Trabalho material e trabalho espiritual. A busca do cipó Jagube

Banisteriopsis caapi, também conhecido como cipó Jagube, Liana, Mariri, Yagé ou Caapi, é um cipó nativo da região amazônica usado em ritos religiosos.

Banisteriopsis caapi, também conhecido como cipó Jagube, Liana, Mariri, Yagé ou Caapi, é um cipó nativo da região amazônica usado em ritos religiosos.

O feitio de Daime | Por Juarez Duarte Bomfim 

A bebida sagrada conhecida como Daime é feita da decocção da folha Rainha (ou chacrona, psychotria viridis) e do cipó Jagube (ou mariri, banisteriopsis caapi). O líquido resultante desse preparo é usado nos rituais da doutrina daimista fundada pelo Mestre Daniel Pereira de Mattos, e é central para o desenvolvimento do trabalho espiritual dessa linha religiosa.

Esta doutrina está organizada na forma de cinco principais rituais: o Culto Santo, Obras de Caridade, sessões de instrução e preparo (concentração), festas no Parque (bailado) e feitio do Daime. Feitio é o nome dado pelos daimistas ao processo de preparo da bebida. A realização do feitio inicia-se com a busca do cipó Jagube e da folha Rainha. Todas as etapas do preparo da bebida são previamente estabelecidas de maneira que essa vivência, mais do que um trabalho material de produção de uma beberagem, seja considerada um momento de melhoria e cura pessoal.

Em todas as etapas do feitio de Daime, não há uma separação nítida entre trabalho material e trabalho espiritual, pois ambos se dão num continuum. Trabalho material & trabalho espiritual. Não há uma fronteira rígida entre essas duas formas de ação humana. Confirma-se isso quando os daimistas (adeptos do culto) consideram que a sua conduta social, o seu exemplo na faina diária, de homem trabalhador e perseverante, deve ser semelhante à condição de um “bom” trabalhador espiritual.

Em geral, os rituais daimistas são chamados de “trabalho”. Designam uma atividade física por vezes intensa e exaustiva do participante, mesmo quando este se encontra em postura de aparente relaxamento e repouso nas sessões de concentração, por exemplo; ou quando este, seguindo o ritual, está “bailando”, tocando, cantando – será sempre uma atividade psíquica absorvente e extenuante, pois o participante estará continuamente… “trabalhando”.

Daí que as fases de elaboração do feitio, começando pela coleta do material, é uma importante aula e graduação nesta escola espiritual.

Quando extrativista, o trabalho de coleta do cipó e da folha é assaz árduo. Divide-se os participantes por grupos de trabalho, sendo reservado aos homens as tarefas mais pesadas, pois é preciso localizar na floresta, cortar e transportar o cipó e a folha, em sacas, para a Casa do Feitio.

Há o choque com o sistema de propriedade fundiária, e a extração do vegetal fica a mercê da permissão do proprietário rural. O caráter extrativista-predatório leva a escassez da matéria-prima e aumento das dificuldades de coleta. A cada ano torna-se mais distante e mais trabalhoso a pesquisa e busca do cipó Jagube na floresta.

Esta linha espiritual, conhecida publicamente como “Barquinha”, realiza quase mensalmente grandes feitios, para provimento da Santa Luz (Daime) aos trabalhos da Igreja. O consumo da Santa Bebida aumenta – e muito – quando da realização das Santas Romarias, Santas Penitências. Alguns destes feitios são feitos com cipó nativo, extraído da mata virgem. Nesta breve comunicação, nos propomos a descrever a atividade de coleta do cipó Jagube e da folha Rainha realizada por membros de uma Igreja de Daime (Barquinha), situado em Rio Branco – Acre.

A pesquisa na mata

A organização do trabalho de busca do cipó Jagube na floresta amazônica começa dias, semanas ou meses antes da sua extração, com longas e exaustivas pesquisas realizadas pelos irmãos “mateiros” da Missão de Mestre Daniel. Mateiros são aqueles indivíduos com um profundo e empírico conhecimento da floresta, dos animais e vegetais que a compõem, assim como facilidade de localização e deslocamento pelas matas. Geralmente são antigos seringueiros, “colonheiros” ou filhos destes que se capacitaram nesta valorizada habilidade.

Um dos mistérios e magia da bebida indígena ayahuasca – nome em língua quéchua para a bebida – é que o cipó e a folha não nascem no mesmo lugar, e sim em pontos distantes. Além disso, o trabalho de busca do cipó é cercado por mitos e lendas que afirmam o encantamento desta planta sagrada, que só se apresenta e se revela para extração quando quer, no mais das vezes permanecendo oculta para aqueles que a procuram — mesmo que muito próximos da mesma.

Uma vez identificado o cipoal (reinado de Jagube), pressurosamente os mateiros assinalam o local, notificam à Missão e, a partir de então, começa a organização da expedição para a busca (coleta) do cipó, pelos homens da irmandade

A folha Rainha que será usada para o feitio descrito, foi gentilmente cedida por um centro daimista co-irmão, cabendo ao Centro Espírita demandante da folha preparar uma equipe para a “catação”, seguida de ensacamento e transporte do local do “folharal” (chacronal) até a sede da Colônia, onde se encontra o caminhão que levará o material até à Casa de Feitio, localizada nos domínios da Missão.

A catação da folha Rainha é feita geralmente por mulheres, com alguns poucos homens as auxiliando nos afazeres mais pesados, como a limpeza do terreno, o ensacamento e transporte das sacas. O trabalho de catação da folha será mais penoso quanto maior for a distância do “folharal” ao local de acesso de veículos, assim como as dificuldades encontradas nos caminhos e trilhas: mata semifechada, igarapés e córregos para cruzar, relevo do terreno etc.

A busca do cipó Jagube

O domingo é o dia escolhido devido à disponibilidade da irmandade trabalhadora, livre dos afazeres cotidianos. Para a busca do Jagube, reúne-se a maior quantidade possível de homens jovens, fortes, para dar conta da árdua tarefa: separar o cipó da árvore na qual ele está enganchado – como planta trepadeira – sem ofender ou derrubar a árvore hospedeira, respeitando a natureza. E depois, mais “sacrificoso” ainda, transportar os grandes feixes de cipó mata afora, até chegar ao ramal onde providencialmente estão estacionados os carros para transporte do material.

O início do trabalho de busca do cipó Jagube e catação da folha Rainha ocorre às 4:30h da madrugada de domingo, quando dá-se início a concentração de homens e mulheres (motoristas) que vão à mata retirar as plantas sagradas.

Com todos em volta do Cruzeiro, na sede da Missão, separados por gênero, o ato litúrgico começa com “três preces” – três Pai Nosso e três Ave Maria – seguidas de um Salve Rainha e do Creio em Deus Pai. O presidente do Culto de Oração e coordenador dos trabalhos faz a abertura, em nome do fundador da Missão, Frei Daniel, e dirige as rogativas ao Pai de Bondade e a Rainha da Floresta para que Eles façam a guarnição e cobertura, e que as hostes celestiais vos acompanhem para que a coleta do cipó Jagube e da folha Rainha seja feita na Santa Paz, com presteza e harmonia, e que nada de mal aconteça, que as correntes inferiores não possam atrapalhar o seu desenvolvimento e nenhum inseto venenoso ou animal peçonhento possa vos fazer mal.

Pé na estrada

Tudo disposto, é dado a saída do cortejo de caminhão, camionete e pequenos automóveis rumo a floresta. O dia amanhece, e uma providencial “parada técnica” é feita em estratégica panificadora, para provimento e sortimento dos produtos que comporão o frugal café da manhã das equipes de trabalho.

Na sede da colônia do centro co-irmão ficam as mulheres e alguns poucos homens responsáveis pela catação da Rainha, os demais seguem nos carros até a porteira da fazenda de acesso a mata, a caminho do jagubal.

Descem todos e se preparam para adentrar a mata. Quando surgem as primeiras dificuldades.

Talvez pela proximidade da Semana Santa (Paixão de Cristo), os membros da irmandade que participam desta expedição, a cada obstáculo encontrado, fatalmente os comparam aos passos do Senhor, e concluem dizendo: “mais sofreu Jesus por nós”.

Devido a esta oportuna comparação, a partir daqui, na narrativa da busca do cipó Jagube, será traçado um paralelo comparativo entre os contratempos vividos nesta estafante aventura, com as estações da Via Crúcis do Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os Passos do Nosso Senhor

Primeira estação da Via Dolorosa. Barrados na porteira do rico fazendeiro

“Por ocasião da festa (páscoa judia), costumava-se soltar um preso, escolhendo o povo aquele que quisesse. E tinham então um preso bem conhecido, chamado Barrabás. Portanto, estando eles reunidos, disse-lhes Pilatos:

– Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?

Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram à multidão que pedisse Barrabás e matasse Jesus. Então Pilatos lavou as mãos diante da multidão, dizendo:

– Estou inocente do sangue deste justo.

Por impedimento do rico proprietário da fazenda, a expedição tinha rodado dezenas de quilômetros adicionais, por ramais lamacentos, para acessar a mata pelos fundos da mesma. É quando, na porteira de acesso, acontece nova advertência: não seria possível transitar pelas proximidades da sede, por ordem expressa do dono das terras. A expedição é sentenciada a buscar alternativas de acesso à mata pretendida.

O capataz, cumpridor de ordens, sugere como alternativa que a expedição adentre a mata através de caminho inóspito, com os mateiros se desdobrando no uso hábil do terçado, para que todos conseguissem transitar pela precária e improvisada trilha, varadouro aberto dentro de espinhento tabocal.

Segunda estação. Feixes de cipó aos ombros.

“Pilatos entregou-Lhe para ser crucificado. E tomaram a Jesus, e o levaram. E, levando ele às costas a sua cruz, saiu para o lugar chamado Caveira, que em hebraico se chama Gólgota”.

Ao chegarem ao reinado de Jagube (cipoal), o presidente do Centro reúne em círculo o numeroso grupo de homens e, antes de iniciar-se a coleta do cipó, são rezadas mais três preces e renovados os pedidos de guarnição e proteção à Rainha da Floresta. Bebe-se o Daime.

O grupo se divide em quatro equipes, cada qual responsável pela coleta de um determinado número de cipós. Dificuldades enormes se apresentam, e os coletores se superam em esforços para retirar da árvore hospedeira o cipó todo enramado. Rapazes jovens e hábeis escalam alturas de trinta metros ou mais, por diversas vezes, para por abaixo o precioso vegetal, que será transformado na Santa Luz pela alquimia divina.

Pelo comprimento e espessura do cipó, e sua superfície coberta de limo, se torna impreciso estabelecer a idade da planta, quase decenal.

Uma vez posto ao chão o cipó, é separado em compridos pedaços de 1,70m, e feito feixes de cerca de trinta quilos. Amarra-se a cilíndrica planta com um tipo de cipó apropriado. E este cipó utilizado e a amarra é tão bem feita que não irá se soltar ou desfazer por toda a caminhada de volta, por maiores que sejam os percalços encontrados.

A parte mais difícil e trabalhosa da tarefa coletiva então começa: o transporte dos feixes de cipó até o ramal onde a camionete está estacionada, para o transporte de volta a Rio Branco. Cada homem acondiciona aos ombros o seu fardo e começa a trilhar o caminho de volta. “Se alguém quiser ser Meu discípulo, tome a sua cruz e sigaMe”.

Terceira estação. Queda na floresta.

“A terra parece mover-se. Cristo tropeça, perde o equilíbrio e cai. Sente a terra, a poeira na boca. O peso da cruz o sufoca”.

Enquanto estavam na lida estafante, os homens foram surpreendidos por copiosa chuva, daquelas que sói cair na Amazônia. Os caminhos de volta logo ficam enlameados e perigosamente escorregadios. Quedas e mais quedas se sucedem no grupo. Sentem a terra e a lama pelo corpo. Os feixes de Jagube se tornam mais pesados.

Quarta estação. Rogos à Rainha da Floresta.

“Maria vai com Seu Filho. Ela vai na multidão despercebida. Não fala, vai junto com Jesus, preocupada com todos nós”.

Os “soldados do cipó”, sentindo o cansaço chegar, rogam intimamente pela ajuda da Rainha da Floresta, Nossa Senhora da Conceição, que lhes dê força e brio.

Quinta estação. Auxílio mútuo.

“E, quando saíam, encontraram um homem cireneu, chamado Simão, a quem constrangeram a levar a sua cruz”.

A todo momento se sucedem ações de auxílio mútuo e solidariedade, quando os soldados do cipó se ajudam, levantando uns aos outros das quedas, pondo os feixes nos ombros do irmão, estendendo uma mão amiga para atravessar as escorregadias margens dos córregos, cruzar os igapós.

Sexta estação. Limpeza de rostos enlameados.

“Verônica olhava para Seu rosto. Rosto sujo, cansado. Cabelos grudados com poeira, sangue e suor. Estremeceu em si, não podia esperar mais. Na presença dos soldados e inimigos enxugou o rosto de Cristo”.

Alguns homens, ao caírem, enlameavam corpos e rostos, dificultando inclusive a visão. Uma mão amiga, com uma prestativa toalha se apresentava em auxílio do necessitado.

Sétima estação. Segunda queda de muitos

“Cristo está no fim das Suas forças. O peso da cruz, o calor, o caminho em subida… as forças se esgotam, o cansaço cresce. Cristo cai de novo por terra”.

Calor insuportável e chuvas torrenciais, repentinas, aumentam os obstáculos. Todavia, são os ataques de vorazes insetos o que mais incomoda. Todos se assustam quando ameaçadora onça esturra nos arredores, como trovão.

A excursão dos carregadores chega ao comprido tabocal, trecho mais espinhento do trajeto. A terra molhada, perigosamente escorregadia, leva muitos ao solo, mais uma vez. Os feixes caem para um lado, o seu transportador para outro.

Oitava estação. Mulheres no feitio de Daime

“As mulheres choram, lamentam, vendo Cristo. Não podem ajudar, limitam-se a chorar. Têm pena de Cristo. Cristo, embora cansado, percebeu-as, ouviu-as, consolou-as”.

A percepção de que o papel das mulheres é secundário, no feitio, é apenas aparente, não corresponde à realidade. Além de trabalharem na catação da folha Rainha, se encarregam do transporte de pessoal, alimentação, cuidados com as crianças, liberando os pais para a lida.

Nona estação. Transpor igapós.

“Cristo cai de novo. Os soldados batem. Cristo não se mexe. Senhor, morrestes?! Ainda não, as forças quase acabaram. Restou ainda um pedacinho do caminho: dois, três passos…”

A chuva formou igapós onde antes eram margens secas dos córregos. Os “soldados” tentam vencê-los. Terceira queda. Escutam-se os alaridos dos cachorros. Aproxima-se o final da jornada.

Décima estação. Corpos e cipó unidos.

“Cristo não tinha mais nada a não ser uma veste. Da qual foi despido. Agora não existe mais nada entre o corpo de Cristo e a cruz. Os homens uniram a cruz e o corpo para sempre”.

A torrencial chuva amazônica cola a roupa aos corpos suados dos homens. Os pesados feixes de cipó aos ombros se unem aos corpos suarentos. Para sempre?

Décima primeira estação. Chegada ao ramal.

“Jesus é repregado na cruz. Nós também precisamos aceitar a nossa cruz na hora presente. Não podemos escolher. Temos que aceitar a nossa cruz”.

Os soldados do cipó começam a chegar ao ramal limítrofe à fazenda. Um a um, os feixes vão sendo depositados sobre a carroceria da camionete. Os corpos cansados, extenuados, se estendem sobre a lama que antes era uma estrada, para providencial e molhado descanso. Breve esgotamento, seguida de rápida recuperação. “O Meu fardo é suave e o Meu jugo é leve”.

Décima segunda estação. Morte e ressurreição no precioso líquido.

“Cristo morre. A vida pára, o coração não bate mais. O Coração grande como o mundo — o mundo de pecados que carrega em si”.

O cipó já está colhido e armazenado. Três dias se passarão da sua “morte” (extração do vegetal) até a ressurreição no preparo da Santa Luz de Jesus.

Décima terceira estação. A alquimia divina.

“Devagarinho descem-no da cruz. A Mãe de Piedade recolhe-O nos seus braços”.

Na chegada à sede da colônia da igreja co-irmã, os homens encontram as grandes sacas de folha Rainha já catadas. O Rei Jagube e a Rainha Chacrona se enlaçarão na alquimia divina.

Décima quarta estação. A Santa Luz de Jesus.

“Cristo é depositado no sepulcro. Na entrada, uma grande pedra. Resta a esperança na ressurreição”.

Pronto para irem à panela. Cipó Jagube e folha Rainha ressuscitarão na Santa Luz de Jesus. Amém.

O ato litúrgico de busca do Cipó Jagube e da folha Rainha na floresta amazônica se encerra com todos em círculos, dentro da Casa do Feitio, quando são rezadas três preces e feitos pelo presidente, em nome do Fundador da Missão, os agradecimentos ao Deus de Bondade e a Senhora Rainha da Floresta pelos bons resultados alcançados e a harmonia que imperou por todo o sagrado dia de hoje.

Amém Jesus.

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.