Os filhos dos generais | Por Luiz Holanda

João Baptista de Oliveira Figueiredo foi um geógrafo, político e militar brasileiro, tendo sido 30º Presidente do Brasil de 1979 a 1985 e o último presidente do período do regime militar. Artigo aborda os governo dos militares.

João Baptista de Oliveira Figueiredo foi um geógrafo, político e militar brasileiro, tendo sido 30º Presidente do Brasil de 1979 a 1985 e o último presidente do período do regime militar. Artigo aborda os governo dos militares.

O governo do último general-presidente, João Batista Figueiredo, intensificou a abertura política pressionado por uma enorme crise econômica e pelas manifestações populares em prol da democracia. Logo que assumiu o poder, o general aboliu o sistema bipartidário e promoveu uma anistia abrangendo os militares e os perseguidos políticos, inclusive devolvendo, aos cassados, seus direitos políticos. O MDB, que fazia uma tênue oposição ao regime, virou PMDB, enquanto a ARENA se transformou no Partido Democrático Social (PDS), abrigando os beneficiários da ditadura e os militares da chamada linha dura.

Muitos milicos, principalmente os torturadores, não viam com bons olhos esse processo de abertura política. Daí as tentativas de boicotá-lo com atos terroristas, como o que ocorreu no Rio Centro em 30 de abril de 1981. Um dos envolvidos, sargento Guilherme Pereira do Rosário, morreu durante a explosão de uma bomba que seria plantada no palco do comício que acontecia naquele momento. A bomba estava em seu colo, no carro que o transportava. O outro comparsa, capitão Wilson Dias Machado, sobreviveu para receber as promoções normais da carreira: hoje é coronel, atuando, até algum tempo atrás, como educador no Colégio Militar de Brasília.

Figueiredo deixou o poder completamente pobre. Não tinha dinheiro, sequer, para manter o sítio do Dragão, em Petrópolis, para onde se retirara. Teve de vender, primeiramente os cavalos; depois, o próprio sítio. Morreu em 1999, em seu apartamento no bairro de São Conrado, Zona Sul do Rio de Janeiro. Sua viúva, recentemente falecida, foi obrigada a organizar um leilão dos objetos pessoais do marido para pagar as despesas da casa. Essa atitude foi bastante criticada pela imprensa, que pouco se incomodava com as agruras financeiras da ex-primeira dama, que vivia da pensão militar deixada pelo general: R$ 8.865.

Outro militar, coronel do exército Mário Andreazza, foi Ministro dos Transportes nos governos Costa e Silva e Médici. Responsável pela construção da ponte Rio-Niterói, obra que teve empréstimo inglês de dois bilhões de dólares, também morreu pobre. Seus 37 colegas de turma fizeram uma vaquinha para que o seu corpo pudesse ser trasladado para o Rio Grande do Sul, sua terra natal. A filha de Geisel, Amália Lucy, professora do Colégio Pedro II, ia de casa para o trabalho de ônibus, mesmo sendo seu pai presidente da República.

Dulce e João Figueiredo tiveram dois filhos, Paulo Roberto e João Batista Figueiredo Filho. O primeiro publicou um artigo na internet explicando as razões pelas quais seu pai se recusou a patrocinar a Copa do Mundo no Brasil na década de 80. Figueiredo não aceitava tirar bilhões de dólares da saúde e da educação para gastá-los com futebol e propina. Paulo Roberto acha que o que estão fazendo com o povo nessa copa é simplesmente criminoso, pois a roubalheira na construção dos estádios é apenas a ponta do iceberg.

Realmente, o grito do povo nas ruas das principais cidades brasileiras demonstra que a corrupção nas construções dos estádios e na preparação desse megaevento ainda vai render muito. É bem possível que a prova incontestável da modesta vida dos generais-presidentes –que também abarca a dos seus filhos-, sirva de parâmetro para o brado contra a corrupção, pois eles não se aproveitaram do poder dos pais para enriquecer. Já os herdeiros dos presidentes-civis, pelo o que foi denunciado pela imprensa, ficaram milionários durante o tempo em que seus pais “governaram” o país. Todos os generais-presidentes morreram pobres. Os presidentes civis – tanto os que se foram como os que ainda vivem-, não podiam nem podem se queixar da vida; tampouco os seus filhos. Considerando, como dizia Cícero, que a história é a testemunha dos tempos e a luz da verdade, a ela caberá julgar os crimes dos generais-presidentes contra os direitos humanos – por ação ou por omissão. Seja qual for o veredito, ela registrará que, do ponto de vista exclusivamente pessoal, todos eles, sem exceção, eram honestos. E seus filhos também.

*Luiz Holanda é advogado, professor universitário e membro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA.

Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia.