre drogas. Também data da mesma época uma grande blitz policial em um acampamento daimista na Alemanha, que contou com contingente de aproximadamente 100 oficiais fortemente armados (Assis e Labate, 2014).

Em 2000, na Espanha, dois líderes daimistas foram detidos: o saudoso caboclo guerreiro Chico Corrente e Fernando Ribeiro, que registrou magistralmente este momento no livro “Os Incas, as Plantas do Poder e um Tribunal Espanhol” (Editora Mauad, 2005), na forma de memórias do cárcere.

Pergunta: no limiar do Século XXI, a ex-inquisitorial Espanha iria enviar à fogueira representantes do Cristianismo da Floresta? Mais um crime seria perpetrado contra os ameríndios?

Vozes importantes de personalidades da vida religiosa se alteiam em defesa da Doutrina do Santo Daime: os teólogos Leonardo Boff e Frei Beto, o bispo D. Mauro Morelli e outros representantes da sociedade civil brasileira, o que muito contribuiu para a libertação destas vítimas do Estado Espanhol.

Na França, a situação proibitiva merece atenção especial por sua peculiaridade. Após uma longa batalha jurídica do Santo Daime, a Corte de Apelações de Paris concluiu que a ayahuasca não estava sob controle jurídico no país. Isso, entretanto, não se traduziu em uma maior liberdade do Daime em território francês. Ao contrário, apressou o governo a proibir as próprias plantas usadas na produção da bebida. A ayahuasca foi classificada como produtos sectoidal, ou seja, associada à “lavagem cerebral” e ao pejorativo epíteto de “seita” e tratada com suspeita e desconfiança (Assis e Labate, 2014).

Aliás, certa vez, em conversa com um líder daimista do Norte do país, este afirmou que na Europa, principalmente na Holanda que tem uma legislação tolerante com substâncias psicoativas, o maior empecilho para legalizar o Daime não é a bebida em si, e sim a suspeita — por parte das autoridades e da opinião pública anticlerical — que se trate de seita fanática como aquelas que praticaram, no passado, suicídio coletivo.

Esses conflitos não implicaram em impedimento à internacionalização do Daime. Assis e Labate (2014) catalogam igrejas, centros ou “pontos” de Daime em todos os “continentes habitados”: pelo menos em 43 países.

Após listar tantos revezes, algumas auspiciosas notícias: a Corte Superior em Amsterdã̃ (Holanda) emitiu sentença favorável sobre a liberdade do Santo Daime (2012), após longo processo no qual o principio da liberdade religiosa presente na Convenção Europeia dos Direitos Humanos (ECHR) se sobrepôs à proibição do DMT e à legislação holandesa sobre drogas.

A Igreja do Santo Daime da Espanha solicitou a sua inclusão no registro de organizações religiosas em junho de 2002, negada pelo diretor geral de assuntos religiosos. Entretanto, como a legislação espanhola exige que a resposta ao pedido de registro seja feita em até seis meses após a solicitação, o Santo Daime acabou sendo reconhecido como entidade religiosa por conta de “silêncio administrativo”.

O Daime na Itália

Como já foi dito, o Daime chega à Itália em meados dos anos 1990, com a constituição da igreja de Assis e também em Gênova.

Buscando regularizar sua situação jurídica, em junho de 2003 é apresentado junto à Prefettura dela Repubblica di Perugia o pedido de reconhecimento jurídico do Culto do Santo Daime, seccional italiana do Cefluris brasileiro, com sede em Assis.

Enquanto aguarda posicionamento do Estado italiano, eventos se sucedem: foram confiscados 37 litros de Daime destinados ao uso religioso e, logo após, 21 daimistas foram encarcerados (2005), acusados de tráfico internacional de drogas. Entre os detidos encontravam-se uma jovem grávida e profissionais como arquiteto, comerciários, professores… indivíduos de cinquenta ou sessenta anos de idade, sem nenhum antecedente criminal. Esse incidente foi acompanhado pela mídia local com cobertura sensacionalista que descrevia o Daime como uma seita satânica baseada em magia negra e rituais orgiásticos.

Em pleno Século XXI, será que o Império Romano continuaria a promover mártires? Com calúnias e difamações antes do espetáculo de extermínio de cristãos nas arenas?

Após uma longa e sofrida batalha jurídica, o Tribunal de Perugia arquivou o processo (2006), atestando que a prática religiosa não promovia dano algum à saúde ou a ordem pública, libertando os acusados.

Na continuação, o Iceflu (ex-Cefluris) foi registrado na Agência Italiana de Governo (2008), seguido pelo reconhecimento em 2009 de que a ayahuasca não está incluída na lista de substâncias controladas e, portanto, não está proibida pela lei italiana.

Walter Menozzi conclui o seu livro, após o extenso relato da luta pela liberdade de culto, lembrando as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo aos fariseus:

— O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado (Marcos 2:27).

Apontando as contradições e paradoxos jurídicos e legais pelos países do mundo, Walter parodia o Divino Mestre e indaga:

— A lei foi feita para os homens ou os homens foram feitos para a lei?

Surpreende e é admirável que, mesmo sofrendo coações, danos morais e encarceramento físico, os adeptos europeus da Doutrina do Santo Daime não abdiquem da sua fé nem de práticas religiosas. Recorda os mártires cristãos do começo da história, e das palavras do Nosso Senhor Jesus Cristo:

— Se alguém deseja seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e me acompanhe (Matheus 16:24).

E como fruto da coragem e determinação destes atores sociais, nós, viajantes brasileiros em périplo europeu, podemos comungar do Santo Daime com estes irmãos e irmãs de vários países, na terra sagrada onde caminhou São Francisco.

Viva San Francesco!

O quê:

Livro Ayahuasca. La liana degli spiriti. Il sacramento magico-religioso dello sciamanismo amazzonico, de Walter Menozzi (Italian) Perfect Paperback – January 1, 2013

Aquisição do livro no site:

http://www.amazon.com/Ayahuasca-sacramento-magico-religioso-sciamanismo-amazzonico/dp/8897864333/ref=asap_bc?ie=UTF8

Bibliografia consultada

ASSIS, Glauber Loures, “Encanto e desencanto: Um estudo sociológico sobre a inserção do Santo Daime no cenário religioso contemporâneo” Dissertação de Mestrado (2013).

ASSIS e LABATE, “Dos igarapés da Amazônia para o outro lado do Atlântico”, Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 34(2): 11-35, 2014

BÍBLIA SAGRADA

MENOZZI, Walter, Ayahuasca. La liana degli spiriti. Il sacramento magico-religioso dello sciamanismo amazzonico, Itália: Edizione Spazio Interiore (2013)

RIBEIRO, Fernando Ribeiro, Os Incas, as Plantas do Poder e um Tribunal Espanhol, Rio: Editora Mauad, 2005.

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: juarezbomfim@uol.com.br.