O retorno da corrupção | Por Luiz Holanda

Luiz Holanda é advogado, professor universitário e conselheiro do Tribunal de Ética da OAB/BA.

Luiz Holanda é advogado, professor universitário e conselheiro do Tribunal de Ética da OAB/BA.

Muita gente ainda não sabe a origem do mensalão, o escândalo que abalou o governo do ex-sindicalista Lula da Silva. Tudo começou em 14 de maio de 2004, quando a imprensa divulgou, em vídeos e manchetes, a imagem de um diretor da Empresa Brasileira dos Correios e Telégrafos (ECT), Maurício Marinho, recebendo propina de um empresário. Esse diretor havia sido indicado pelo PTB, cujo presidente, à época, era o deputado federal Roberto Jefferson.

Esse deputado, em 6 de junho de 2005, denunciou que o governo do presidente Lula, através do PT, fazia pagamentos mensais aos congressistas da base aliada em troca de apoio político. O deputado, nessa ocasião, chamou a mesada de “mensalão”, que passou para a história como um dos maiores escândalos de corrupção no país.

O neologismo mensalão foi apenas popularizado pelo denunciante, pois, nos bastidores, esse termo já era utilizado pelos próprios corruptos quando se referiam ao evento. O caso teve como protagonistas alguns integrantes do governo, membros do PT, do PMDB e de outros partidos da base aliada.

O ex-sindicalista Lula da Silva, que hoje alega que o mensalão não existiu, disse, na ocasião, que se sentia “traído por práticas inaceitáveis e indignado pelas revelações que chocam o país e sobre as quais eu não tinha qualquer conhecimento” Em seguida, desabafou: “Não tenho nenhuma vergonha de dizer que nós temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas. O governo, onde errou, precisa pedir desculpas”. Ao confessar o erro, Lula nos fez lembrar Petros Alphonsi: “É razoável absolver de sua pena quem confessa o próprio pecado”.

Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da justiça do PT, foi quem o salvou quando o escândalo ameaçou atingi-lo. Na época Bastos mandava e desmandava no Supremo Tribunal Federal (STF), pois havia indicado 6 dos 11 ministros desse tribunal. Estrategista e ligado, por força do cargo, aos corruptos (a imprensa divulgou, posteriormente, essa ligação), só não os libertou imediatamente porque os ministros do STF tiveram medo de garantir a tradicional impunidade dos criminosos de colarinho branco. Mesmo assim, após algum tempo, todos foram para casa.

Logo em seguida veio o Petrolão, esse sim, o maior esquema de corrupção até hoje descoberto. Esse escândalo desgastou tanto a imagem do “Filho do Brasil” que ele quer voltar para resgatá-la, conforme declarou para alguns companheiros que o aplaudiam. Eleito sob o discurso da ética na política, seu governo é considerado o mais corrupto de nossa história. Sair candidato agora é uma temeridade, pois os seus inimigos dirão que isso significa o retorno da corrupção. Lula sabe que o desenrolar dos escândalos afetou sobremaneira a sua credibilidade, tanto como ex-sindicalista como ex-presidente da República.

Se a corrupção aumentou quando ele era presidente, é bem provável que, numa suposta volta, não consiga impedir o seu retorno. E se isso acontecer, o povo não aceitará mais as suas desculpas, até porque os corruptos, que certamente lhe exigirão proteção, lhe lembrarão de que, neste país, para se manter no poder, é preciso transigir com a roubalheira, pois, como dizia Shakespeare, se os altos cargos não fossem frutos da corrupção “Quantos, que comandam, não estariam entre os comandados?”.

Um povo que aceita a corrupção como uma coisa normal é um povo corrompido, e como já dizia o Marquês De Maricá, “Um povo corrompido não pode tolerar governo que não seja corruptor”. E o governo Lula o foi, mesmo que ele não soubesse ou quisesse.

*Luiz Holanda é advogado, professor universitário e conselheiro do Tribunal de Ética da OAB/BA.

Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia.