O casamento daimista

Artigo aborda casamento daimista.

Artigo aborda casamento daimista.

O Mestre Raimundo Irineu Serra recebeu a sua missão espiritual das mãos da própria Virgem Mãe, Nossa Senhora da Conceição, lá pelos idos de 1930. Aquela que viria a se chamar a Doutrina do Santo Daime começa então a ser estruturada em sessões ainda pouco ritualizadas, realizadas na forma de orações, ingestão da bebida de origem indígena ayahuasca e a entonação de hinos recebidos do Astral, os cânticos doutrinários.

Por mais de 40 anos o Mestre Irineu Serra continuou a receber hinos e organizar o seu culto, liderando uma irmandade, instituindo um ritual originalíssimo na forma de concentrações (meditações) silenciosas nos dias 15 e 30 de cada mês e o rito do “hinário” ou “bailado”, quando, nas datas festivas do calendário cristão, os adeptos organizam-se no salão em pelotões de formação quadrilátera (ou hexagonal), separados por gênero, cujos movimentos simples do corpo e compasso dos hinos são marcados pelo toque dos maracás, cantando e bailando hinos de louvor a Deus e aos Seres Divinos, assim como cânticos de instrução moral.

Instituiu-se também o fardamento, onde o membro do grupo religioso passa a usar um vestuário próprio, identitário da sua adesão àquele sistema de crenças.

A doutrina do Santo Daime vai passar por dois significativos momentos de institucionalização na década de 1970. A primeira, em 1971, quando o Mestre Irineu Serra encomendou a alguns dos seus ilustrados discípulos a elaboração de um Estatuto para o Centro Livre criado por ele, que doravante passou a se chamar CICLU – Centro de Iluminação Cristã Luz Universal, uma entidade jurídica de direito privado, de caráter associativo, para o progresso do ser humano, e que fazia uso nas suas sessões da bebida ayahuasca ou Daime.

O segundo momento de institucionalização ocorre quando um numeroso grupo de dissidentes, liderados pelo Padrinho Sebastião Mota de Melo, se desfiliam do centro original e fundam o CEFLURIS – Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra, em 1974, com estatuto próprio, carteirinha de sócio, direitos e deveres etc.

Dessa forma, acontece a institucionalização da função religiosa daimista, com a estruturação de duas organizações formais, de tipo misto, carismático-burocrática. A formalização se estabelece com a existência de rituais previamente estruturados e calendário litúrgico; deveres e direitos dos filiados e outras questões características da instituição religiosa.

Quanto à instituição dos sacramentos católico-cristãos na sua organização religiosa, o Mestre Irineu Serra instituiu apenas o sacramento do batismo, que deve ocorrer no hinário de São João – e pode ser facultado para algumas outras datas, como o Natal. Porém, considera-se válido o batismo anterior do adepto à Doutrina do Santo Daime, se este já for batizado em outra denominação religiosa.

Um exemplo disso, do estabelecimento de um único sacramento, é que o próprio Mestre Irineu Serra se casou civilmente e também na Igreja Católica com a jovem Sra. Peregrina Gomes Serra. Desse evento contamos aqui uma espirituosa história envolvendo o Mestre Irineu e o padre celebrante do seu casamento. Pois o padre, sabedor dos seus trabalhos espirituais com Daime, durante a cerimônia cobrou dele um juramento:

– O senhor jura que não vai mais “mexer” com as coisas da hoasca?

E o Mestre Irineu firmemente respondeu:

– Jura!

Assim, mesmo, “jura”… e não o comprometidíssimo “juro”… que lhe traria obrigações morais e de consciência.

Bem, para encurtar essa história é bom lembrar que “Jura” é a primeira parte do sagrado nome de “Juramidã” que pode ser visto como a aglutinação de dois substantivos próprios, Jura e Midã, pois como diz um hino do saudoso Tufi Rachid Amim: “Jura é papai, Midã são seus herdeiros”; ou no dizer do Padrinho Sebastião Mota: “Quem é filho é Midã e o chefe é Jura. Daí o sobrenome é Midã. Quem toma Daime é um dos Midãs”.

O Padrinho Sebastião Mota, que pelo seu carisma, liderança e estima que gozava junto ao seu grupo social, era ao mesmo tempo juiz, delegado, médico e líder espiritual, instituiu o sacramento do casamento na sua organização religiosa. Os centros daimistas que seguem a sua orientação (diga-se: CEFLURIS) celebram o matrimônio dos seus adeptos, institucionalizando assim um ato litúrgico aos já existentes.

O Mestre Conselheiro do CEFLI (Centro Eclético Flor de Lótus Iluminado) Luiz Mendes do Nascimento seguiu essa orientação e também instituiu o ritual do casamento na sua organização religiosa.

Pergunta: é legítima a instituição do casamento daimista? É lícita?

Antes de qualquer reflexão sobre o assunto, cabe dizer que essa função religiosa (o casamento daimista) legitima-se no próprio grupo social que a pratica, é socialmente aceita e não necessita assim de qualquer outra aprovação externa – inclusive em nada contradiz a legislação civil brasileira.

Nas minhas andanças pelo Querido Planeta Acre, em “trabalho de campo” sociológico e antropológico, assisti e participei de cerimônias de casamento que me levaram a considerar pertinente a introdução do sacramento do casamento pelos centros (igrejas) daimistas, a bem dos seus próprios filiados e como um salutar exercício de sociabilidade, de reforço das relações sociais do grupo.

A partir d’agora, vamos descrever, literariamente, a celebração de um casamento daimista.

O casamento daimista  

Após uma longa viagem em estradas e ramais poeirentos e esburacados, no frio verão acreano, chegamos ao centro daimista onde haveria a celebração do casamento de um jovem casal, seguido de festivo hinário de homenagem a São Pedro e São Paulo. Era dia de hinário oficial da casa, e por isso a indumentária trajada era a farda branca, o que deixava os caboclos e visitantes masculinos bem elegantes, e fazia das mulheres fardadas verdadeiras rainhas da floresta.

A Igreja estava ricamente decorada, na simplicidade amazônica. Inúmeras cadeiras brancas distribuídas pelo salão anunciavam celebração concorrida. E assim foi: as principais personalidades do universo daimista acreano compareceram, assinalando prestígio social das famílias dos noivos.

Trinta minutos antes do início da celebração foram distribuídas as fichas de controle para se tomar daime, apenas para os fardados da casa, daimistas e ayahuasqueiros visitantes, sendo opcional aos convidados que não conheciam a santa bebida solicitarem a sua ingestão.

A arrastada e esperada espera da entrada triunfal da noiva – sonho de toda moça em flor – fez com que o burburinho do público silenciasse e forte miração foi se apossando dos convivas. O salão como que vibrava. Virtuosos músicos executavam baixinho singelas valsinhas religiosas.

Até que belíssima valsa é executada num tom mais alto, assinalando o início da cerimônia. Todos se levantam, e adentram o salão a noiva e o seu pai, de braços dados, com andar cadenciado, como se flutuassem. A noiva, formosa como todas as noivas, pronta a ser entregue a atencioso rapagão.

Começa a cerimônia e não recordo com detalhes da liturgia ditada pelo celebrante do matrimônio, carismático líder daimista local. Recordo sim de três significativas passagens: conselhos aos noivos, leitura de edificante passagem bíblica e a entoação de uma formosa “coroa de hinos” evocando o momento.

É feita a leitura da Carta do Apóstolo Paulo aos Efésios, capítulo 5, versículos 22 a 33:

– Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo. Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam em tudo a seus maridos. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, a fim de a santificar, tendo-a purificado com a lavagem da água, pela palavra, para apresentá-la a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim devem os maridos amar a suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Pois nunca ninguém aborreceu a sua própria carne, antes a nutre e preza, como também Cristo à igreja; porque somos membros do seu corpo. Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e se unirá à sua mulher, e serão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu falo em referência a Cristo e à igreja. Todavia também vós, cada um de per si, assim ame a sua própria mulher como a si mesmo, e a mulher reverencie a seu marido.

Ouvindo essas ilustrativas e belas palavras, pensava: quão sábio é aquele que ouve a verdade através do apóstolo do Senhor, e não julga ou faz restrições descabidas aos seus termos. Pois me lembrava das injustas acusações de misoginia e discriminação de gênero a que os infiéis acusavam o apóstolo dos gentios.

A execução de encantadores hinos se sucediam, e um particularmente me tocou. O “Canto de União”.

É preciso prestar atenção

Nesse mistério que há

Um homem e uma mulher

Que Deus pôs para se amar

Dentro desse recinto

Eu sinto todo poder

Todos os nossos carinhos

Consagram o mesmo ser

São tantos os pensamentos

Oceanos a desvendar

Quem segue essa doutrina

O amor não tarda a chegar

Esse é o amor

Que eu tenho para mostrar

Só assim o divino aparece

No lugar onde deve estar

Um homem e uma mulher

Podem bem se amar

Se tratam esse primor

Do jeito que meu Pai quer

Se estamos puros na terra

O Pai e a Mãe vem nos ver

Amar a todos os seres

E não fazê-los sofrer

Há tempo para colher

Há tempo para plantar

Dentro desse jardim

Nós todos devemos amar

Eu faço dessa oferta

Festa no meu coração

Declaro à lua e às estrelas

O canto dessa união.

O encerramento da primeira função religiosa dá início a outras duas: obrigatório para os fardados da casa a permanência no salão para principiar-se o bailado da noite. Aos convidados daimistas e não daimistas há também a apetecível alternativa da recepção degustativa – não excludentes, é claro – em local apropriado, com relativa distância do salão, a beira de formoso açude banhado pelo luar amazônico.

A festa de hinário e casamento se estenderia por toda a madrugada, sendo encerrada com um lauto café da manhã.

Conclusão

A Doutrina do Santo Daime, no seu processo de institucionalização, passou a se organizar na forma de religião. Sobre isso já comentamos em artigo anterior (O Daime é uma religião?). Sendo assim, e relembrando a definição durkheimiana de religião como “um sistema unificado de crenças e práticas relativas a coisas sagradas”, nesse método de institucionalização se inclui práticas sociais importantes para os adeptos da doutrina, como a instituição do casamento, que é de grande significado para a vida social dos indivíduos aderentes a esse sistema de crenças. O homo religiosus é assim moldado pela interação social sob a forma de imagens e ideias culturais em seu processo permanente de socialização.

Argumentar que o próprio fundador da doutrina não se casou dentro dela, e sim em outra denominação religiosa, é olvidar que na década de 1950, quando o matrimônio do Mestre Irineu se realizou, esse fenômeno de institucionalização ainda não ocorria, a organização religiosa sendo ainda de caráter informal. Além, disso, pergunto: quem entre os seus discípulos teria autoridade moral ou institucional sobre o fundador para celebrar o seu matrimônio? Só mesmo recorrendo a uma outra denominação religiosa, como assim o fez o Mestre Irineu Serra, mesmo com todas as restrições que o padre celebrante tinha às “coisas” da ayahuasca.

Entretanto, na atualidade consideramos que as condições estão dadas para o estabelecimento desse sacramento litúrgico – o casamento daimista – entre os ritos religiosos já instituídos. Isso seria deveras salutar para os adeptos do culto, reforçando os laços de solidariedade existentes, constituindo de fato uma irmandade religiosa.

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.