Trabalho Material & Trabalho Espiritual – O Feitio de Daime

Por Juarez Duarte Bomfim

Introdução

 O trabalho há muito vem sendo considerado como um dos aspectos fundamentais da sociedade moderna. PraticamentPd Sebastiãoe todas as coletividades humanas são compelidas a entrar em um “metabolismo com a natureza” através do “trabalho”. O trabalho passa a ser visto como o fato sociológico central, e a sociedade que vivemos considerada como “sociedade do trabalho”.

Associado à ideia de dever/necessidade o trabalho desempenha um papel principal na organização de uma existência pessoal. No nível da integração social, o trabalho pode ser normativamente sancionado como um dever; no nível da integração sistêmica, pode ser colocado como uma necessidade. No primeiro caso o trabalho é o ponto fundamental de uma vida correta e moralmente boa; no segundo, é a simples condição da sobrevivência física.

Estamos falando de uma dimensão que pode ser considerada como “trabalho material”. Entretanto, há um outro tipo de atividade humana que tem sido considerado “trabalho” por aqueles que o praticam, que é a sua participação em rituais mágico-religiosos segundo a terminologia usada pelas diversas religiões e doutrinas espiritualistas brasileiras, a exemplo dos centros espíritas, da umbanda, candomblé de caboclo ou do culto do Santo Daime.

Trabalho material versus trabalho espiritual ou trabalho material & trabalho espiritual. Não há uma fronteira rígida entre essas duas formas de ação humana. Confirma-se isso quando os daimistas (adeptos do culto do Santo Daime) consideram que a sua conduta social, o seu exemplo na faina diária, de homem trabalhador e perseverante, deve ser semelhante à condição de um “bom” trabalhador espiritual.

O trabalho espiritual

Os rituais daimistas são chamados de “trabalho”. Designam uma atividade física por vezes intensa e exaustiva do participante, quando este, seguindo o ritual, está “bailando”, tocando e cantando; como também uma atividade psíquica absorvente e extenuante, mesmo quando este se encontra em postura de aparente relaxamento e repouso nas sessões de concentração.

“No começo, eu estranhara muito esse termo ‘trabalho’. Ele era empregado sempre num sentido de ‘trabalho espiritual’. Fosse uma sessão, uma festa, ou, simplesmente, ficar concentrado, debaixo de uma árvore, ligado nas coisas divinas”.[1]

Uma das formas de desenvolvimento desses trabalhos – “trabalho espiritual” – acontece por meio do transe místico, ao qual se dá o nome de miração,  que no culto do Santo Daime ocorre através da expansão do estado de consciência induzido pela ingestão de uma bebida produzida a partir da combinação do cipó Jagube (banisteriopsis caapi) e da folha Rainha (psychotria viridis).

Esses estados de expansão da consciência são experiências em que a pessoa tem a impressão de que o funcionamento habitual de sua consciência se modifica e que ele vive uma outra relação com o mundo, consigo mesmo, com seu corpo, com sua identidade.[2]

O Feitio de Daime

A Doutrina do Santo Daime está organizada na forma de três principais rituais: hinário (bailado), concentração e feitio do Daime.[3]  Para muitos, o principal de todos os rituais do culto é o feitio, nome dado pelos daimistas ao processo de preparo da bebida. Todas as etapas são previamente estabelecidas de maneira que essa vivência, mas do que um trabalho material de produção de uma beberagem seja considerado um momento de melhoria e cura pessoal.

No feitio do daime, não há uma separação nítida entre trabalho material e trabalho espiritual, ambos se dão num continuum. Isso não surpreende se lembrarmos que estamos escrevendo sobre fenômenos mágico-religiosos, onde “há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”.

Aparentemente há um comandante dos trabalhos, mas “não se deve conversar com a pessoa encarregada, pois ela controla o ponto de fervura da bebida que é indicado por uma entidade do Santo Daime presente no plano astral, manifestando-se no momento em que se completa o cozimento para que a panela seja retirada da fornalha” [4].

Assim como nos outros ritos (hinário, concentração), para a realização do feitio de Daime é feita a separação por gênero e mais do que nunca devem ser mantidos os preceitos costumeiros de abstinência sexual (três dias antes e três dias depois), de bebidas alcoólicas e de alimentação.

As mulheres são responsáveis pela limpeza das folhas e os homens pelos cuidados com o cipó. As etapas posteriores são a “raspação” (raspagem), “bateção” (maceração), cozimento e apuração final do Santo Daime. Estes processos finais são executados por homens.

Quando extrativista, o trabalho de coleta do cipó e da folha é assaz árduo. Divide-se os participantes por grupos de trabalho, sendo reservado aos homens os trabalhos mais pesados, pois é preciso localizar na floresta, cortar e transportar o cipó e a folha, em sacas, para a Casa do Feitio. Há o choque com o sistema de propriedade fundiária, e a extração do vegetal fica a mercê da permissão do proprietário rural. O caráter extrativista-predatório leva à escassez da matéria-prima e aumento das dificuldades de coleta. Algumas igrejas ayahuasqueiras têm suas próprias plantações, dessa maneira o trabalho torna-se mais simples e pode ser realizado por todos.

“O Jagube, o cipó, é o princípio masculino. A folha, a Rainha, o princípio feminino. O cipó dá a Força, a rainha, a Luz. Juntos, através da água, por este veículo que é o Daime, é que este ser espiritual desce até nós” [5].

O ritual de feitio é concebido como uma ocasião privilegiada de purificação e desenvolvimento interior, exigindo silêncio e grande concentração. Nesse momento, mais do que nunca mostram-se relevantes as qualidades espirituais  apregoadas pela instituição religiosa: firmeza, pureza de coração, humildade, disciplina, harmonia, amor, verdade e justiça. Acredita-se que sentimentos e pensamentos tidos pelos produtores durante o fabrico da bebida será passado para este, induzindo os seus efeitos [6].

“Enquanto fazemos esse veículo material, estamos nos fazendo também, através dos vários estágios iniciáticos, do material para o espiritual e deste novamente para o material. Para quem trabalha no daime, o trabalho interior acompanha necessariamente o exterior. Todos são obrigados a desenvolver um elevado padrão de eficiência, responsabilidade, solidariedade, abnegação e lealdade durante o trabalho. Todos sentem como imperativo não abrigar ressentimentos e maus pensamentos a respeito de outros irmãos enquanto as panelas estão no fogo, porque essas vibrações penetrariam na bebida e a desarmonia seria sentida na miração” [7].

Poeticamente, Polari faz uma espécie de etnografia do feitio de Daime. Aqui, reproduziremos alguns trechos da sua envolvente narrativa:

“As mulheres foram para a Igreja limpar as folhas. Ficavam acocoradas, tirando, com movimentos ágeis dos dedos, todas as impurezas de cada folha de Rainha, uma por uma. Sempre bebendo Daime e cantando os hinos. O ciciar ritmado dos dedos virava uma espécie de acompanhamento e marcação do canto.

“Os homens foram cedinho para a Casa do Feitio. Um pequeno templo feito de madeira, coberto de zinco. Tomam o Daime. Logo à entrada, há uma salinha, cercada por um muro de tijolos de 1,5 m de altura. Dentro dela estão dispostos 12 tocos de madeira, com cerca de 60 cm de diâmetro, em duas filas de seis cada uma. E aí, com os homens sentados em tamboretes, ocorre a primeira fase do Feitio, a “Bateção”, depois do cipó limpo e raspado. Doze homens de cada vez, se revezando de 2 em 2 horas, batem o jagube até este ficar macerado em fibras ocre-vermelhadas.

“Enquanto isso, as folhas são lavadas e trazidas em sacas até o interior da Casinha do Feitio. Contíguo ao local da Bateção, está um salão amplo, onde fica a fornalha com 3 bocas e uma espécie de bancada, com uma canaleta, onde as panelas são viradas para que o líquido escorra até os recipientes onde ficarão guardados” [8].

Os feitores de Daime se encarregam de preparar as panelas. “Camadas de cipó macerado e das folhas são delicadamente colocadas, uma após outra, na enorme panela” [9]. Uma equipe fica encarregada de buscar lenha, enquanto o “foguista” (responsável pela fornalha) cuida para manter o fogo a todo volume na fornalha.

Os feitores fiscalizam as panelas. Com um “gambito” (espécie de tridente de madeira), remexem sempre as camadas de folha e cipó, evitando que a pressão empurre violentamente o líquido para cima e o derrame. O volume da água é reposto quando a panela ameaça secar.

Inicialmente é extraído um cozimento da mistura da água, cipó e folha. Depois de tirado todo o cozimento, ele irá ao fogo, novamente, com mais cipó e folha. Dependendo das combinações e do número de vezes que a nova mistura vai ao fogo, se produz Daime de 1º, 2º, 3º graus e, assim, sucessivamente. Outrossim, existem centros daimistas que declaram só produzir Daime simples, isto é, Daime de 1º grau.

“Aparentemente o processo é simples. Mas fica evidente o segredo e sabedoria necessários para executar um feitio. Não são apenas gestos precisos e ritualizados que explicam o milagre daquele ser que emerge de duas plantas. A partir de uma invocação, ele desperta do seu sono secular, na floresta, para nos mostrar e decifrar os mistérios inexplicáveis do Céu e da Terra.

‘Antes de tudo, o segredo do Daime é a concentração, o profundo trabalho espiritual, a força das ‘chamadas’ de determinadas entidades que vêm assistir e se incorporar naquele Daime que está sendo feito. O Daime é a soma, o resultado da força espiritual de várias pessoas, totalmente concentradas nessa tarefa” [10].

No sistema de crenças daimista, a bebida Daime ou Santo Daime é considerado por muitos adeptos como um ser divino, algo análogo à hóstia consagrada da Igreja Católica. Por isso, o feitio é acima de tudo um ato de encantamento e consagração, exigindo dos seus participantes um rigoroso preparo físico e espiritual [11].

Quem não provou, venha provar

Esta bebida que aqui está.

Um Ser Divino, transformado em líquido

Vem acordar o nosso espírito [12].

E como estamos narrando coisas do fantástico universo mágico-religioso ayahuasqueiro, lembremos daquele causo do Mestre Irineu que, num feitio de Daime, fez da sua mão direita como se fora um gambito, a enfiando na panela fervente para mexer o material, cipó e folha, lá dentro. Um seu discípulo, vendo aquilo, resolveu fazer o mesmo. Irineu Serra tentou persuadi-lo a não introduzir mãos e abraços na panela fervente, alertando-o para os riscos. Mas como cada um é “dono de suas vontades”, segundo palavras atribuídas ao próprio Mestre, esse discípulo, ao cometer tresloucado gesto quase perde mão e antebraço direito, atingido por fortes queimaduras.

Conclusão

Trabalho material versus trabalho espiritual ou trabalho material & trabalho espiritual? Não há uma fronteira rígida entre essas duas formas de ação humana, como afirmamos na introdução dessa breve comunicação. O Feitio de Daime é uma prova disso.

O produto do preparo dessa “bebida de poder inacreditável” é considerado por muitos “um Ser Divino, transformado em líquido”; para outros, um veículo para se chegar a Deus, uma substância enteógena, que realiza Deus no seu interior.

O Daime é o vinho das almas, liana do espírito, cipó dos mortos. O Daime é o vinho do êxtase espiritual. Sob a força e o poder do Daime, quando a alegria divina chega, somos elevados no Espírito. Ao sobrevir o profundo êxtase em Deus os pensamentos se aquietam banidos pelo comando mágico da alma.

Também chamado por ayahuasca, planta maestra, o professor dos professores, bebida de “poder inacreditável”, Senhora da Floresta, luz da floresta, Luz de Jesus, Hoasca, Vegetal, yagé… aqueles que quiserem viajar/navegar na luz do conhecimento dos mistérios da ayahuasca, que ainda não provou, venha provar. Se tiver merecimento, se for “da linha”, isto é, ayahuasqueiro, verá belezas e primores. Beberá a bem-aventurança Divina, experimentando uma embriaguez de alegria que nem mil goles de vinho poderiam proporcionar.

Referências bibliográficas

[1] POLARI DE ALVERGA, Alex. O livro das mirações. Uma viagem ao Santo Daime. Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1995, p.80

[2] MACRAE, Edward. Guiado pela lua. Xamanismo e uso ritual da ayahuasca no Culto do Santo Daime. São Paulo: Brasiliense, 1992 p.189.

[3] Podemos acrescentar os rituais da Santa Missa daimista e o Trabalho de Cura.

[4] Fróes apud MacRae, 1992, p. 109.

[5] Polari, 1995, p. 75.

[6] MacRae, 1992, p. 108.

[7] POLARI DE ALVERGA, Alex. O guia da floresta. Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1992, p. 161.

[8] Polari, 1992, p. 74-75.

[9] Polari, 1992, p.75.

[10] Polari, 1992, p.75-76.

[11] MacRae, 1992, p. 107.

[12] Hino daimista.

(Artigo publicado originalmente em 2005, revisto em agosto de 2015)

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.