A queda de Eduardo Cunha da presidência da Câmara Federal

Eduardo Cunha começa a sentir que o apoio político dos conservadores para manutenção na Presidência da Câmara Federal se esvai.

Eduardo Cunha começa a sentir que o apoio político dos conservadores para manutenção na Presidência da Câmara Federal se esvai.

O gabinete do Procurador-Geral da Confederação Suíça anunciou na quinta-feira (01/10/2015) que a Suíça abriu processo penal contra o deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), presidente da Câmara Federal do Brasil, por suspeita de lavagem de dinheiro e bens apreendidos no nome do deputado.

Segundo as autoridades suíças, o processo penal foi aberto “em razão de suspeita de lavagem de dinheiro, posteriormente alargada com corrupção passiva”. A medida foi tomada após a recepção de um “relatório de lavagem de dinheiro de um banco suíço”, em abril de 2015. Após a abertura do processo, ativos de US$ 5 milhões de Eduardo Cunha foram apreendidos pela justiça.

Inicialmente, o deputado negou propriedade sobre os recursos, e negou que fora avisado sobre o bloqueio dos recursos. A versão foi desmentida pelo Ministério Público da Suíça. O órgão afirmou que o parlamentar foi alertado sobre o congelamento do dinheiro.

O governo Brasileiro, a pedido da Procuradoria-Geral da República, requisitou que os autos do processo fossem transferidos para o Supremo Tribunal Federal (STF). No STF, Eduardo Cunha responde por denúncia de corrupção e lavagem de dinheiro. Ele é acusado de receber propina de US$ 5 milhões em contratos de navios-sonda da Petrobras. O envolvimento de Eduardo Cunha no Caso Lava Jato foi revelado, inicialmente, pelos delatores do esquema de corrupção.

Perda de apoio

Com o aprofundamento das investigações e denúncias contra o deputado Eduardo Cunha, o bloco de oposição ao governo Rousseff começou a retirar o apoio a manutenção no cargo de presidente da Câmara Federal. Tardiamente, vários parlamentares do PSDB manifestaram publicamente pelo afastamento.

Opositores de Eduardo Cunha, PSOL, PT e PPS ingressaram com representações no Conselho de Ética com a finalidade de abertura de processo e afastamento do presidente.

Discurso ambíguo

O presidente da Câmara Federal sintetiza a ambivalência de valores políticos percebidos na sociedade brasileira e reificados na Câmara Federal. Apoiado por prosélitos e vestais da ética, a presença de Eduardo Cunha na presidência da Câmara Federal representa o sentido anverso. A ambiguidade discursiva dos apoiadores indica o que realmente está em jogo no poder, o saque a Nação.

Observando as provas colacionadas nos autos dos processos a que responde, a manutenção de Eduardo Cunha na presidência da Câmara Federal é explicada pela união de forças conservadoras que representa. Os conservadores postulam um discurso pela moralidade, mas a partir dos fatos e documentos observados, conclui-se que eles manipulam o discurso com a finalidade de manter inconfessáveis esquemas de corrupção. Esquemas que coexistem na República por décadas, mas que apenas recentemente foram revelados.

Exemplo histórico é narrado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. No livro de memórias ‘Diários da Presidência’, a ser lançado esse mês, ele relata que no período em que presidiu o país foi procurado pela bancada de deputados do Rio de Janeiro com a finalidade de indicar Cunha para uma diretoria na Petrobras. Fernando Henrique rejeitou a nomeação, registrado em gravações:

– O Eduardo Cunha foi presidente da Telerj, nós o tiramos de lá no tempo de Itamar Franco porque ele tinha trapalhadas, ele veio da época do Collor. Eu fiz sentir que conhecia a pessoa e que sabia que havia resistência, que eles estavam atribuindo ao Eduardo Jorge; eu disse que não era ele e que há, sim, problemas com esse nome. Enfim, não cedemos à nomeação”.

Perda de oportunidade

A saída de Eduardo Cunha da presidência da Câmara Federal é uma obviedade. Lamentavelmente, as forças conservadoras submetem a Nação a ser representada, no Poder Legislativo, por um político que responde a processo penal por corrupção na Europa e a inquéritos no Brasil.

Além desse decadente legado histórico de representação, o período em que comandou a presidência da Câmara Federal é marcado pela perda de oportunidade no sentido de legar ao país uma reforma política progressista, instituindo mecanismo que diminuíssem a força do capital no processo eletivo, e que ampliassem a representação das classes sociais.

Observar-se que além de ter comandado uma reforma política que não atendeu as necessidades e posicionamentos do povo brasileiro, Eduardo Cunha também é responsável pelo atraso na aprovação das reformas econômicas necessárias ao restabelecimento do crescimento do país.

Observa-se, também, que ao utilizar a presidência da Câmara Federal como arma de guerra pelo poder contra a presidência da República, Eduardo Cunha colocou, de forma evidente, os interesses pessoais em primeiro plano. Nesse aspecto ele não está sozinho, os 512 deputados que o apoiam estão bem representados.

Triste país.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.