O cinquentenário da publicação de “O estudante e a transformação da sociedade brasileira” de Marialice Foracchi

Nilson Weisheimer é Doutor em Sociologia pela UFRGS.

Nilson Weisheimer é Doutor em Sociologia pela UFRGS.

Marialice Mencarini Foracchi tem seu nome gravado na história do pensamento social brasileiro, por ter legado uma obra que é considerada um marco na formação da Sociologia da Juventude no Brasil. Trata-se do livro “O estudante e a transformação da sociedade brasileira, tese de doutorado defendida na USP em 1963 e publicada primeiramente pela  Editora Nacional em 1965. O cinquentenário dessa publicação revela-se como ocasião propícia para revisitar essa obra clássica com o propósito de buscar nela alguns recursos pertinentes à análise de fenômenos juvenis na atualidade. No conjunto de seus trabalhos, Foracchi forneceu-nos análises simultaneamente amplas e profundas sobre os jovens, a condição de estudante universitário e o movimento estudantil.

Em seus estudos Foracchi identificou a juventude, simultaneamente, como uma fase de vida, uma força de renovação social e um determinado estilo de existência. O jovem adquiriu feições concretas como ser socialmente dependente em busca de recursos que lhe permita efetivar a conquista da autonomia. Demonstrou que ele vive sua condição juvenil a partir de certa posição na estrutura social, que é propiciada por sua classe de origem, de tal modo que o conhecimento da juventude pressupõe o reconhecimento de sua situação de classe. Sua compreensão da condição juvenil enfatizou a posição subalterna do jovem face ao adulto e a ambivalência que marca esse processo de transição. Revelou que ao longo dessa transição se efetuam os processos de socialização nos quais se evidencia a construção social do jovem como categoria sociológica. Com isso, revelou como que a juventude, os jovens, os estudantes e o movimento estudantil se constituem categorias sociológicas especificas que trazem as contradições das relações sociais que os constituem. Com efeito, seus estudos oferecem a possibilidade de diferenciarmos as situações juvenis e reconhecermos a existência múltiplas juventudes, por conta das condições de classe e dos processos de socialização experiênciados pelos jovens.

No caso do seu estudo clássico, a categoria singular foi o jovem estudante universitário. Este, por força das contradições de sua vinculação ao modo de produção capitalista, constitui-se como sujeito histórico por meio do movimento estudantil. Compreende esse movimento como essencialmente político e que daria expressão a um radicalismo pequeno burguês, devido a origem de classe do estudante universitário. Deste debate é mister reter que, por intermédio do movimento estudantil, os jovens passaram a figurar como agentes na luta política nacional e incidir na definição da agenda do Estado. Entretanto, como movimento social de massas, ele revela-se inconstante, registrando períodos de ascensão e de refluxos de mobilização. Assim como, assume formas e conteúdos diferenciados conforme a conjuntura política. Levando isso em consideração é possível compreender as mudanças pelas quais passou o movimento estudantil brasileiro e o movimento juvenil em sua apreensão mais ampla.

As obras dos autores clássicos, apesar de terem sido produzidas em outros contextos históricos e sociais, caracterizam-se por preservarem sua atualidade ao passo que suas interpretações detêm um longo alcance e significação teórica, constituindo, por essa razão, pontos de referência para questionamento e investigações sobre os processos contemporâneos. É esse o estatuto que atribuímos ao trabalho de Foracchi, no campo de estudos sobre a juventude no Brasil.

Retomar os temas estudados por Marialice Foracchi atualizando-os a luz das contradições atuais da sociedade brasileira, ou ainda, valer-se de seu legado teórico para pensar as condições sociais de jovens e suas formas de ação em outros contextos são exercícios igualmente desafiadores. Esses poderão ser realizados por quem aceitar o desafio de retomar essa vertente crítica no desenvolvimento da Sociologia da Juventude no Brasil.

*Nilson Weisheimer é Doutor em Sociologia pela UFRGS. Pós-Doutor em Sociologia pela USP. Professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Professor Permanente do PPGCS/UFRB. Vencedor do Prêmio Capes de Teses 2010.

Sobre o autor

Nilson Weisheimer
Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS – 2009), Pós-Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP – 2015), professor adjunto da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS/UFRB), líder dos Grupos de Pesquisa do CNPq: Núcleo de Estudos em Agricultura Familiar e Desenvolvimento Rural (NEAF/UFRB) e Observatório Social da Juventude (OSJ/UFRB), e vencedor do Prêmio CAPES de Teses em Sociologia 2010.